Por Marina Storino Holderbaum

Se a relação entre o poeta e o seu patrono, ao menos na Irlanda Medieval, é pensada aos moldes de um contrato de casamento, nos resta saber se ele define também os papéis de gênero das partes no que se refere à sua interação ritual e cerimonial. A questão do gênero é relevante à função que cada um tem dentro do contrato e mais ainda ao se pensar o papel simbólico de cada um dentro deste vínculo de poder no mundo Céltico. O cerne desta questão é entender quem é o representante da soberania nesta relação, o que ritual e simbolicamente se refere ao papel feminino, como comenta Pádraig A. Breatnach.

“The image of the poet as spouse presents a curious parallel with the idea found in the literature from an early date, of ‘Ireland as a woman wedded to her rightful king ‘. It will be recalled, as O’Rahilly pointed out, that ‘As the king of Ireland was wedded to Eire, so the local kings were wedded to their territories’. At first sight this suggests a traditional understanding that the link between a poet and his patron was essentially similar to that which bound a king to his territory.”

A forma como o poeta se refere ao Rei em seus poemas seria um dos indicadores da maneira como cada um assume seu papel. Muitos ‘poemas enaltecedores’ passam a ideia de uma relação de afeição e muitas vezes de paixão na descrição e na forma como o poeta se refere ao seu soberano.

“And what amounts to a whole vocabulary of affection is used to couch the encomiastic addresses of poet to patron – so much so that often ‘the resulting poem could pass for an expression of the deepest passion’.”

Os privilégios do poeta o colocam na posição de ‘esposa’, afirma Breatnach, pois ele invoca alguns gestos que seriam referentes a esta posição por indicarem uma situação de prestígio para com o Rei. Seriam estes o direito de sentar ao lado do Soberano e de beber do mesmo cálice que ele, ou beber antes que ele nas cerimônias oficiais. O segundo gesto é o mais significativo, e está associado ao primeiro, já que consistiria em um ato comumente empregado tanto nas cerimônias de casamento regulares, como nas cerimonias mitológicas de inauguração de um soberano e nos lendas folclóricas, como James E. Doan afirma em seu artigo Cearbhall Ó Dálaigh as Archetypal Poet in Irish Folk Tradition.

“Several of these versions of the story of Cearbhall’s en counter with the bean sidhe suggest a reworking of the wide spread Irish myth of sovereignty into a “myth” of poetic in inspiration. In the myth of sovereignty, which concerns the symbolic marriage between the king and his realm, Sovereignty is often depicted as a woman holding a vessel containing liquor which she serves to the man who is destined to become king.”

O ponto central parece ser o entendimento da ligação entre a inspiração poética e a soberania, como se pode ver na lenda do encontro entre Cearbhall e a bean Sídhe Clíonda que Doan comenta.

“In the folktale, Cliona refuses to give Cearbhall the wine until he defeats her in a poetic contest, thereby showing himself worthy of her favors. Finally, she does give him a drink, rewarding him for his poetic knowledge. In No.VII Cearbhall obtains the gift of poetry (bua na filiochta) from Cliona, although in this version he does not actually drink the wine.”

E no mito Echtra Mac Echdach Mugmedóin, As aventuras dos filhos de Eochaid Mugmedón, que o mesmo autor explica.

 “In a poem based on this tale, when Sovereignty gives Niall the water, she tells him: “May the drink (linn) that will flow from the royal horn be yours: it will be mead, it will be honey, it will be strong beer.” The word linn, which like (f)laith can mean either “drink, liquor” or “beer, ale,” is the Old Irish equivalent of Modi, leann (ale), which is the liquid mentioned in several versions of the above folktale (Nos. I, IV and X).”

Ao que tudo indica o poeta seria um representante da soberania à medida que possui o vinculo com a inspiração poética. Segundo Doan, tanto a soberania como a inspiração poética, nesses casos, seriam equivalentes a uma grande sede, que só podia ser saciada com o líquido dado pela sua representante. O poeta, tendo o ‘dom’ da poesia precisaria apenas provar seu conhecimento para ser recompensado com o licor que saciaria sua sede. O Rei também precisa cumprir o desafio da soberania para poder ser aceito como soberano.

“In addition to the ale which is drunk in both stories, we find other similarities between EMEM and the folktale. In both cases, the main character suffers from great thirst. The hag or bean sidhe refuses to give him a drink until he complies with her request, a kiss as in EMEM, or poetry as in most versions of the folktale. Finally, she rewards him by giving him the liquid (water, ale or wine), which represents either sovereignty (EMEM) or poetic inspiration (the folktale).”     

A relação de patronagem enquanto ‘contrato de casamento’ parece ser uma forma simbólica de reafirmar a soberania do Rei. O papel do poeta finalmente fica claro, e justifica a ideia de uma relação de gêneros neste vínculo de poder entre o fili e o soberano. Este, enquanto ‘esposa soberana’ e através do seu direito de dividir o mesmo cálice que o seu patrono, está recriando o rito de inauguração em cada um dos eventos oficiais, reafirmando a sua aprovação, pela divindade da terra, estabelecida no ato de sua coroação.

Reivindicando os direitos que seriam atribuídos à soberania, representada pela ‘esposa soberana’ na mitologia, durante a cerimônia de coroação Real, o poeta assume a função feminina, enquanto representante desta e do poder do soberano, no contrato de patronagem. O direito beber do mesmo cálice que o Rei, ou, precedê-lo no direito de beber, nas cerimonias oficiais, remete ao ato simbólico de beber o líquido oferecido pela ‘soberana’. Este ato seria uma evidência de que o poeta era visto, do ponto de vista político e cerimonial, como ‘esposa’ de seu patrono, pois era dele o papel de representar a personificação da soberania no contrato de patronagem.

“What is of importance is that there are indications that both it and the drinking motif may originally have been of a piece. It was a feature of the theme of the espousal of king and Ériu, that on the occasion of the banais rígi or wedding-feast of kingship ‘ the lady Sovranty was supposed to hand a cup of liquor to the chosen king. The background to this aspect is explained by O’Rahilly: ‘It is likely that in pagan times the acceptance by the bridegroom of a draught of liquor handed to him by the bride signified mutual consent to the marriage.’ Receiving the cup of drink from the goddess, or winning her cup ‘ the same author points out, ‘ was tantamount to winning the goddess herself. Both the motif of being at the king’s elbow at drinking time, and that of the poet as his patron’s spouse may on further investigation prove to constitute in some sense a reflex of this ancient mythology of kingship.”

Entretanto, em seu artigo para a revista Ériu, The Poet as Spouse of His Patron, Proinsias Mac Cana faz uma contextualização importante, que considera as mudanças sociais na relação entre o fili e o Rei. Segundo ele, o fato dos papéis Feminino/masculino serem atribuídos respectivamente ao fili e ao Rei pode ser um reflexo das alterações de status no período pós-Normando e, talvez, no período pré-Normando os papéis fossem inversos, sendo o rei o representante da parte feminina do acordo.

“On the other hand, it is perhaps well to keep in mind that most of our evidence for the topic comes from the classical verse of the post-Norman period, by which time the fili’s old quasi-sacerdotal role had been considerably attenuated and his socio-sacral status vis-ci-vis his chief and patron altered accordingly, so that, even if originally the king had represented the feminine principle in the Celtic or Indo-European ritual of his ‘marriage’ to the poet/priest, it is hardly likely that this could have remained untouched by the profound changes which had affected their relative status within the socio-religious hierarchy by the later medieval period. Consequently, while the Irish and Welsh evidence is persuasive, it is not wholly conclusive, and it might be wise to reserve a final judgement as to who was who in the old union of spiritual and political power pending a comprehensive review of the insular poetic tradition.”

Portanto, se chegamos a uma conclusão, mais ou menos satisfatória, é preciso deixar claro que esta tem como base um certo período histórico, relativo ás fontes existentes, e que não deve ser generalizada a um passado pré-Normando, já que houveram profundas modificações nas relações de poder de um período para outro.

Referências Bibliográficas:

BREATNACH, Pádraig A. The Chief’s Poet in Proceedings of the Royal Irish Academy, Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, vol. 83C. Royal Irish Academy, 1983.

DOAN, James E. Cearbhall Ó Dálaigh as Archetypal Poet in Irish Folk Tradition in Proceedings of the Harvard Celtic Colloquium, Vol. 1, pp. 95-123. Department of Celtic Languages & Literatures, Harvard University, 1981.

MAC CANA, Proinsias. The Poet as Spouse of His Patron in Ériu, Vol. 39, pp. 79-85. Royal Irish Academy, 1988