VisãodeOenthalPor Marina Holderbaum

Campos de grandes arbustos se formavam na encosta arenosa da ilha, o sol quente do verão parecia iluminar suas flores amarelas, como se fossem pequenos brotos de si mesmo, presos ao emaranhado verdejante de seus galhos. Oenthal voltava para casa, confuso e pensativo de um longo dia que havia se passado, no qual ele havia tido mais uma de suas lições com seu tio Scathach, que tentava ensiná-lo a ler os sinais do Ogam.

Um ganso de brilhante plumagem parda ameaça atacar Oenthal, pois ele está muito próximo de seu ninho, e ele é obrigado a se afastar, xingando o pássaro que o assustara em sua distração. O jovem não conseguia entender as associações de Scathach sobre árvores, pássaros, artes, símbolos e significados. Porque seu tio não lhe dava simplesmente a resposta que precisava? Se ele soubesse qual deveria ser a interpretação dos símbolos não haveria necessidade de tentar intender tantas associações e suas relações entre si. Às vezes achava que seu tio não queria ensiná-lo.

Depois de algum tempo andando, finalmente chegou à sua casa, comeu algo para satisfazer a fome de seu corpo e foi para o seu quarto. Estava chateado porque o seu aprendizado estava sendo mais difícil do que imaginava. Seu tio era tão sábio, e fazia com que tudo parecesse tão simples, mas Oenthal tinha muitas dificuldades em aprender e compreender algumas coisas, pois começava a entender que embora o tio dissesse que sua função era manter o equilíbrio dos mundos, parecia que tudo tinha seu próprio caminho e que nada dependia deles.

Oenthal não conseguia mais pensar, tirou apenas o calçado e deitou-se em sua cama, fechando seus olhos e tentando acalmar sua mente. Foi assim que ele caiu no sono, teve sonhos com gansos, giestas, doentes e curas, venenos e remédios, artesãos e médicos. Ao amanhecer sua mente estava pior do que quando deitara na noite anterior. Estava exausto e não queria mais se levantar da cama, embora soubesse que precisava.

Em um último, relutante, ato de inconformidade em ter que despertar para um novo dia, fechou seus olhos mais uma vez. Desta vez, sua mente se deparou com uma praia ao entardecer, rochas marinhas abraçadas pelas ondas, uma verdejante colina direcionada ao oeste, salpicada de arbustos dourados abrigando pássaros tão resplandecentes quanto os rubros raios solares que pintavam o céu de laranja. A visão ficou apenas por alguns segundos, mas ele a vira como se pudesse tocar cada um de seus elementos.

Sua preguiça e cansaço passaram subitamente. Ele se levantou em um pulo, calçou o sapato e saiu correndo de casa, sem nem mesmo tomar café, foi direto à casa de seu tio. Scathach, estava saindo de casa para encontra-lo, quando o viu chegar todo esbaforido à sua porta.

– Ora, como está animado! Achei que o veria desanimado depois da lição de ontem. – falou o velho, com um que de surpresa na voz.

– Eu es-tá-va, tio… Ma-mas, acom-teceu uma coi-sa…  –respondeu ofegante o garoto.

Scathach, agora estava meio apreensivo, sempre que o garoto tinha mudanças repentinas de humor era porque havia chegado a alguma conclusão genial que acreditava ser a solução de todos os seus problemas. Ele tinha essa tendência de querer facilitar o seu próprio trabalho, o que não agradava em nada o tio.

– Vamos entrar rapaz, você obviamente não dormiu direito nem tomou seu desjejum ainda, aposto que só colocou o sapato e veio correndo até aqui sem sequer avisar sua mãe.

– Como sabe disso? – perguntou o menino, que parou de repente, olhando-o assombrado.

– Não seja tolo, Oenthal! Você está com a mesma roupa de ontem, com olheiras de sono, afoito e com falta de ar, ou é isso ou você pegou um caso grave de asma, problemas glandulares e porquice de ontem para hoje.

– Ah… Eu esqueci de tomar banho ontem, deitei na cama com roupa e tudo só para descansar um pouco e dormi, mas fiquei tendo sonhos a noite toda…

– Certo, isso eu deduzi, mas porque toda essa euforia e correria? Essa é a parte que me falta do quebra cabeças e a parte que me preocupa também, meu sobrinho! Qual foi seu grande vislumbre?

O menino deu um sorriso de satisfação, desta vez não era apenas uma conclusão sua, era uma visão. Seu tio não poderia contestar sua visão. Então ele se emprumou e começou o relato.

– Eu tive uma visão, meu tio. Eu vi uma encosta ao entardecer com flores e pássaros dourados, uma colina mágica à beira do mar repleta de arbustos que refletiam o próprio sol.

– Certo, e o que você aprendeu disso, meu sobrinho? – O tio perguntou com um ar de satisfação, parecia que finalmente o garoto começara a entender.

– Ora tio, eu preciso viajar, tenho que achar este lugar, vou entender tudo quando encontra-lo.

– Como? – O olhar de aprovação do tio passou rapidamente para um sinal de desaprovação e decepção. – Você partirá em busca de um lugar que magicamente lhe ensinará o que você precisa aprender pelo seu próprio esforço a cada visão que tiver?

– Não tio, eu tenho certeza! Era real e estava me chamando, eu preciso ir até lá.

– Vá para casa e descanse Oenthal, vamos conversar sobre isso amanhã, não teremos aula hoje. Não servirá de nada tentar te explicar algo no momento. Vá para casa, coma e descanse. Faça apenas amenidades e não viaje, por favor. – Scathach falou desapontadamente, com o olhar triste e a perspectiva de ter entendido mal a evolução nos estudos do menino.

– Mas, tio…

– Não discuta, vá para casa. Eu preciso pensar! – Dizendo isso Scathach saiu de casa e seguiu a velha trilha da floresta, a qual seguia quando precisava de inspiração.

Oenthal não sabia o que fazer, nem o que sentir. Seu tio não tivera a reação que esperava e tão pouco o incentivou a ir em busca de sua visão. Ele não queria ir para casa e estava com raiva do tio por desdenhar da veracidade de sua visão.

 – Ele sempre tem visões e as segue, elas sempre estavam corretas, porque as minhas não deveriam ser seguidas também?

O menino não seguiu o conselho do tio de ir para casa. Ao invés disso ficou andando pela orla da ilha, tentando pensar em como e quando iria partir, como iria convencer sua mãe e seu tio de que tinha que fazer isso, que tinha que aprender em outro lugar. Ele passou o dia todo vagando, andando e matutando, até que, finalmente, um raio de sol cegou sua visão por um instante. Estava na mesma colina que estivera ontem quando voltava para casa, a mesma em que fora atacado pelo ganso selvagem. Só agora ele percebia que eram giestas os arbustos que salpicavam de amarelo a encosta e que o mesmo ganso se aprontava para ataca-lo novamente, pois seus filhotes estavam saindo das cascas e nenhum intruso era desejado neste momento delicado.  Mas, desta vez, ele estava prestando atenção á sua volta, e percebera a aproximação do pássaro, tendo tempo de se afastar o suficiente para que ele percebesse que não era uma ameaça.

Foi neste momento que a luz do sol, totalmente paralela á encosta da colina no horizonte, iluminou todo o seu cume, pintado de dourado as giestas em flor e os bebês ganso recém nascidos, como em sua visão.

Por um momento ele sentiu a decepção se abater sobre ele.

– Meu tio tinha razão, ele sempre tem. Não era uma visão para me mostrar um lugar que eu deveria buscar, mas para me mostrar que eu deveria ver o que estava a minha volta, pois a compreensão depende do meu esforço de observação.

Logo após ouvir suas próprias palavras, Oenthal se sentiu maravilhado consigo mesmo, ele havia conseguido entender. Não queria mais sair dali, ficou observando as giestas, suas folhas, flores, todos os animais que pousavam nela, pequenas borboletas esverdeadas que depositavam larvas em seus caules, os gansos que faziam ninhos sob sua proteção, levando seus filhotes ao grande lago que ficava do outro lado da colina, a apenas alguns metros do campo de flores e observando o sol e como ele modelava as cores, as sombras e os tons, como sua luz transformava aquilo que ele era capaz de ver. Ele passou muito tempo ali, observando a colina, tanto tempo que seu tio ficou preocupado e saiu a procura-lo, imaginando se ele não havia fugido em busca de sua visão.

Ao ver o tio se aproximar, Oenthal correu para ele, o pegou pela mão e puxou até o topo da colina, começando a descrever cada uma das coisas que havia aprendido naquelas horas que havia passado ali. Ele descreveu detalhadamente cada um dos detalhes, dos pássaros e das giestas, do sol, da visão que se concretizara.

Scathach poderia ter feito todo um discurso sobre como o menino havia entendido errado a visão a princípio e como a verdade se revelara de forma nítida e precisa, ensinando-o através dela sim, mas não dando-lhe a resposta, e sim ensinando-o a ver, mas preferiu ficar calado, desfrutar de cada gota de conhecimento que o sobrinho havia aprendido, como se fosse sua própria conquista de entendimento, apenas sorrindo de orgulho por dentro.

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