*Artigo publicado no Guia de Druidismo pelo Portal Druidismo sob o título ‘Espaços Sagrados’.

Por Erik Wroblewski

 Para o homem religioso, o espaço não é homogêneo: o espaço apresenta roturas, quebras; há porções de espaço qualitativamente diferentes das outras… Há, portanto, um espaço sagrado, e por consequência “forte”, significativo, e há outros espaços não-sagrados, e por consequência sem estrutura nem consistência, em suma, amorfos. Mais ainda: para o homem religioso essa não homogeneidade espacial traduz-se pela experiência de uma oposição entre o espaço sagrado – o único que é real, que existe realmente – e todo o resto, a extensão informe, que o cerca.[i]

Mircea Eliade

Todas as culturas conhecidas tiveram, ao longo de sua história, locais de extrema importância religiosa e social, nos quais se acreditavam ser a morada de deuses, pontos de encontro com potências divinas, ou passagens para o mundo de suas divindades. Esses lugares, com características únicas, regras e interdições específicas e muitas vezes tabus relacionados a eles, eram sagrados para estes povos.

Mas o que faz com que um lugar, um espaço finito, demarcado, delimitado, se torne diferente daquele que o cerca? Mircea Eliade, em sua obra O Sagrado e o Profano, nos explica que um lugar se torna sagrado à medida que, de alguma forma, sofre a intervenção de uma potência divina ou fenômeno cosmogônico, o que, por sua vez, causa uma rotura, uma quebra do paradigma espacial e o coloca em um status diferenciado do espaço amorfo  e subjetivo que o cerca.

É neste espaço que o Homem existe, é nele que se manifesta a realidade, sendo essa fundação do “Centro do Mundo” que permite a orientação e a construção do espaço sagrado, real e, por consequência, do espaço social. É dessa forma que se torna possível que a sociedade compreenda, identifique e organize o espaço em que vive, que gera a diferenciação do lugar a ser ocupado, daquele que é simplesmente um lugar. Mais do que isso, é essa revelação divina que faz com que uma árvore ou uma nascente, por exemplo, seja especial em relação às outras, pois foi impregnada de força criadora, de poder, de divindade.

Sendo assim, todo espaço sagrado é finito, independente de seu tamanho físico. Sempre existe uma  “porta”, um “limiar” que o separa do espaço amorfo e “mundano”. Esse limiar é o ponto onde se separam esses dois modos de existência, e ele também possui, em alguns casos, funções que vão além dessa separação: os limiares são, por exemplo, a morada das divindades ou espíritos guardiões, as passagens para outros mundos ou realidades, e também, para algumas culturas, onde são realizados os julgamentos.

Mas nem sempre os espaços sagrados são constituídos unicamente pela ação direta de uma divindade. Na realidade, a intervenção das divindades no mundo geralmente se dá no momento da criação deste, ou em eventos críticos e fortuitos de seu desenvolvimento. Na maioria das vezes, os espaços sagrados são criados pela ação humana. No entanto, não é o esforço ou a habilidade humana que consagram esse espaço: a rotura que exige essa consagração só é efetiva à medida que as ações humanas reproduzem as ações divinas, e são validadas pelos deuses. É assim, por exemplo, que se funda um templo, que se torna sagrado, em oposição à um lugar que está ligado à criação do mundo e à intervenção direta de uma divindade e, portanto, é sagrado desde o início dos tempos.

É por isso que, quando olhamos para qualquer sociedade tradicional (também chamadas de “primitivas” em um jargão um tanto preconceituoso), podemos verificar que todo rito é uma recriação das ações divinas, à medida que procura reconstituir a maneira como o mundo foi criado, organizado e estabelecido e assim, garantir sua continuidade, sua permanência no estado de realidade em que se encontra, em oposição ao caos primordial e à condição de não-existência.

 Os Celtas e seus Espaços Sagrados

Dentro do universo das culturas célticas históricas, podemos encontrar diversos exemplos, sobretudo nas mitologias irlandesas, da criação de espaços sagrados através da intervenção ou ação de divindades, heróis e criaturas mágicas, que se tornaram pontos focais dos cultos desses povos: o Poço de Segais, o Rio Boyne, a Colina de Tara e a Lia Fáil, Newgrange, apenas para citar alguns.

No entanto, ao contrário de muitas culturas que focalizam a sacralidade em locais específicos e bem limitados, como em um templo em oposição à cidade ao seu redor, por exemplo, os celtas históricos manifestavam uma relação diferente com aquilo que constituía um espaço sagrado: tudo leva a crer que, para eles, todo o espaço conhecido era sagrado, ainda que, em diferentes níveis de importância.

Podemos sustentar essa perspectiva de algumas maneiras principais: primeiro, para os celtas, cada acidente geográfico, floresta ou landmark tinha um nome e uma história. Ao nomear algo, e registrar como foi sua criação, sua origem, cria-se a rotura que diferencia esse local ou objeto daquilo que é amorfo, subjetivo e sem orientação, daquilo que não é real.

Essa prática era tão importante que se constituía em uma das habilidades mais básicas, importantes e necessárias de um druida, existindo, inclusive, um extensivo tratado acerca dos lugares conhecidos que sobreviveu mais ou menos intacto após a conversão da Irlanda ao cristianismo, o Lore of Places.

Segundo, não existem limiares demarcados e bem definidos como passagem para o outro mundo”, ou o “mundo dos deuses”, na concepção de Mircea Eliade. Qualquer lugar, em qualquer momento, pode se tornar uma passagem para o Outro Mundo: embora o mar, por exemplo, seja um símbolo do outro mundo e esteja a ele relacionado (por representar aquilo que é desconhecido e que não pode ser organizado pela vontade humana), não basta lançar-se ao mar para chegar ao Outro Mundo.

Depende-se de que condições específicas sejam alcançadas como, por exemplo, que o navegante seja aceito, reconhecido e guiado por alguma divindade para o mundo além daquele que ele conhece. Em outros casos, encontramos a referência de que em um lugar aparentemente mundano, uma névoa é capaz de transportar os desavisados ao Outro Mundo. O mesmo é verdade para bosques, cavernas ou colinas mortuárias que, embora normalmente não sejam nada além do que aquilo que parecem ser, são capazes de, dentro de algumas condições ou eventos, servir como veículo de passagem.

Outra forma, ainda, de sustentar essa hipótese, é de que, ao contrário da grande maioria das culturas e mitologias, onde as divindades são alheias à vida dos homens e mulheres, ou interferem de formas indiretas ou, ainda, apenas em localidades específicas, as divindades célticas estão, o tempo todo, interagindo com os homens, no mundo dos homens.

Embora as divindades célticas possuam suas moradas e seus lugares de estadia mais “permanentes”, elas se movimentam, agem e interagem com o mundo “mundano” e, os deuses se deslocam livremente, por onde desejam, sem a necessidade de uma “porta de entrada”; e, se não existem limiares, todo o espaço é sagrado. O “Mundo” e o “Outro Mundo” tocam-se, chocam-se e confunde-se o tempo todo.

Por fim, deixamos o exemplo mais fortuito dessa perspectiva da sacralidade que “totaliza” o espaço conhecido: o ritual de “coroação”, de legitimação do rei céltico. Diferente do rei cristão, medieval, que é considerado “superior” aos demais integrantes da sociedade por ter sido escolhido pela divindade cristã e, desta forma, sendo foco de adoração e submissão de seus pares, o rei céltico, como todo “rei” de uma sociedade “tradicional” é parte ativa da sociedade, sendo responsável pela segurança, prosperidade e redistribuição desta em prol da sociedade.

Dentro do contexto céltico Irlandês, o bom rei é generoso, bravo e conhecedor de seus pares. Em seu reinado, a terra é fértil, os rebanhos se reproduzem, e há um bem estar social. Ele é aclamado, mantido e legitimado pelas suas qualidades, pela vontade dos demais integrantes da sociedade. O mau rei é covarde, avarento, ganancioso. Em seu reinado, a terra é improdutiva, os rebanhos minguam e morrem, e geralmente ele é deposto de forma violenta e brutal por seus “súditos”.

Esses atributos estão intrinsecamente ligados à sua aceitação pela “Deusa da Soberania”, ou “Deusa da Terra” (tendo terra, nesse caso, o sentido da land na língua inglesa, ou seja, território), Ériu. E, de forma muito emblemática, Ériu também era o nome pelo qual a Irlanda, como território, era conhecida. Todo o ritual de coroação e legitimação do rei gira em torno de uma casamento simbólico com o território (a “terra”) e a “soberania”: de pés descalços, sobre uma pedra consagrada, o pretendente a rei clama pela aprovação da divindade, e esta lhe responde através de um sinal: sua voz pode ser ouvida pelas águas de um regato, pelas ondas do mar, pelo cantar de um pássaro, etc…

Este ato não só consagra e legitima o rei, mas também consagra toda a terra através da aprovação da divindade, e do seu poder que fluirá pelo território, garantindo paz, alegria e abundância, tornando todo o território sacralizado.

BIBLIOGRAFIA

ELIADE, Mircea. Aspectos do Mito. Lisboa: Edições 70, 1989.

ELIADE, Mirce. O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

KELLY, Patricia. “The Táin as Literature.” In: Aspects of the Táin, por J. P. MALLORY, 60‐102. Belfast: The University Press, 1992.

LE  ROUX,  Françoise  &  GUYONVARC’H,  Chrisitan‐J.  A  Sociedade  Celta.  Mem  Martins: Europa América, 1995.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Civilização Celta. Mem Martins: Publicações Europa América, 1999.

Ó BRÓIN, Tomás. “Lia Fáil: Fact and Fiction in the Tradition.” Celtica, 1990: 393‐401.

WILSON,  David  Noel.  “Honour  and  Early  Irish  Society:  A  Study  of  the  Táin  Bó Cúailnge.”  Dissertação  de  Mestrado,  Department  of  History,  University  of  Melbourne, Melbourne, 2004.

 


[i] ELIADE, Mircea. O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões. São Paulo: Martins Fontes, 2000.