Boand e o Vale do Boyne

Palestra apresentada por Marina Holderbaum (com auxílio de Alessio Ferretti Jr.), no dia 5 de Junho de 2015, no VI EBDRC – Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta -, ocorrido em Curitiba.

Resumo: Não é novidade que a mitologia da Antiguidade Irlandesa cita a deusa Boand como fundadora do Boyne através de seu desafio ao poço de Segais. Mas o Vale do Boyne há muito já era habitado antes que uma cultura dita Celta Irlandesa o povoasse. Ele possui a maior quantidade de Tumbas de Passagem de toda a Europa, uma grande quantidade de megalítos e uma história que une fertilidade, morte, soberania e Ancestrais. O Vale do Boyne é um local de tão intensa manifestação humana desde períodos Neolíticos que é impossível olhar para ele e não perceber a grandiosidade que deveria cercar a divindade de fertilidade vinculada a ele, a branca Boand, que compartilha seu nome e seu mito com o Boyne, também conhecido, no mito, como Boand sempre-cheio.

Meditação* Jornada Fúnebre (Autor Galach Fiachaire)

*Fazer início da meditação como usual… Relaxamento e Respiração.

Você se encontra em pé, em um campo, ao pé de uma colina, rodeado de pessoas que também vieram prestar suas homenagens ao honrado aliado, que hoje faz sua passagem para o Outro Mundo. É um dia frio, que parece ficar cada vez mais gélido ao passo que a pira funerária vai lentamente se apagando, deixando apenas fumaça, cinzas e os ossos do falecido.

No entanto, há uma certa antecipação no ar, que claramente contagia a todos: não é nem tristeza, nem alegria, mas sim uma sensação de que a revelação de um grande mistério está por vir. 

Nesse momento, os sacerdotes que presidem o rito funerário se aproximam dos restos da pira, e com todo o cuidado e respeito recolhem os ossos carbonizados daquele que é lembrado hoje, colocando-os gentilmente sobre uma mortalha branca. Depois de concluir esta tarefa, começam a caminhar em direção Oeste, contornando o pé da colina, e em procissão as pessoas seguem acompanhando-os em silêncio.

Após de alguns metros, você percebe que nesta colina há uma entrada, profunda e escura, ladeada por uma parede de pedras, e neste momento você percebe que esta colina não é obra da Natureza, mas sim das mãos habilidosas dos construtores da Túath. À frente da passagem, como um guardião estoico e austero, uma grande pedra, coberta de espirais, bloqueia a passagem até a entrada da tumba, parando a procissão.

Os sacerdotes murmuram algo, como que pedindo solenemente permissão para abrir os portões daquele lugar, e de repente, os últimos raios de sol iluminam a entrada da tumba de passagem, assim como a algumas pessoas da procissão: entre elas, está você.

Você é convidado a entrar, junto com os sacerdotes, no domínio dos mortos, na passagem para o Outro Mundo, para acompanhar o falecido até sua nova morada. Contornando a pedra-guardiã, vocês se aproximam da porta e vislumbram as pedras erigidas ali, douradas pelo sol. As paredes estão cobertas por gravações de espirais, de triskeles, de símbolos sagrados que contém os mistérios da vida e da morte, deste e do outro mundo.

Conforme vocês adentram o recinto, as paredes estreitas vão perdendo o toque do sol, e tudo vai ficando mais e mais escuro. No entanto, você consegue enxergar completamente bem nesse lugar, como se a escuridão fizesse parte perene do mundo.

Subitamente, enquanto você acompanha os sacerdotes ao salão principal, você ouve risos e o som de conversas animadas no limite de sua audição, e por pequenos instantes, você pode ver, no limiar de sua visão, campos floridos e abundantes em vida selvagem, salões iluminados e cheios de gente em festa, guerreiros altivos em meio a jogos de inteligência, destreza e força.

Então você percebe que está no salão principal, de certa forma redondo, e mais passagens parecem se estender dali, tantas que não é possível contar. O teto, por sua vez, é amplo, alto, e com uma espécie de duto central, que corre dali até quase o topo da colina sem, no entanto, atravessá-lo.

Os sacerdotes depositam o ossos em uma alcova e aproximando-se das pessoas que foram escolhidas para presenciar este momento, dizem em uníssono, em um tom solene:

“Vocês vieram, e presenciaram as maravilhas do Outro Mundo. Pois a morte nada mais é do que uma passagem, uma porta que se abre a todos em algum momento da vida, convidando-nos para reencontrar nossos ancestrais e para nos sentarmos ao lado dos Deuses. No entanto, um alerta: apenas os bravos, honrados e verdadeiros terão seus ossos enterrados aqui, e poderão passar por este limiar quando deixarem este mundo.”

Dito isso, os sacerdotes fazem um sinal indicando a saída, e vocês voltam, em silêncio, pelo mesmo caminho de onde vieram. Ao sair pela porta da tumba, você percebe que já é dia, e não há mais ninguém ao pé da colina.

No entanto, o sol que nasce no Leste o recebe de braços abertos, iluminando sua face, enchendo-o de vida e alegria, um constante lembrete de tudo o que se deita no frio da noite, renasce fulgurante em um novo dia.

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