celtic cooking

Por Marina Holderbaum

Oenthal vinha correndo, esbaforido, através dos campos com destino a casa de Scathach. Quando chegou à porta da casa abriu a porta imediatamente, sem sequer diminuir seu ritmo. Entrou correndo na casa e só parou em frente ao tio que rispidamente o mandou parar, antes que o menino o atropelasse.

– Pare! – Falou Scathach que olhava para o garoto com uma expressão de desaprovação.

O menino sequer conseguia falar, ficou apenas tentando respirar por alguns minutos e recuperar seu fôlego antes de tentar falar algo, mas o tio o interrompeu antes mesmo que o som pudesse sair da sua boca com um sinal com a mão direita para que ele não continuasse.

– O que você tem para me falar é um caso de vida ou morte, meu sobrinho?

– Não senhor, tio! – respondeu apreensivamente o menino, já sabendo que seria repreendido.

– Algo trágico e irreversível poderá ser evitado com a informação que você traz, meu sobrinho?

– Não senhor, tio!

– Você já me viu entrar na sua casa sem bater ou pedir permissão para entrar se a porta estivesse aberta, meu sobrinho?

– Não senhor, tio!

– Você já me viu faltar com a hospitalidade com um hóspede ou com um anfitrião na casa de quem quer que fosse, meu sobrinho?

– Não senhor, tio! – respondeu mais uma vez Oenthal, agora ciente de que não seria apenas uma advertência por ter entrado correndo na casa do tio sem bater, algo que fazia com frequência e pelo qual sempre era repreendido.

– Tem certeza, meu sobrinho?

– Sim, senhor! Mesmo no funeral da tia Caílin, embora o senhor estivesse pálido e muito abatido, o senhor recebeu a todos em sua casa com um sorriso no rosto e muita fartura, como se estivesse dando uma festa.

– Isso, mesmo! Porque, meu sobrinho?

– Porque não há remédio para a morte, e não deve se usar de desculpas para se esquecer da boa educação. Os hóspedes em sua casa eram pessoas queridas e que lhe queriam bem e gostavam muito da tia Caílin, por isso faltar com a hospitalidade à eles era faltar com o respeito à memória da  sua esposa, que sempre tratou a todos com a mais pura generosidade e simpatia. Foi o senhor mesmo que me disse isso quando perguntei como o senhor conseguia sorrir ao receber as pessoas.

– Sim, meu sobrinho! – falou Scathach, após engolir o nó que se formou em sua garganta. Ele não esperava que o sobrinho se lembrasse de cada palavra que havia dito naquele dia, mas se lembrou. – Então o que você aprendeu sobre hospitalidade, meu sobrinho? – continuou ele.

– Eu aprendi que a não ser que algo muito importante possa ser evitado pelo tempo que se levaria sendo simpático e agradável com as pessoas ou que a hospitalidade seja quebrada primeiro por aquele a quem se devia hospitalidade, não há motivos para ser grosseiro ou faltar com a educação a alguém!

– E então? – Perguntou Scathach

– E então? – repetiu o menino, pois não havia entendido a pergunta.

– E então, o que você tem a dizer, meu sobrinho? – E fez um gesto para que o menino olhasse para trás.

O menino se virou e só então percebeu que todos os anciãos da região estavam na casa de seu tio, todos muito quietos e imóveis esperando que a lição estivesse completa. Oenthal gelou, sua face ficou vermelha e suas mãos pálidas, ele não havia percebido que havia mais pessoas na sala, muito menos que havia uma reunião de anciãos ali.

– Peço mil desculpas pela minha falta de educação, sábios anciãos! – falou Oenthal, que sem saber o que mais dizer olhou para o tio.

– Ora, você já entrou sem bater, correu como um foguete pela porta, não viu meus convidados e não cumprimentou ninguém. Vá ao menos cumprimenta-los que é a única coisa a qual você pode reparar. – falou o tio do menino.

Oenthal fez que sim com a cabeça para o tio e se dirigiu a cada um dos anciãos, seguindo a ordem de maior idade, com um sorriso meio envergonhado, mas sincero, cumprimentando cada um e perguntando como estava sua saúde e sua família.

Ao terminar os cumprimentos do último ancião, Scathach finalmente perguntou ao garoto:

– Afinal o que você queria me contar, Oenthal?

– Ah… Não me recordo mais! – respondeu o menino envergonhado depois de pensar um pouco.

– Como assim? Então era algo tão sem importância assim? – retrucou Scathach com um tom de reprovação.

– Hum… – Oenthal ficou pensando por um tempo, até que viu um dos anciãos tomando um gole de chá e se lembrou – Lembrei! Não era sem importância não, tio! O senhor me disse para avisá-lo quando o barco do Capitão Gaidar aportasse na praia. Bom… Deve fazer mais ou menos uma hora que ele chegou! Ele tinha acabado de aportar quando eu me pus a correr para avisá-lo!

– Ora, que ótima notícia! – disse Aench, um dos anciões, que já se levantara disposto a ir ver se suas encomendas estavam no carregamento do capitão, que sempre trazia as mais diversas especiarias e estranhas ervas e encomendas pedidas pelos anciãos.

– Sim, vamos até lá. Faz dias que estou sem alguns ingredientes essenciais às minhas poções e remédios. – completou Brean, o mais velho de todos.

E todos se animaram e seguiram caminho até a praia onde o navio do Capitão Gaidar estava ancorado.  O Capitão abriu um sorriso de orelha a orelha quando os viu chegar, pois eram seus mais fiéis e assíduos clientes e ele havia trazido consigo muitas novidades do oriente e encomendas das mais diversas.

Oenthal tinha aprendido sua lição e cumprimentou o Capitão, sua mulher e sua filha com grande simpatia, de forma que recebeu até um elogio:

– Como é educado este seu sobrinho, caro Scathach! Imagino que esteja aprendendo a nobre arte da sabedoria com o tio! Hoje em dia essa juventude não sabe mais se portar. – elogiou o Capitão.

– Ele ainda está aprendendo! – respondeu Scathach jogando um olhar sério para o menino que sorria discretamente. – Ele ainda está aprendendo!

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