Manannán

Por Marina Holderbaum

O som das ondas quebrando cinco metros abaixo da íngreme encosta do rochedo vertical, entre as pedras emersas da praia inexistente, ecoa sonora costa adentro, em um triunfante rufar de tambores. O sol, aos poucos faz seu caminho em direção ao oceano, a deitar-se vagarosamente sob suas translúcidas águas, cada vez menos azuis e mais rubras, com o toque do flâmeo astro luminoso.

Sobre a borda mortal do precipício repentino, um garoto franzino, de pele sardenta e cabelos ruivos, que tentava controlar suas madeixas, que embaladas pelo vento, lhe acoitavam gentilmente o rosto, e um velho senhor, de cabelos e barda brancos, que buscava em sua quietude o melhor ângulo para receber a brisa marinha a acariciar sua face alva e enrugada.

Eles vinham de longe, pois o lugar inóspito e pedregoso ficava muito além de qualquer contato humano. Mas era ali, na solidão do sol diante do mar infinito que o jovem Oenthal receberia as lições de seu velho tio Scathach, agora feliz por ter o sangue de seu sangue a seguir seus passos e continuar seu caminho. Embora Schatach não deixasse transparecer ao jovem garoto ao seu lado, o orgulho do sobrinho o inspirava a permanecer vivo e forte o suficiente para poder transmitir seu conhecimento a ele, antes de partir para sua próxima jornada, através da grande planície que admirava com tanta devoção.

Os dois pararam diante de algumas pedras dispostas cuidadosamente em um semicírculo unido à grande queda. Infelizmente, o tempo deteriorara muito a construção e o que sobrara eram apenas ruinas, que sequer se pronunciavam sobre sua própria forma, do que, um dia, fora um templo sagrado dedicado a aquele momento único do crepúsculo no qual sol e mar se fundem criando um caminho único para ambos, Scathach sabia disso, pois, além de seu conhecimento histórico e arqueológico sobre o local, podia sentir a energia que o permeava, revelando seu vínculo direto com o Outro Mundo.

O velho Scathach se sentou em uma das partes mais altas do baixo muro que constituía as ruinas, bem perto do limite da queda, e fez um sinal para que o garoto se sentasse também. Oenthal se acomodou ao lado do tio, olhando com uma certa impaciência juvenil para o mar, a espera de que o outro iniciasse logo sua aula. Mas haviam andado muito até ali, e o velho tio precisava descansar um pouco para poder recuperar o folego, e sabendo disso, o menino tentou não demonstrar sua ansiedade, respeitando a idade de seu professor, aguardando até que ele estivesse pronto.

– Você sabe por que estamos aqui Oenthal? – perguntou, finalmente, o ancião, após alguns minutos de descanso.

– Suponho que seja porque tem algo a ver com a minha lição de hoje, tio. Sinto uma energia densa e confortadora aqui, como se estivesse voltando para um lar que há muito me distanciara. – respondeu o rapaz, com um ar cerimonial de respeito e devoção, não só pelo local, mas pelo homem que via diante de si.

– Sim, este lugar tem tudo a ver com a nossa lição de hoje, jovem sobrinho. Tem a ver com o oceano, com o sol, com este templo e, até mesmo, com este precipício a nossa frente, pois tudo é parte do mesmo cenário, do mesmo desfecho final a matéria que é para nosso corpo e o novo princípio de aprendizado em que nossa mente e espírito se embrenham, a grande jornada, meu querido Oenthal!

– O senhor me ensinará sobre o Outro Mundo hoje, meu tio? – perguntou o menino, aproveitando-se da pausa do ancião para confirmar suas suspeitas.

– Sim, Oenthal, falaremos sobre o Outro Mundo e o que é preciso para ser digno de honrarias em suas vastas planícies ancestrais.

– Como assim tio? Quer dizer que nem todos são recebidos por lá? – inquiriu meio surpreso o menino.

– O Outro Mundo é o mais sagrado dos locais, meu sobrinho, você acha mesmo que diante de todo o trabalho que temos de manter o equilíbrio entre os mundos, um desonrado pode adentrar sua delicada harmonia sem poluí-lo com suas limitações infames?

– Mas tio, como eu saberei se vou poder entrar no Outro Mundo? Como o senhor sabe que irá para lá?

– É simples, meu sobrinho, seja honrado, cultive as virtudes de seus ancestrais e busque sabedoria, sendo sempre fiel aos deuses, aos seres sagrados, à sua família e a si mesmo, e seu lugar o esperará pelo tempo que for necessário.

– Mas e se eu não for honrado e virtuoso o suficiente, tio, para onde eu vou?

– Ora, mas que tolice, Oenthal, honra e virtude só dependem de você cultivar, se não pretende ser o melhor que puder, talvez este não seja o caminho para você – falou o tio de modo sereno, mas firme.

– Não, tio, eu me esforçarei, eu prometo! Tentarei ser tão honrado e sábio quanto o senhor, eu juro! Vou me sentar ao seu lado no castelo sob as ondas, enquanto partilhamos um grande banquete nos salões de Manannán Mac Lyr, agraciado pela grande estima do Senhor do Outro Mundo.

– Muito bem! A aula de hoje acabou, vamos voltar.

– Mas já? Não podemos ficar mais um pouco para ver o pôr-do-sol, tio? Hoje, ele me parece especialmente bonito.

– Claro, porque não? Os domínios de Manannán são sempre algo esplêndido de se admirar, talvez possamos ver a sua carruagem cruzando as ondas.

Os dois passaram um bom tempo sentados ali, quietos, apenas buscando compreender, no silêncio, os ensinamentos que as ondas cantavam ao vento.

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