Por Erik Wroblewski

Quem e o que eram os “druidas”? Talvez esta seja uma das perguntas mais recorrentes e, ainda assim, uma das que possuem as respostas mais vagas para aqueles que não detém, ainda, algum conhecimento sobre o contexto em que viviam e se organizavam os antigos celtas. Por isso, antes de tentar responder a esta questão, é preciso elucidar alguns aspectos essenciais, sobretudo no que concerne à origem das informações que temos a respeito destas personagens históricas a fim de que, numa tentativa de trilhar seus passos, possamos fazê-lo de forma consciente e responsável.

Antes de mais nada, precisamos nos conscientizar de que a esmagadora maioria do material literário que temos à nossa disposição para o estudo é, no mínimo, de origem duvidosa. Toda a literatura produzida após os séc. XVI de nossa era é repleta de armadilhas, especialmente por se tratar de interpretações que atendiam a interesses sociais e políticos da época.

Exemplos disso são o “Ciclo Arturiano” que, embora recheado com uma estética pseudo-céltica, trata-se de uma criação literária que visava atender aos gostos estéticos e intelectuais das cortes francesa e inglesa do séc. XVI e XVII, retratando valores cavalheirescos destes períodos, os quais é possível afirmar com toda certeza, pautada em pesquisas históricas e arqueológicas, de que nunca foram célticos. Embora se constituam de obras belíssimas do ponto de vista literário, não são nada mais do que ficções românticas.

Por sua vez, os séculos XVIII e XIX trazem armadilhas ainda mais insidiosas: pautados em argumentos pseudo-científicos e muito bem construídos e convincentes, estudiosos, intelectuais e literatos da “Era Vitoriana”, por toda a Europa, utilizaram-se de conteúdos históricos e arqueológicos cuidadosamente selecionados para construir imagens do passado que atendiam às necessidades políticas da época.

Dentro deste recorte, o aspecto mais importante era a construção de identidades nacionais, ou seja, a criação de argumentos que pudessem ser aceitos pela sociedade (ou impostos a ela) cujo conteúdo visava determinar o que era um “francês”, um “alemão” ou um “inglês”, por exemplo. Essa necessidade era imperativa pois, em tempos medievais, as pessoas deviam lealdade a uma pessoa – um barão, um príncipe ou um rei – e não à um conceito de “nacionalidade”. No entanto, isso muda a partir da guerra franco-prussiana, com a necessidade de expansão de mercados devido à revolução industrial e, sobretudo, por causa da expansão militar “alemã”.

E é isso que nos leva à nossa questão original: quem e o que eram, afinal, os druidas? Deixando de lado os romantismos e falsificações, os devaneios e os anacronismos, pouco sabemos, realmente, sobre quem eram os druidas. De acordo com relatos de historiadores gregos e romanos da Antiguidade, os druidas eram uma “casta sacerdotal” dos celtas, responsáveis pela adivinhação, pela condução dos ritos sagrados e a comunicação com os Deuses.

Mas esta perspectiva nos revela muito pouco, e quando contrastamos estes relatos com a literatura insular irlandesa, dos séculos V, VI e VII, últimos remanescentes de uma tradição mais ou menos original dos mitos e tradições célticas, podemos vislumbrar ao menos quais eram as funções e papéis do druida.

Com certeza, eram os druidas que faziam a comunicação dos mortais com os deuses, eram eles quem presidiam os rituais públicos e faziam a adivinhação. Mas seu papel ia muito além disso: tão importante quanto fazer a ponte entre o mundano e o sagrado, os druidas eram os detentores do conhecimento e da consciência social céltica na Antiguidade.

Eram eles os responsáveis por preservar os mitos e as tradições dos povos célticos, eram juízes que mediavam disputas, eram conselheiros dos reis e, embora não detivessem nenhum poder temporal (não comandavam exércitos), eram a única força social capaz e censurar os governantes. Além disso ainda eram médicos, poetas e filósofos.

Desta maneira, o que precisamos compreender é que, embora os romances e o imaginário a respeito dos druidas possam ser esteticamente agradáveis, basta uma breve análise para percebermos que também são vazios e inconsistentes. Os druidas históricos, aqueles que podemos vislumbrar a partir daquilo que nos deixaram podem ser muito mais difíceis de contemplar, mas é justamente sua complexidade e profundidade que os tornam intrigantes e uma fonte admirável de conhecimento e sabedoria.