Idealizado em 2006, o Fine Na Dairbre (Pronúncia: Fine na Deie-bra, fonte do áudio: http://www.abair.tcd.ie) – “Família do Bosque de Carvalhos”, em português – surge, tento como influência ADF e seu fundador Issac Bonewits, mesclando conceitos Históricos e Antropológicos para criar uma base voltada exclusivamente para a cultura Céltica Irlandesa e até 2011 ele se constituiu como um grupo fechado, só abrindo suas portas para novos membros em 2012, embora já fosse conhecido no cenário nacional.

O grupo nasceu como um sistema clânico de organização, cujo objetivo era partilhar conhecimento e buscar o crescimento integral do grupo dentro de parâmetros, reconhecidos como Reconstrucionistas, a que nos propomos. Sendo desejado e incentivado que todos construam suas próprias linhas de argumentação, respaldadas por evidências coerentes, e, com isso, possam contribuir para o crescimento da Túath (Tribo) proporcionando novas linhas de raciocínio ou ajudando a consolidar as já abordadas.

Embora nos seja hoje impossível reviver a cultura “céltica” de uma forma original, nós podemos, através do estudo e da erudição, buscar no cerne das práticas originais a que temos acesso através da história e arqueologia, o simbolismo e o significado de que eram dotadas para aquela sociedade e transpor, se não a forma, o conteúdo dessas práticas para a construção de um novo conjunto de rituais. Uma vez que dentro da Fine na Dairbre procuramos nos conectar com os “celtas” históricos, mais especificamente aqueles que habitaram a Irlanda na Idade do Ferro, é nesse tempo e espaço que concentramos nossos estudos e práticas.

Entre maio de 2013 e agosto de 2017, fomos um Protogrove da ADF. Durante esse período aprendemos muito e fizemos bons amigos, mas como todo período de aprendizado, este ciclo terminou para a Túath, que sentiu uma grande necessidade de voltar às suas raízes mais reconstrucionistas e alçar vôo para um caminho diferente do da ADF.  Assim, a partir de 2017 nossa reconstrução interpretativa se renova e recomeça mais uma vez.

 

Nosso druidismo

Assim, podemos dizer que, embora haja o desejo de recriar as práticas sociais e religiosas o mais próximo do que elas eram historicamente, atualmente existem várias impossibilidades para que isso ocorra: nosso mundo é outro. Portanto, é através da apreensão do significado social, cultural e religioso desses povos do passado que buscamos reconstruir hoje uma prática que seja possível dentro da conjuntura em que o mundo se encontra. Nosso conceito de druidismo recai fortemente sobre o druidismo da Antiguidade Irlandesa. Para nós, druidas eram e são mais do que sacerdotes, eles eram eruditos que buscavam compreender o mundo e conhecer a história de seu povo e almejavam a excelência em tudo o que faziam.

Dessa forma, a todo aspirante é necessária não somente a vontade, mas também o empenho em estudar vários campos científicos, mas não somente isso: esse conhecimento deve ser convertido em práticas, ou seja, objetivamos conhecer intelectualmente a fim de empregar este conhecimento como base para o desenvolvimento pessoal e de nossa religiosidade.

Ainda é preciso lembrar que existem enormes lacunas a respeito de como eram as práticas religiosas e ritualísticas desses povos da antiguidade, sobretudo devido ao esforço do cristianismo em apagá-las. Portanto, a fim de estabelecer uma ritualística própria, frequentemente é necessário recorrer a relatos mitológicos tardios, relatos de outros povos, como gregos e romanos, tanto quanto a técnicas de comparativismo de outras culturas arcaicas e também a modelos mais ou menos modernos de “magia e ritualística” que, embora não sejam “celtas”, servem como um tipo de argamassa para juntar os “blocos” de conhecimento que, de outra maneira, ficariam apenas relegados ao plano intelectual.

E é aí que reside a importância principal de todo o estudo realizado pelos membros da Fine na Dairbre: adquirir a capacidade de identificar o que é “céltico”, o que poderia ser e o que não é, para que a construção da prática seja sempre consciente e orientada ao objetivo de resgatar a religiosidade céltica. Pois,  ao termos consciência da origem daquilo que incorporamos às nossas práticas, estamos menos sujeitos ao estabelecimento de ortodoxias e mais abertos à mudanças quando da necessidade ou desejo de substituir um elemento “estrangeiro” tendo em vista, por exemplo, uma descoberta arqueológica que preencha com um elemento nativo aquela lacuna que de outra forma estava sendo ocupada por uma estrutura externa ao contexto “celta”.

Também buscamos sempre incentivar nossos membros em perseguir seus objetivos e desenvolver habilidades físicas, artísticas e intelectuais que, embora possam não ter relação direta ou imediata com nossas práticas, contribuem para o desenvolvimento pessoal de cada um e, em última instância, com o desenvolvimento da tribo.Por exemplo, procuramos incorporar, dentro do possível, todos os aspectos da cultura céltica em nosso dia a dia. Conceitos como famílias, verdade, honra, hospitalidade e coragem são de extrema importância e fazem parte das nossas vidas diárias, assim como a busca pela excelência em nossas atividades, mesmo as mais corriqueiras.

Outro fator crucial a este respeito é a não universalidade das divindades, prática muito comum nos dias de hoje. Independentemente de ser vista como um “arquétipo”, “força natural”, ou “potência astral”, uma divindade só faz sentido e só é completa dentro do contexto social, cultural e religioso dos quais faz parte, e as semelhanças com outras divindades de outras culturas não justificam a assimilação: esse é um movimento que teve origem com os romanos, e que atendia tão somente ao objetivo de aculturar e pacificar os povos conquistados. Utilizando-se de uma anedota comum, dizer que todas as divindades “parecidas” são uma única divindade é o mesmo que dizer que japoneses e chineses são iguais.

Ainda sobre as divindades, vale lembrar que dentro do universo céltico, não existia o conceito greco-romano de “panteão”, ou seja, não existiam divindades específicas presidindo aspectos específicos do mundo e da sociedade. Dentro do universo céltico histórico, várias divindades exercem funções parecidas ou iguais; a esmagadora maioria delas é guerreira, e detém algum tipo de poder mágico. Muitas exercem as mesmas “profissões”, e não existe uma hierarquia divina estanque, como no caso da maioria das outras culturas.

Por fim, ainda, é preciso falar a respeito de nosso treinamento. Dentro da perspectiva de buscar uma aproximação com o “druidismo” histórico, pelo qual sabemos que os “druidas” eram juristas, historiadores, legisladores, médicos, sacerdotes, adivinhos e conhecedores de magia, nosso treinamento buscará formar pessoas capazes de conhecer “nossa” cultura (a cultura céltica histórica e a que estamos desenvolvendo), de julgar as coisas com clareza, de oficiar os ritos e também de utilizar-se da magia quando necessário.Por uma escolha de identificação pessoal, mas também de ordem prática, quando a Fine na Dairbre foi criada, decidimos por nos dedicar ao contexto religioso, cultural e social da Irlanda pré-cristã, pois além da abundância de relatos dos povos que ali viveram, que sobreviveram devido a condições históricas muito peculiares, a visão de sociedade que esses povos nos deixaram é aquela que vai mais de encontro ao que acreditamos ser uma “sociedade ideal”.

Para tanto, como parte da trajetória do aspirante, farão parte o estudo de obras de historiadores e arqueólogos, tanto quando práticas de visualização, “meditação”, projeção de energia e também de elaboração e execução de rituais devocionais.