por Marina Holderbaum

Se analisarmos o conceito de Sagrado e Profano que Mircea Eliade nos oferece, nós podemos perceber que a ideia de Cosmos e Caos está diretamente relacionada ao que uma sociedade inclui em si mesma, e para os Celtas isso não era diferente. O que os diferencia é que eles conquistaram toda a paisagem e, portanto, sacralizaram-na como um todo ao seu redor.

Cada aspecto da paisagem tem uma história e um nome. Felizmente, este foi um dos registros que os monges cristãos compilaram da tradição oral, “The Metrical Dindshenchas”, ou “O Conhecimento dos lugares”. Nele nós temos a história de cada lugar, dos rios e lagos, das montanhas, colinas e planícies e também dos montes funerários e poços e toda gama de acidentes geográficos que possa ser citado.

Os Celtas nomeavam cada movimento da paisagem, criaram um oráculo com suas árvores, descrevendo seus aspectos sociais e botânicos e a própria Irlanda é regida por três divindades femininas: Ériu, Fódla e Banba. Fazendo isso eles tornaram o mundo livre de Caos, o Cosmos foi totalmente Sacralizado pelas divindades e por aqueles que conquistaram cada pedaço de terra ou água. Mesmo o Outro Mundo é descrito e conhecido, é feito de ilhas e planícies que viajantes que atravessaram para o outro lado voltaram para descrever.

Mas se a ausência de Caos da paisagem vem da sua fundação, da sua inclusão no mundo Social, então o papel do Druida como guardião e mantenedor dos mitos e da história de seu povo podem começar a ser vistos como religiosos também. Ao contar os mitos e a história dos lugares ele não está apenas contando uma história, mas mantendo a sacralidade da paisagem. Se este conhecimento se perder, se perde também a conquista do Cosmos e o mundo volta a ser Caos. O equilíbrio está em manter o Sagrado vivo neste mundo através do saber, pois a sociedade não pode se inserir no Sagrado sem conhecê-lo.

A paisagem foi completamente sacralizada e a memória dessa interação social é tão relevante a ponto de ser uma função da classe sacerdotal, mas a própria Irlanda é regida por divindades que segundo o mito deram a ela seus nomes em diferentes épocas.

A terra, diferente da paisagem que é sacralizada, é vista como sagrada enquanto emanação da vontade de uma divindade. Cada soberano pede a terra sua aprovação no ritual de coroação e assim a sua responsabilidade enquanto soberano é ser honrado o suficiente para ser digno de receber sua aprovação, que pode ser retirada por ela e consequentemente pelos seus súditos, que reconhecendo a falta do soberano como distribuidor e provedor do bem estar da sociedade, o substitui por um que esteja à altura da Soberania e à qual ela conceda seus frutos e inspiração.

O Sistema Irlandês imita a relação de proximidade que se tem com as divindades. Claro, que resguardando as devidas proporções. Um soberano não é como em muitas culturas a encarnação de uma divindade ele é um representante da terra, ou da divindade soberana do território, que é aceito por ela, mas pode ser substituído se falhar em sua função.

Mas, se o Soberano e o Druida têm suas funções, o indivíduo, qualquer que seja ele também tem, pois sendo a paisagem sagrada e a sociedade totalmente emersa no sagrado, então, toda ação pode gerar uma consequência no equilíbrio entre a Sociedade e o Sagrado. Aí temos uma relação de responsabilidade em relação à sociedade e ao indivíduo e como eles interagem com a paisagem, com o sagrado, com outros indivíduos e com a própria sociedade.

Ser parte do Sagrado, ver o cosmos como livre do caos implica em viver consciente do Sagrado e se ver como agente ativo na manutenção do Sagrado no mundo, então o equilíbrio entre o social e o sagrado é precário, pois não depende apenas de uma classe Sacerdotal, depende do soberano e dos indivíduos como um todo. Tanto é assim que Caesar relata que a maior penalidade que podia ser imposta a um Celta era ser impedido de assistir aos sacrifícios. Esta penalidade não só distanciava o indivíduo do Sagrado, mas também da Sociedade, pois distanciar-se do Sagrado era se distanciar do Cosmos.

Dessa forma o Druida mescla funções sociais e espirituais, que se interconectam em uma função principal, a manutenção do equilíbrio Sagrado. O equilíbrio da Sociedade com ela mesma, através do poder temporal enquanto jurista, conselheiro e juiz, da Sociedade com o Sagrado, através do poder espiritual, interpretando os sinais do Sagrado e das Divindades e o do Sagrado no Cosmos, mantendo os ritos cosmogônicos e os mitos de sacralização do Cosmos vivos.

Referências Bibliográficas:

 CALDER, George (Ed. e Trad.). Auraicept na N-Éces (The Scholar’s Primer). Edinburgh, John Grant 1917.

CHADWICK, Nora K. The Druids. Cardiff, University of Wales Press, 1997.

ELIADE, Mircea. Tratado de História das Religiões. Martins Fontes, São Paulo, 2002.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Civilização Celta. Mem Martins: Publicações Europa América, 1999.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Sociedade Celta na ideologia trifuncional e na tradição religiosa indo-europeia. Mem Martins: Publicações Europa América, Portugal, 1995.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.