FineNaDairbre_Samhain03052014_10Tendo em vista a falta de um termo que realmente designe aquilo que acreditamos ser o que fazemos e a dificuldade de definir o que somos sem grandiosos discursos ou extensos termos de apresentação, principalmente pela deficiência de acuidade dos termos existentes, me propus a definir este “novo” termo, mais preciso e repleto de simbolismos os quais corroboram para seu entendimento em um grau metafórico.

Duir, ou seja, Druidismo Utópico Interpretativo Reconstrucionista é mais que uma definição é um conceito que engloba uma ideologia maior. Sendo Duir, em gaélico arcaico, a palavra que designa o carvalho, englobamos nele as características dessa árvore deixando irrefutavelmente claro o caráter religioso do termo, pois, como nos conta Plínio, o carvalho era considerado a mais sagrada das árvores.

“The Druids—for that is the name they give to their magicians — held nothing more sacred than the mistletoe and the tree that bears it, supposing always that tree to be the robur. Of itself the robur is selected by them to form whole groves, and they perform none of their religious rites without employing branches of it; so much so, that it is very probable that the priests themselves may have received their name from the Greek name for that tree. In fact, it is the notion with them that everything that grows on it has been sent immediately from heaven, and that the mistletoe upon it is a proof that the tree has been selected by God himself as an object of his especial favour.”

Tradução: “Os druidas – pois este é o nome que eles dão para seus magos – não tinham nada mais sagrado que o visco e a árvore na qual ele se instala, supondo sempre que a árvore seja o robur. Por si só o robur é selecionado por eles para formar bosques inteiros, e eles não realizam nenhum de seus ritos religiosos sem empregar ramos deste, tanto é assim, que é muito provável que os próprios sacerdotes tenham recebido seu nome do nome grego para aquela árvore. Na verdade, existe a noção entre eles de que tudo o que cresce sobre ele foi enviado diretamente do céu, e que o visco sobre tudo é uma prova de que a árvore foi escolhida pelo próprio Deus como um objeto de seu favor especial.”

Mas falar no aspecto religioso do carvalho é também falar no aspecto cultural e social, pois essas questões eram indissociáveis e se interconectavam e influenciavam mutuamente.Samhain 2013 Fine Na Dairbre XIII

Anne Ross confirma a importância do carvalho não só no aspecto ritual mais básico, como no seu emprego em estruturas funerárias e associação ao pós-morte através de galhos dessa planta encontrada junto a caixões também desta árvore:

“The choice of oak for wooden mortuary houses of the Hallstatt and La Tène burials may perhaps suggest the religious importance of this tree, but since these are functional rather than purely ritual structures, this cannot be demonstrated. More convincing are the boughs of oak which were recovered from a burial in an oak coffin found in a tumulus at Gristhorpe near Scarborough in 1834. Mistletoe was allegedly also found, further suggesting the ritual significance of the vegetation placed in the grave.”

Tradução: “A escolha do carvalho como madeira para casas mortuárias das sepulturas de Hallstatt e La Tène podem talvez sugerir a importância religiosa desta árvore, mas uma vez que estas são muito mais funcionais que estruturas puramente rituais, isso não pode ser demonstrado. Mais convincentes são os ramos de carvalho que foram recuperados de uma sepultura em um caixão de carvalho encontrado em um túmulo no Gristhorpe perto de Scarborough em 1834. Visco teria sido também encontrado, sugerindo ainda a importância ritual da vegetação colocada na sepultura.”

Assim, consideramos que Duir se constitui tanto em termos simbólicos como históricos um elemento que representa a indissolubilidade do caráter religioso da figura Sacerdotal do Druida com a Cultura Celta que o permeia. E aliado a tal conceito associado à figura do carvalho, a palavra Duir também representa um acrônimo daquilo que define as bases daquilo que estabelecemos como paradigmas primordiais aos nossos estudos e objetivos maiores.

Druidismo Utópico Interpretativo Reconstrucionista é Druidismo pois busca a figura Histórica do Druida, seus conhecimentos, seus ofícios, suas práticas e sua essência. É utópico à medida que somos conscientes da distância que nos separa dos “Druidas Históricos” e que seria ingênuo da nossa parte achar que seria possível reviver em sua plenitude original a figura Histórica do Druida em um mundo antagônico ao seu ambiente nativo. Este último reconhecimento nos leva ao caráter interpretativo de nossa empreitada, pois aquilo que não pode ser fielmente reproduzido precisa ser interpretado e ajustado às novas normas de conduta sociais e jurisprudência contemporânea, assim como as lacunas existentes precisam ser preenchidas de forma cautelosa e analítica através da apreensão da visão de mundo da Idade do Ferro Irlandesa, que é o nosso foco espaço-temporal. E, por último, e fundamentalmente, Duir é reconstrucionista pois utiliza de todos os métodos e recursos teórico, metodológico e prático científicos para tentar reconstruir e assimilar em sua própria essência a cultura, religião e valores sociais dos “Celtas” Irlandeses da Idade do Ferro e da classe Sacerdotal Histórica associadas a eles e atestadas nas fontes mitológicas e convencionalmente chamada de forma geral de Druidas.

Samhain 2013 Fine Na Dairbre XXIVAssim, lançamos as bases desse nosso novo conceito, que aplicamos a nós mesmos e que busca nas sepulturas e nas escavações de sítios arqueológicos e nos mitos e nos relatos da Antiguidade e Tardo-Antiguidade o “Celta” e o “Druida Histórico” como eles eram de fato, e, através das teorias interpretativas da Antropologia tentamos apreender sua visão de mundo e suas práticas e preencher de modo adequado e metodológico as lacunas que sejam necessárias à reconstrução de uma identidade histórica, embora utópica, do conhecimento cultural, social, mitológico, mágico e sacerdotal “Druídico”.  Portanto, este conceito é inseparável de algumas premissas básicas vinculadas à sociedade Celta Irlandesa da Idade do Ferro, ou seja, o Duir, ou Druidismo Utópico Interpretativo Reconstrucionista, é uma religião politeísta e animista, seu modelo de organização é clânico, as divindades são independentes e autônomas e de forma alguma redutíveis a equivalência entre si ou outros panteões e conceitos modernos de espiritualidade e modelos de “evolução” espiritual não cabem em seu contexto.