Por Marina Storino Holderbaum

A princípio, devemos esclarecer que a hospitalidade no contexto Celta, não é um ideal de “virtude”, mas uma norma de conduta institucionalizada, com regras e contratos bem definidos. A relação entre o Rei e o seu Ollam, ou poeta, por exemplo, é encarada como um contrato de “casamento”, segundo Pádraig A.Breatnach, em seu artigo The Chief’s Poet, no qual ambos têm direitos e deveres e a troca mútua de presentes é a regra. Esta citação de The Book of Rights nos dá uma boa ilustração do que é esperado de um poeta como forma de retribuição à hospitalidade de um Rei.

“The poet who does not know
his rents and stipends
is not strictly entitled to hospitality
from any provincial king in Ireland.

The poet who knows exactly
both stipend and rent is entitled to respect,
hospitality and wealth from every king
to whom he has come. Hearken!”

Mas a hospitalidade não era um privilégio de Reis e poetas, e isso é notoriamente expresso no fato de esta norma de conduta ter sido transcrita nos tratados jurídicos Irlandeses Cáin Lánamna. Este tratado regula a hospitalidade devida, explicitando os casos em que ela pode ser recusada sem danos à honra do anfitrião.

“[…]Everybody is fed and hospitality is not refused up to the legal number of his/her retinue. Refusal of hospitality in the case of a guest accompanied by a excessive retinue does not damage one’s honour for, though one refuse, this is not deemed refusal of hospitality if the retinue is excessive.”

Talvez não seja demasiada suposição considerar necessária, se não crucial, a regulamentação da hospitalidade na cultura Celta, já que esta, mais que uma questão de generosidade era uma obrigação social. E o abuso desta demanda obrigatória de hospitalidade poderia levar Reis à ruina, já que a riqueza não era avaliada em extensão territorial, mas em cabeças de gado. A mitologia Irlandesa está permeada de relatos nos quais nobres perdem toda a sua riqueza por terem um número excessivo de hóspedes que abusam de sua generosidade. Katharine Simms faz uma importante distinção entre festa e hospitalidade na Irlanda Celta em seu artigo Guesting and Feasting in Gaelic Ireland, que define o conceito de hospitalidade como necessidade de suprir uma demanda de tratamento devido àqueles que entram na casa de alguém e festa como sendo resultado de um convite voluntário do anfitrião.

“By ‘guesting’ I intend to convey the idea of going to someone’s house and exacting or demanding hospitality, while ‘feasting’ refers to entertainments where the host has voluntary issued invitations. Both the brehon law tracts of the Old Irish period and the sixteenth-century state papers tell us something of the various legal rights to hospitality in Ireland: biathad, bes tige, coe, ‘foye’, ‘soren’, ‘cuddy’ and ‘coshery’ (Binchy 1940, 18-22; 1941, 75-7; Empey and Simms 1975,183-5; Brewer and Bullen 1869, 71-2; 1870, 454-6).”      

Quando se fala sobre Celtas é essencial lembrar que a religião era uma parte importante e indivisível da estrutura social e do entendimento do mundo deste povo. Sendo, a hospitalidade, uma norma reguladora da interação social ela, consequentemente, se faz uma questão fundamental na interação com as divindades. A religião era a matéria central da cultura Céltica, como Anne Ross explica no seu prefácio ao livro The Druids de Nora Chadwick.

We cannot hope to have any true understanding of the Druids, Celtic religion or the nature of the Celts themselves – and their often complex and abstruse thought-processes – without appreciating this fundamental association at all periods and throughout the wider Celtic world. Religion has always been, and continues to be, of first importance to the Celtic mind, whether it be pagan or, later, Christian in belief. It is this fact that led Caesar to comment, ‘the whole Gallic people is exceedingly given to religious superstition’, and all the sources of evidence concur with this.”     

O relacionamento com os deuses, assim como o relacionamento entre as pessoas era baseado na hospitalidade e na troca mutua de presentes. As oferendas, ou sacrifícios, aos deuses eram feitos para garantir o equilíbrio entre os mundos e prover assistência divina e prosperidade, pois a proximidade e interação contínua entre os homens e divindades eram um aspecto crucial na vida Celta. Em Pagan Celtic Ireland, Barry Raftery explica o quão fina era a linha que dividia, ou melhor, unia, o mundo natural do mundo divino na cultura Céltica Irlandesa e quão importante era manter o equilíbrio entre eles.

The gods were ever-present and there appears to have been no clear dividing line between the natural and the supernatural worlds. The Celts believed themselves at all times to be balanced precariously on the interface between the divine and the profane. All around lived the denizens of the Otherworld, in springs, in rivers and lakes, in forests and marshes, in caves and on mountain tops. The gods intruded into the affairs of men and often took sides in the disputes of mortals. They were capricious and moody, at times benevolent and helpful, at times malicious and spiteful. It was necessary to mollify and appease them constantly by means of offerings, by the correct rituals and by the proper manner of behavior. You offended the gods at your peril.”  

A hospitalidade em relação aos deuses se dava na constante necessidade de agradar as divindades por meio de oferendas, através da observação correta dos rituais e da maneira adequada de comportamento em relação às divindades. Sendo assim, ser hospitaleiro em relação aos deuses significava manter uma prática constante de oferendas e agir de maneira respeitosa durante os encontros e festejos religiosos. O que nos confirma e explica o comentário de Caesar de que a maior punição imposta a um Celta era a exclusão dos ritos sacrificiais, o que levaria o indivíduo a ser excluído do convívio social uma vez que seria considerado alguém infiel e que atrai infortúnios, já que não era capaz de se relacionar apropriadamente com os deuses.

As it is necessary to have a place in which to perform the rites, so it is essential to have officials qualified to interpret them and to officiate at the sacrifices, which were of such importance to the Celts. Caesar says: ‘When a private person or tribe disobeys their ruling (the Druids) they ban them from attending at sacrifices. This is their harshest penalty. Men placed under this ban are treated as impious wretches; all avoid them, fleeing their company and conversation, lest their contact bring misfortune upon them.’

Assim como nas relações sociais entre as pessoas, nas quais a hospitalidade serve como uma forma de interação social e de manutenção de alianças e contratos de reciprocidade, honrar os deuses com presentes e manter as formas corretas de ritualização significava sustentar a conexão de afinidade mutua entre a comunidade e as divindades e fortalecer a aliança com o outro mundo. Em uma cultura em que não há a divisão entre “sagrado” e “profano”, a interação entre divindades e humanos é constante, e a hospitalidade é uma norma de conduta social, esta “virtude” se faz condutora de todos os tipos de relações, tanto materiais quanto espirituais.

Referências Bibliográficas:

BREATNACH, Pádraig A. The Chief’s Poet in Proceedings of the Royal Irish Academy, Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, vol. 83C. Royal Irish Academy, 1983.

CHADWICK, Nora K. The Druids. Cardiff, University of Wales Press, 1997.

DILLON, Myles. Lebor na Cert: The Book of Rights. Dublin: Irish Texts Society, 1962. Eletronic Edition Celtic literatuire collective, http://www.maryjones.us/ctexts/cert.html

Ó CORRÁIN, Donnchadh (ed. e trad.). Cáin Lánamna: Early medieval law, c. 700–1200 in Angela Bourke, Siobhán Kilfeather, Maria Luddy, Margaret Mac Curtain, Geraldine Meaney, Máirín Ní Dhonnchadha, Mary O’Dowd and Clair Wills (eds.), The Field Day anthology of Irish writing.. Volume 4, New York and Cork, Cork University Press in association with Field Day (2002) page 6–44: 22–26. Eletronic Edition CELT:Corpus of Electronic Texts, http://www.ucc.ie/celt/published/T102030/

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

SIMMS, Katharine. Guesting and Feasting in Gaelic Ireland in The Journal of the Royal Society of Antiquaries of Ireland, Vol. 108. Published by Royal Society of Antiquaries of Ireland, 1978. pp. 67-100