Por Marina Storino Holderbaum

Na cultura Celta, a coragem tinha a função social de promover a interação entre as classes, sendo uma forma de adquirir honra e, consequentemente, status. Em uma sociedade bélica e baseada em honra como a Céltica este elemento era de fundamental importância para qualquer forma de interação social. O professor Kim McCone do Department of Old Irish do Saint Patrick’s College explica a relação entre as classes Célticas Irlandesas e a guerra em seu artigo publicado na revista Ériu, Aided Cheltchair Maic Uthechair: Hounds, Heroes and Hospitallers in Early Irish Myth and Story.

“This interdependence of kingship and production of fertility, the ‘first’ and ‘third’ functions respectively according to Dumezilian terminology, is of vital importance in early Irish ideology, but the aim of this paper is rather to explore the equally essential relationship between the basically productive and pacific ‘third function’ and warfare, which constitutes the martial ‘second function’ of the Dumezilian system. This brings us into a world of ‘mad dogs and Irishmen’, or rather Irish warrior-heroes.”

Para os Celtas a coragem não era apenas uma virtude, mas uma parte fundamental da estrutura social, já que a guerra e as razias eram um elemento de interação social da qual as três classes sociais participavam, embora a classe Sacerdotal não fosse obrigada a tal e a participação da classe produtora consistisse basicamente na confecção de armas e equipamentos. Valor de honra e status eram ganhos por demonstrações de coragem e eram perdidos por demonstrações de covardia. Katharine Simms afirma que ‘acusar um Rei de covardia era, na verdade, dizer que ele era inapto à posição de Rei’. Um covarde seria inapto a ser Rei em uma Sociedade Celta já que ele seria considerado sem valor de honra e, portanto, desprovido de qualquer status. Strabo descreve claramente o gosto Celta pela guerra.

“The whole race, which is now called Gallic or Galatic, is madly fond of war, high-spirited and quick to battle, but otherwise straightforward and not of evil character. And so when they are stirred up they assemble in their bands for battle, quite openly and without forethought, so that they are easily handled by those who desire to outwit them; for at any time or place and on whatever pretext you stir them up, you will have them ready to face danger, even if they have nothing on their side but their own strength and courage.”  

Esta “virtude” era de tal importância na cultura Celta que um nobre covarde jamais conseguiria se envolver completamente com a comunidade uma vez que ele se excluiria do campo de batalha e do momento único de interação entre os indivíduos e as classes que a batalha propiciava. Por outro lado um membro da classe produtora poderia participar efetivamente da batalha, embora ele não tenha recebido treinamento para tal, e aumentar seu valor de honra, podendo chegar a um nível de reconhecimento tal que propicie sua aceitação na classe guerreira.

A guerra era a oportunidade de o indivíduo demonstrar seu valor, adquirindo honra, para tanto os mais bravos guerreiros desafiavam os inimigos para combates individuais como uma forma de tornar explicito seu valor diante de toda a sociedade. O relato de Diodorus nos dá uma boa ilustração do comportamento Celta no campo de batalha.

“When the armies are drawn up in battle array they are wont to advance before the battle-line and to challenge the bravest of their opponents to single combat, at the same time brandishing before them their arms so as to terrify their foes.”

Outro tipo de campanha, que embora tivessem funções específicas na manutenção da riqueza e prosperidade das tribos, eram as razias de gado, que compartilhavam as mesmas funções sociais que a guerra de obtenção de valor de honra. Esta prática era uma atividade institucional promovida pelos reis e nobres nos quais os mesmos códigos de honra estabelecidos nas guerras eram observados. As razias eram tão importantes que muitos reis morriam em tais empreitadas, já que eles deviam demonstrar serem os mais bravos dos homens e devessem comandar o ataque na linha de fronte e resguardar a retaguarda no retorno para casa zelando pela segurança de seus aliados. Katharine Simms em seu artigo para a revista Celtica, Images of Warfare in Bardic Poetry, nos dá uma boa ideia do quão importante era a conduta do rei em uma razia.

“The commonest form of campaign was the cattle-raid, in which the bare-footed, almost unarmed footed-soldiers were chiefly employed in burning thatched houses and rounding up herds of cattle, while the bulk of the fighting fell to the armed horsemen, that is the chieftain himself, his nobles and kinsmen, ho rode first into enemy territory and last out of it, as a bardic poem boasted of the chief of Teallach Eachach: ‘The rear of the troop is the place of dark-browed Niall when living a fight, the vanguard his place during it, he always asked his companions to let him go first in to any dark house.’ Historically the Annals record many Irish kinglets as having been killed in the rear of a raiding-party while defending their prey, or in the forefront of the pursuit while reclaiming prey taken from them. It was above all the leaders, and not the rank or file, who were expected to man the gap of danger and sacrifice their lives in defense of their followers.”

Em The Second Battle of Moytura nós temos um bom exemplo de coragem na literatura mitológica quando Lugh, que embora pertencente à nobreza possuísse habilidades da classe produtora, desafia Balor, e em um único e preciso movimento o atinge no olho, matando não só ele como grande parte do exército inimigo que é atingido pelo último olhar do evil eye de Balor. Esta manifestação épica de coragem corrobora para o nosso entendimento do ideal de conduta Celta nos eventos bélicos e provavelmente tenha feito parte da própria noção de conduta ideal deles próprios enquanto relato mitológico. A descrição do encontro entre eles nos ajuda a entender a grandiosidade deste combate e imaginar o valor de honra que resultaria dele.

“Lugh and Balor of the Piercing Eye met in the battle. An evil eye had Balor. That eye was never opened save only on a battle-field. Four men used to lift up the lid of the eye with a (polished) handle which passed through its lid. If an army looked at that eye, though they were many thousands in number they could not resist a few warriors. Hence had it that poisonous power. His father’s druids were concocting charms. He came and looked over the window, and the fume of the concoction came under it, so that the poison of the concoction afterwards came on the eye that looked. Then he and Lugh meet.”

A sociedade Celta era governada por honra e coragem, pois estas “virtudes” eram de vital importância para as relações sociais. Embora para nós elas pareçam conceitos interligados, é preciso lembrar que existem diferenças cruciais entre elas na sociedade Celta, pois a coragem é um pré-requisito para a interação social enquanto a honra é uma virtude individual, que pode inclusive ser medida, adquirida ou perdida. Portanto, a coragem era um meio de interação entre as classes, enquanto o valor de honra era um meio de diferenciação entre elas. Em Pagan Celtic Ireland Barry Raftery descreve a importância da guerra na vida social dos Celtas Irlandeses.

“The enduring image of the Celtic society which emerges from the written sources, both vernacular and Classical, is of a society dominated by a warrior caste which is fierce and quarrelsome, recklessly brave in battle and exceedingly prickly on points of personal honour. The Irish tales in particular present us with a culture in which warfare is endemic, where fighting is based on individual prowess, and where set-piece confrontations take place between selected champions. Among these people warfare was almost a ritualized sport with a well-defined code of conduct.  
Across the European mainland, a warrior class is clearly recognizable in the archaeological record. In all areas where La Tène cemeteries occur, burials of heavily armed adult males are constantly recurring feature. The combined evidence of archaeology and the written sources enables us to envisage, without difficulty, the boast, strutting warriors engaged in their lethal pursuits.”

Quando entendemos que a coragem era um fator de inserção do indivíduo na comunidade ficamos mais perto de entender porque as guerras e as razias são temas tão recorrentes na mitologia Celta Irlandesa, já que estas tinham funções fundamentais na manutenção da estrutura social, enquanto promotoras da interação entre classes e definidoras de valores individuais de honra.

Referências Bibliográficas:

MCCONE, Kim. Aided Cheltchair Maic Uthechair: Hounds, Heroes and Hospitallers in Early Irish Myth and Story. Ériu, Vol. 35. Published by Royal Irish Academy. (1984), pp. 1-30

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

SIMMS, Katharine. Images of Warfare in Bardic Poetry. Celtica 21. Dublin Institute for Advanced Studies, 1990.

STROKES, Whitley (Ed. e Trad.). The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12, Paris, F. Vieweg (1891) page 52-130, 306-308. http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html