Por Marina Storino Holderbaum

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Na Irlanda Medieval, onde ter um fili, ou ollamh, sob patronagem era um sinal de status e poder para um soberano, a relação entre os dois se assemelhava a um contrato de casamento, no qual ambos tinham papéis e deveres a cumprir um para com o outro. Segundo a definição de Pádraig A. Breatnach, ollamh era um titulo dado ao fili que alcançou o mais alto grau do treinamento poético. Ele faz a distinção entre dois tipos de poetas de acordo com sua relação de patronagem, o ollamh flatha, que seria o poeta ligado a um Rei por contrato de serviço e o ollamh cuarta (poeta visitante), que teria uma relação casual de patronagem, ele também cita um terceiro tipo, o ollamh filiodh (mestre poeta), que designaria qualquer poeta qualificado independente de vínculos de patronagem.

“There ollam signifies one who has achieved the highest of the seven stages of poetic training (‘VII gradus poematis’), the other six being, in a descending order, those of ánruth, cli, cano, dos, mac fuirmid, fochloc. In general this division is made to correspond with the course of training to be followed by the fili over a period of seven years. (Some sources make it span up to twelve years, the final five, or four, serving to qualify for the title ollam).”

Na relação de patronagem a troca mútua de presentes era a regra, ao rei cabendo à obrigação de cumprir com as exigências do fili e a este a obrigação de cumprir com o seu ofício satisfatoriamente. Se por um lado a arrogância e as exigências extravagantes do fili eram amplamente sabidas e reconhecidas, por outro, este oficial era o responsável pela manutenção do poder do Rei, eram dele as funções de fazer poemas para cada uma das ocasiões oficiais, embora não devesse restringir seus poemas a elas, ser o mediador e apaziguador em disputas políticas e o responsável por manter o bom comportamento e bem estar de estrangeiros sob sua jurisdição, o que geralmente acontecia em processos de pacificação. O fili era o representante das virtudes do soberano e, de certa forma, ele detinha um poder maior que o do Rei, como comenta Francis J. Byrne em Irish Kings and High-Kings.

“In some ways it could be argued that the filid wielded more power than did the kings. They molded public opinion, which is the ultimate arbiter of acceptable forms of polity and policy. The opinion which they represented, however, could hardly be termed popular: in an aristocratic society they were aristocratic to a degree, and intensely conservative.”

O fili era responsável pela “imagem” de seu patrono. Seus poemas enaltecedores eram o principal elemento de promoção do Rei e sua eficiência enquanto mediador e pacificador era a garantia de alianças e prosperidade para o Soberano, embora este também tivesse seu papel nesse processo, pois o fili exigia que ele lhe desse material para trabalhar, ou seja, cerimonias, eventos e feitos que pudessem ser transformados em poemas, pois o fili tinha a obrigação jurídica de ser justo em seu ofício, não podendo exceder em elogios sob pena de perder seu prestígio, como comenta Liam Breatnach.

“This is followed by a statement that the proper way to gain wealth is by means of praise of kings and nobles-and only persons of such rank are to be praised by the poet. Praise is not to be excessive, nor is it to be refused. Finally, if the poet does not fulfill his duties towards his tuath, and if he does not practise his craft there, he loses his status.”  

Embora o fili fosse uma fonte e símbolo do poder de um Rei, seu contrato não era indissolúvel. Muito pelo contrário, parece que a arrogância e as exigências exacerbadas dos fili frequentemente causavam o descontentamento de seus patronos, o que pode ser atestado pela quantidade de poemas sobre como recuperar a confiança perdida do soberano. Se o fili não conseguisse recuperar esta confiança e manter os termos do contrato estabelecido, ele poderia ser dispensado e um novo fili cairia nas graças de seu Rei, tomando seu lugar.

Referências Bibliográficas:         

BYRNE, Francis J. Irish Kingship and High-Kingship. Four Courts History Classics, Four Courts Press, 2001.

BREATNACH, Liam. Satire, Praise and the Early Irish Poet in Ériu, vol 56. Royal Irish Academy, 2006.

BREATNACH, Pádraig A. The Chief’s Poet in Proceedings of the Royal Irish Academy, Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, vol. 83C. Royal Irish Academy, 1983.