Por Marina Storino Holderbaum

Com a cristianização da Irlanda a santa Brigid tomou o lugar da deusa Bríg e seus mitos, cultos e festa foram utilizados para legitimar e dar suporte á crença da santa. Se Christina Harrington em seu livro Women in a Celtic Church (Ireland 450-1150) nega este fato, ela por outro lado, nos apresenta dados relevantes, que, ao contrário de sua teoria, parecem corroborar com a ligação entre a divindade e a santa, se fizermos as ligações e contextualização que a autora não faz.

“Where there is overlap between goddess Brigit and saint Brigit, however, is in the patronage of women, an association evident not only in these centuries but also as late as the twelfth. In the early eighth century Brigit the goddess was associated in the law tracts with women’s rights, and later, in the tale Cath Maige Tuired (The Battle of Moytura) and the prose Dinnshenchas (Lore of Places), the goddess Bríg was named as the originator of certain types of women’s outcry and of keening, a particularly female type of mourning cry. The saint’s feast day fell in Imbolc, the official start of spring in the native Irish calendar. Cormac’s Glossary has an entry on imbolc, defining it as ‘the time the sheep’s milk comes’, but does not identify the festival with Brigit. Care of sheep was a specifically women’s activity in early Ireland, and there are stories of Saint Brigit shepherding and making dairy products, but it must be remembered that the girl, as the daughter of a slave woman, is portrayed doing what non-noble girls would do normally. Nowhere, in fact, is Imbolc said to be the festival of the goddess Brigit, and beyond that, the goddess’s attributes do not include sheep care. It is only the connection to women that is marked.”

Embora Christina Harrington afirme que as ligações e coincidências entre a divindade e a Santa sejam pura especulação, ela nos dá um bom campo de trabalho em suas tentativas de separar as duas. Entretanto, outros acadêmicos conceituados como Francis Byrne, Anne Ross e Lisa Bitel fazem o caminho inverso desta autora, sustentando a ideia da sobreposição entre elas, e é este o caminho que seguiremos. De qualquer forma este é o único modo de se falar da deusa Bríg e de seu festival, simplesmente subtraído de qualquer evidência sólida de suas práticas originais e totalmente engolido pelo culto á santa. Lisa Bitel, assim como os outros, deixa clara a semelhança óbvia entre a divindade pré-cristã e a santa.

“Brig, who lent her name to the Brigantes in England and to Bregenz in Austria, also appeared in Irish legendary Histories as the daughter (sometimes three daughters) of the Dagda, the all-good, all-powerful god. Her namesake became the most famous of Irish women saints, Brigit, the one with a bile-marked church and eternal flame.”

Ao que tudo indica a deusa não foi substituída pela santa, dado que suas funções e culto não foram substituídos por novos, mas incorporados pela nova religião. Na verdade, a impressão é de que a deusa Bríg foi transformada em santa a fim de intensificar a conversão para a fé que chegava. Esta teoria é reforçada pelo fato de não haver praticamente nenhum fato histórico sabido a respeito da real existência da santa e muito pouca informação biográfica sobre ela, estando estas restritas às suas Vitas, versão oficial da Igreja de sua biografia, como afirma Byrne.

“The significance of Kildare as a perquisite of the over-king of Leinster may go back to pagan roots. While it would be Hyper-sceptical to doubt the existence of a real Christian saint named Brigit (of whom, indeed, practically nothing historical is known: Cogitosus clearly had very little concrete biographical information) it has long been suspected that her legend, cult and even her church have incorporated elements from the worship of a pagan goddess.”

Que a divindade Bríg e a santa Brigid têm muito em comum, além da óbvia semelhança linguística entre seus nomes, é amplamente sabido e documentado em estudos acadêmicos, como podemos ver. E a ausência da divindade Bríg na mitologia e no folclore pode dizer muito a respeito de sua importância na Irlanda Céltica e do grande esforço realizado pelo cristianismo em transformá-la e a seu culto em uma ferramenta de conversão. Como Christina Harrington comenta o que se sabe a respeito de Bríg é muito pouco, tanto nas evidencias escritas como nas arqueológicas e a falta de qualquer escavação sob o mosteiro de Kildare, nos deixa com um vazio a ser preenchido.

“As mentioned in the previous chapter, we know very little about the pagan goddess of the name Bríg or Brigit in Ireland, owing to a lack of evidence, written and archaeological. Because no one has ever dug underneath Kildare to see if there is a pre-Christian temple site, even the presumed cult centre, if there was one, is not known to exist. The earliest evidence for the goddess is in the Irish vernacular law tracts, written down c.700, which contain a few little legal stories in which Bríg is the daughter, wife, or mother of the legendary judge Sencha of the distant Irish past. According to these she sat by Sencha’s side as he made pronouncements on law, and on occasion intervened to correct or contradict him.”

É um fato largamente reconhecido e comprovado por arqueólogos que “os três ‘nobres encontros’ promovidos anualmente pelos ‘homens da Irlanda’ eram respectivamente a Assembleia (mórdáil) de Uisnech em Beltaine, a Feira (óenach, Lat. agon) de Tailtiu em Lugnasad, e o Festim (feis, Lat. cena) de Tara em Samain”, segundo as palavras de Binchy em The Fair of Tailtiu and the Feast of Tara. O quarto destes ‘nobres encontros’ seria Óimelc, a festa de Bríg. Evidências de culto à Bríg foram achadas em sítios relacionados á Lughnasad, mas nenhum sítio relacionado à Óimelc foi encontrado ainda, talvez, como Christina Harrington conjectura, pelo Templo de Kildare ter sido construído sobre ele e este jamais ter sido escavado.

Outro fato que sustenta esta suposição de que Kildare pode ser o quarto sítio, e que também nos é dada pela própria Christina Harrington, é a existência de um grande carvalho junto ao templo. Segundo ela este dado foi incluído à Vita I da santa Brigit por Richard Shape enquanto este escrevia a Vita IV, no final do século XII ou início do Século XIII, e ao que tudo indica, como ela afirma, esse dado parece estar correto e o grande carvalho realmente existiu no templo, ao menos no século 12. Considerando que um carvalho pode viver até 1.000 anos e sua vida produtiva só começa por volta dos 80 anos, um carvalho bem desenvolvido deve ter em média uns 300 ou 400 anos, o que certamente situa uma árvore de grande porte desta espécie há pelo menos alguns séculos no Templo de Kildare, o que certamente motivou o autor da Vita IV a incluir a árvore nas vidas anteriores da santa.

“A third piece of evidence some cite for pagan survivals at Kildare is its great oak tree, first encountered in the late twelfth or early thirteenth century when it was added to Brigit’s Vita I by the redactor identified by Richard Sharpe as ‘D’ as he wrote out what was to become the Vita IV*. The tree is not mentioned in any earlier source, but appears to have really existed in D’s day, for he saw it as explaining the origin of the name of Kildare, ‘Cell Dara’**. For nineteenth century scholars such as Healy, the implication of the oak tree, the druidic cult, and the Kildare legend was obvious. Kildare was built in a druidic oak grove and the great tree was venerated even in Christian times. This assertion, resting on this same constellation of evidence, is found in the late twentieth century, too, though not in academic writing. The true origins of the name of Kildare are almost certainly the building material of the church, i.e. ‘oaken church’, suggested by both annal entries and archaeology.”    

* This Life of Brigit, the Vita IV, is edited in Sharpe, Saints’ Lives, 139–208, with the redactor’s alterations in italics. On the redactor and the identification of his alterations, ibid. 121–6.
** Vita IV, book 2, ch. 3: ‘For there was a very tall oak tree there which Brigit loved very much, and blessed, of which the trunk still remains. No one dares cut it with a weapon, but whoever can break off a part of it with his hands deems it a great advantage, hoping for the help of God by its means; because through St Brigit’s blessing many miracles have been performed by that wood.’

Harrington afirma que o fato do grande carvalho existir no Templo, e não só isso, mas ser um símbolo sagrado à própria santa, que o ama e abençoa, como é descrito na Vita IV, não remete de forma alguma a uma associação a um passado pagão da santa ou do templo, e que tais explicações são meras especulações infundadas. Entretanto, Anne Ross dedica um capítulo inteiro de seu livro Pagan Celtic Britain exatamente à importância de tais símbolos naturais à religião Céltica, e em especial aos grandes carvalhos como árvores sagradas e ponto focal para cerimônias, comumente utilizados como templos naturais.

“A group of names incorporates the word nemeton, sacred grove. Lucan describes groves of trees as being the favorite places of the Druids for their rites, and there is no need to contest this, all existing evidence supporting the statement.”

Ao afirmar que “a verdadeira origem do nome de Kildare é quase com certeza o material usado na construção da igreja, ou seja, ‘igreja de carvalho’, o que é sugerido tanto pela arqueologia quanto pelas passagens dos anais”, Harrington nos apresenta mais um elemento que também pode ser vinculado a um passado pré-cristão. Anne Ross nos fornece o material para essa ligação, mostrando o uso ritual desta árvore como parte de uma forma de culto.

“The choice of oak for wooden mortuary houses of the Hallstatt and La Tène burials may perhaps suggest the religious importance of this tree, but since these are functional rather than purely ritual structures, this cannot be demonstrated. More convincing are the boughs of oak which were recovered from a burial in an oak coffin found in a tumulus at Gristhorpe near Scarborough in 1834. Mistletoe was allegedly also found, further suggesting the ritual significance of the vegetation placed in the grave.”

Certamente, o fato de tais associações poderem ser feitas entre o grande carvalho do Templo de Kildare e os nemetons dos cultos Celtas, não provam em si sua origem pagã e muito menos uma forma de culto pré-cristã ligada ao templo, mas nos traz uma pergunta ainda sem resposta, o que há sob a superfície de Kildare?

Se a divindade foi realmente transformada em santa a fim de legitimar e promover a conversão para a nova religião, seguramente, um passo importante para estabelecer a mudança de costumes associados à Bríg seria a ocupação de seu antigo local sagrado pelo templo da santa Brigid. Até que, finalmente, a arqueologia possa desvendar o passado escondido embaixo de Kildare não nos resta nada além de supor que ali, sob a ‘igreja de carvalho’ esteja escondida a verdadeira face da deusa Bríg.

Referências Bibliograficas:

BINCHY, D. A. The Fair of Tailtiu and the Feast of Tara in Ériu vol. 18. Royal Irish Academy, 1958.

BITEL, Lisa. Land of women: tales of sex and gender from early Ireland. Cornwell University Press, 1958.

BYRNE, Francis J. Irish Kings and High-Kings. Four Courts History Classics, Four Courts Press, 2001.

HARRINGTON, Christina. Women in a Celtic Church- Ireland 450-1150. Oxford University Press 2005.

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.