Por Marina Storino Holderbaum

As semelhanças entre a deusa Bríg e a santa Brigid permeiam todo o folclore relativo à segunda. Associações entre essas duas identidades são demasiadamente nítidas e diversas para que sejam apenas coincidências e é exatamente nesta miríade de similaridades que surge a possibilidade de uma intersecção entre as duas.

As justaposições entre elas vão além da óbvia homonímia e simultaneidade de culto. Ambas têm conexões profundas e documentadas, em relatos míticos e no folclore, com três assuntos principais: o fogo, a lactação e a mulher. Esses assuntos, ao que parecem, são de crucial importância para ambas, e como características individuais e pessoais são os principais pontos de relevância em qualquer aproximação entre elas. Alexander Macbain nos dá uma descrição, muito boa como ilustração, dos elementos pré-cristãos associados ao culto da santa, contida no Giraldus Cambrensis sobre as práticas da Igreja da santa Brigid em Kildare.

 “Giraldus (12th century A.D.) informs us that at the shrine of St Brigit at Kildare, the fire is allowed never to go out, and though such heaps of wood have been consumed since the time of the Virgin, yet there has been no accumulation of ashes. Each of her nineteen nuns has the care of the fire for a single night in turn, and on the evening before the twentieth night, the last nun, having heaped wood upon the fire, says, Brigit, take charge of your own fire, for this night belongs to you. She then leaves the fire, and in the morning it is found that the fire has not gone out, and that the usual quantity of fuel has been used. This sacred fire was kept burning continually for centuries, and was finally extinguished, only with the extinction of the monasteries by Henry VIII.”

Este trecho nos mostra não apenas a ligação entre a santa e o elemento fogo, mas um tipo de culto muito incomum à religião cristã, mas totalmente adequado à fé Céltica e à figura de Bríg. Esta divindade é descrita pelo manuscrito do século IX Cormac’s Glossary como três irmãs de mesmo nome dedicadas cada uma a uma arte, uma era poeta, outra curandeira e a última ferreira, cada uma a seu modo associada ao elemento fogo na Irlanda Céltica, seja este como fonte de energia e calor ou inspiração. Anne Ross em The Celtic World menciona esta singularidade arcaica no culto da santa que a remete aos cultos da divindade.

“Imbolc was (and is) known as Latha Féill Bhride, ‘The Day of the Festival of Bride’, the Gaelic form of the name, and many legends and archaic customs adhered to this special day. She is ‘said to preside over fire’ (Carmichael 1928: 164), which is interesting in view of the fact that the lrish Brigid had a perpetually burning fire at Kildare, guarded by nineteen virgins, and no man might approach her shrine.”

Outra prática que conecta a santa a este elemento é a Coroa de Velas, descrita por Séamas Ó Catháin, que, no contexto Celta Irlandês, não apenas está associada ao fogo, mas também à soberania, que para eles também era simbolizada pela figura feminina. É preciso lembrar que Bríg era mais que apenas uma representante do gênero feminino, pois ela própria era a personificação da soberania enquanto Rainha dos Tuatha de Danánn, casada com o meio Fomoriano Bres que foi rei após Nuada.

“The Blessed Virgin was about to be “churched’ and as she was going to the church, she met St. Brigid, Our Blessed Lady was very shy in going to the altar rails before the whole congregation and she told Brigid how she felt. ‘Never mind,’ says Brigid,‘I’ll manage that part all right’. She got a harrow and put it on her head turning the points upwards. They went into the church and no sooner had St. Brigid entered than every point of the harrow turned into a lighted candle. The whole congregation turned their eyes on St. Brigid and her crown of lighted candles and the Blessed Virgin proceeded to the altar rails and not an eye was turned on her until the ceremony was over. The Blessed Virgin was so delighted with St. Brigid that she gave her her day before her own and that is the reason that St. Brigid’s Day is before the feast of the Purifcation.

By the spectacular assumption of a harrow candelabrum on her head, Brigit is, in effect, cast as `light mother’ to Mary, a position which confers upon her the honoured status of midwife par excellence making her the perfect role model for any ordinary country midwife or `handy woman’.”

Em The Festival Of Brigit The Holy Woman, uma citação de Séamas Ó Catháin sobre a conexão entre os sítios arqueológicos sabidamente associados com Lughnasa e a deusa Bríg, fortalece ainda mais a importância desta divindade como personificação da soberania e fonte da prosperidade que Bres oferece em troca de sua vida, no conto mitológico The Second Battle of Moytura.

“Fuller understanding of the old goddess’s part in the harvest festival must wait on studies, still to be made, of the local legends of the myth of the mythological old woman known as the Cailleach Bhéara, and also of the cults of St Brigid and St Ann . . . Brigid must have been closely connected – at least two important Lughnasa sites were dedicated to her, and she is named at several others. Still she hardly appears in the festival legends. She has only a passive part in the Lughnasa complex.*

*M. Mac Neill, The Festival of Lughnasa: a study of the survival of the Celtic festival of the beginning of harvest (Oxford 1962) 412-3. This was republished by the Folklore of Ireland Council, University College Dublin in 1982, which edition contains `Additions and Corrections’ by the author (pp. 671-80).”

Para entender alguns aspectos de Bríg e sua Festa se faz necessária uma investigação mais aprofundada do mito da luta dos Tuatha de Danánn contra os Fomorianos em The second Battle of Magh Turedh. É nele que o rei Bres, marido de Bríg filha de Dagda, garante o sucesso do plantio e a prosperidade das colheitas através da revelação do conhecimento de como o trato com a terra deveria ser feito pelo povo da Irlanda em troca de sua vida, durante a assembleia com Lugh após a batalha. Como podemos ver nesta secção da narrativa mitológica.

“149. Immediately afterward they found an opportunity to kill Bres mac Elathan. He said, “It is better to spare me than to kill me.”

150. “What then will follow from that?” said Lug.

“The cows of Ireland will always be in milk,” said Bres, “if I am spared.”

“I will tell that to our wise men,” said Lug.

151. So Lug went to Maeltne Morbrethach and said to him, “Shall Bres be spared for giving constant milk to the cows of Ireland?”

152. “He shall not be spared,” said Maeltne. “He has no power over their age or their calving, even if he controls their milk as long as they are alive.”

153. Lug said to Bres, “That does not save you; you have no power over their age or their calving, even if you control their milk.”

154. Bres said, “Maeltne has given bitter alarms!”

155. “Is there anything else which will save you, Bres?” said Lug.

“There is indeed. Tell your lawyer they will reap a harvest every quarter in return for sparing me.”

156. Lug said to Maeltne, “Shall Bres be spared for giving the men of Ireland a harvest of grain every quarter?”

157. “This has suited us,” said Maeltne. “Spring for plowing and sowing, and the beginning of summer for maturing the strength of the grain, and the beginning of autumn for the full ripeness of the grain, and for reaping it. Winter for consuming it.”

158. “That does not save you,” said Lug to Bres.

“Maeltne has given bitter alarms,” said he.

159. “Less rescues you,” said Lug.

“What?” asked Bres.

160. “How shall the men of Ireland plow? How shall they sow? How shall they reap? If you make known these things, you will be saved.”

“Say to them, on Tuesday their plowing; on Tuesday their sowing seed in the field; on Tuesday their reaping.””

Um dado relevante é a primeira tentativa de troca de Bres, na qual ele promete que as vacas da Irlanda sempre estariam em lactação. Obviamente que sua proposta não foi aceita, pois ele não seria possível cumprir tal promessa, já que ele deveria ter poder não só sobre a lactação, mas sobre a idade e parto dos animais. Mas se o acordo não foi selado a partir desta barganha, ainda assim temos ai mais uma associação que se revela crucial tanto nos relatos que temos a respeito da Festa de Brig quanto no culto de sua santa homônima. Em The Wooing of Emer, temos a clara associação deste festival com o começo da primavera e a ordenha.

 “To Oimolc, i.e., the beginning of spring, viz., different (ime) is its wet (folc), viz the wet of spring, and the wet of winter. Or, oi-melc, viz., oi, in the language of poetry, is a name for sheep, whence oibá (sheep’s death) is named, ut dicitur coinbá (dog’s death), echbá (horse’s death), duineba (men’s death), as bath is a name for ‘death’. Oi-melc, then, is the time in which the sheep come out and are milked, whence oisc (a ewe), i.e., oisc viz., barren sheep.”

O Óimelc que sobreviveu no Candlemas da santa Brigid é uma festa de prosperidade na qual a principal oferenda e ingrediente da refeição, segundo Ó Catháin, é a manteiga, o que reforça os aspectos da ordenha e a preocupação com a estocagem do leite como uma parte importante das festividades desta divindade. Bríg, sendo uma deusa ligada ao fogo e à fertilidade é o centro desta festa e a representante do gênero feminino enquanto provedora do leite. Não nos esquecendo de seu papel como personificação da soberania, uma vez que é rainha dos Tuatha de Danánn, ao lado de Bres, e de seu parentesco direto com Dagda, o detentor do caldeirão da abundância, do qual é filha.

Mas Bríg não é apenas a representante da ordenha e da produtividade enquanto personificação da soberania, ela é também uma agente mantenedora da posição da mulher na sociedade Celta. A maior parte das aparições de Bríg nas narrativas Irlandesas são nos tratados legais do século VII, os Senchas Mór que a mostram, como Christina Harrington menciona, ‘como filha, mulher ou mãe do legendário juiz Sencha do distante passado Irlandês’ se sentando ao seu lado e eventualmente interferindo em suas decisões. Além disso, a ela é atribuída à invenção de um tipo de choro típico das mulheres que é descrito no conto mitológico The second Battle of Magh Turedh.

“Their mortally wounded became whole through the might of the incantation of the four leeches who were about the well. Now that was harmful to the Fomorians, so they sent a man of them to spy out the battle and the actions of the Tuatha De, namely Ruadan son of Bres and of Brig the Dagda’s daughter. For he was a son and a grandson of the Tuatha De. Then he related to the Fomorians the work of the smith and the wright and the brazier and the four leeches who were around the well. He was sent again to kill one of the artisans, that is Goibniu. From him he begged a spear, its rivets from the brazier and its shaft from the wright. So all was given to him as he asked. There was a woman there grinding the weapons, Cron mother of FianLugh; she it is that ground Ruadan’s spear. Now the spear was given to Ruadan by a chief, wherefore the name “a chief’s spear” is still given to weaver’s beams in Erin.

Now after the spear had been given to him, Ruadan turned and wounded Goibniu. But he plucked out the spear and cast it at Ruadan, so that it went through him, and he died in the presence of his father in the assembly of the Fomorians. The Brig came and bewailed her son. She shrieked at first, she cried at last.
So that then for the first time crying and shrieking were heard in Erin. Now it was that Brig who invented a whistle for signaling at night.”

O culto à santa é permeado de significados que remetem à Bríg, que vão desde encantamentos de proteção e fertilidade feitos com pedaços de pano, como o Brat Bríde, ou artesanato, como os nós e cruzes trançados em palha, às procissões de inversões de papéis entre homens e mulheres, como a procissão da Brideog, acompanhada de música, declamação de poemas e apresentações de artes em geral. As atribuições santa são muito semelhantes à da divindade, assim como seus campos de interesse. Ambas são consideradas patronas das mulheres em seus direitos e posição perante a sociedade, seus cultos estão ligados à fertilidade do solo e dos animais, em especial à questão da ordenha e proteção dos novilhos e o elemento fogo aparece como forma de inspiração e ligação direta à manifestação de suas características e poder.

Ao que parece muitos aspectos do culto e folclore da santa Cristã são apropriações da divindade pré-cristã Bríg e que eles escondem em si uma variedade de significativos componentes pagãos, inclusive sua origem, que é vinculada a uma descendência Druídica direta, como nos mostra Anne Ross.

 “Brigid the saint was the daughter of a druid, Dubthach, and her future glory was prophesied by a druid named Mathgen. ln spite of her pagan background she was welcomed into Christianity, and became one of the most popular and best loved of all the Celtic saints.”

As coincidências e associações que podemos fazer entre a santa Brigid e a divindade Bríg, felizmente, são muitas e se cada uma em si não nos pode afirmar veementemente sua veracidade, juntas elas nos dão uma construção plausível da intersecção entre as duas.

Referências Bibliográficas:

BINCHY, D. A. The Fair of Tailtiu and the Feast of Tara in Ériu vol. 18. Royal Irish Academy, 1958.

BITEL, Lisa. Land of women: tales of sex and gender from early Ireland. Cornwell University Press, 1958.

BYRNE, Francis J. Irish Kings and High-Kings. Four Courts History Classics, Four Courts Press, 2001.

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World.  Routledge, London, 1996.

HARRINGTON, Christina. Women in a Celtic Church- Ireland 450-1150. Oxford University Press 2005.

MACBAIN, Alexander. Celtic Mythology and Religion.  A&W Makenzie. 1885

Ó CATHÁIN, Séamas. The Festival of Brigit the Holly Woman in Celtica 23. School of Celtic Studies. Essays in honour of James Patrick Carney, 1999. http://www.celt.dias.ie/publications/celtica/c23/c23-231.pdf

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.

STROKES, Whitley (Ed. e Trad.).  The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12, Paris, F. Vieweg (1891) page 52-130, 306-308. http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html