Por Marina Holderbaum

No mito datado do século VII por Pronsias Mac Cana, Immram Brain, A viagem de Bran mac Febral, Bran estava passeando nas redondezas de sua fortaleza quando começou a ouvir uma música que o fez adormecer, e quando ele acordou tinha ao seu lado um ramo de prata com flores brilhantes. Ele levou o ramo de prata para casa e quando sua casa estava cheia de pessoas uma mulher usando roupas estranhas apareceu e pôs-se a recitar um poema sobre as maravilhas do Outro Mundo para Bran e convidando-o a viajar mar adentro até Tír na mBan. Após terminar o poema a mulher foi embora levando o ramo com ela. Bran viajou no dia seguinte com três tripulações de nove homens em seu barco. Na viajem ele tem um breve encontro com Manannán Mac Lir que, segundo a interpretação de Charles W. MacQuarrie, não só indica o caminho que ele deve seguir, mas permite que Bran entre no Outro Mundo. Bran então segue caminho e após algum tempo chega a Tír na mBan, mas não antes de ir parar erroneamente na Ilha da alegria, onde um de seus homens se perde extasiado pelo riso.

Em Tír na mBan eles são recebidos pela chefe das mulheres com toda honra e hospitalidade. Camas nove vezes maiores que o normal acolhiam cada um dos casais formados na ilha e a comida jamais acabava, todos os seus desejos eram atendidos, mas eles nunca eram saciados. Eles não perceberam o tempo que ficaram lá, mas se passou muito mais tempo que a própria vida deles permitiria e só quando um dos homens adoeceu foi que eles resolveram voltar para rever seus parentes, mas tantos séculos já haviam se passado que não podiam mais tocar a terra, sob o risco de se transformarem em cinzas.

“62. Não foi muito tempo depois, que chegaram à Terra das mulheres. Eles viram a líder das mulheres no porto. A chefe das mulheres falou: ‘Venha para mais perto, ó filho de Bran Febal! Bem-vinda é a tua chegada! Bran não se aventurou a ir à praia. A mulher atirou uma bola de linha para Bran, direto sobre seu rosto. Bran pôs a mão na bola, que aderiram a palma da mão. O fio da bola estava na mão da mulher, e ela puxou o coracle em direção ao porto. Então eles entraram em uma casa grande, onde havia uma cama para cada casal, até três vezes nove camas. A comida que foi colocada em cada prato não desapareceu deles. Para eles, parecia um ano que estavam lá, – acontece que se passaram muitos anos. Nenhum desejo era saciado por eles.”[1]

Esse mito é uma boa ilustração do que a absorção em distrações pode se transformar. Obviamente, distrações, no sentido recreativo, são necessárias e até essenciais para uma boa qualidade de vida e manutenção da saúde mental. Ter momentos de lazer e hobbies é algo saudável e aconselhável. Por outro lado, ser dominado pelas distrações, como Bran e seus homens fizeram, é algo perigoso, pois tirou seu foco e a clareza de raciocínio. Vejam que o mito não indica que o tempo no Outro Mundo era diferente, apenas que para eles parecia não ter passado mais que um ano, mas que na verdade muitos haviam se passado. Como em tudo mais, o equilíbrio é a chave para lidarmos com as distrações, pois elas devem ser um instrumento de aquietação ou relaxamento do corpo e da mente, e não uma rotina viciante que nos impeça de enxergar nada além dela.

Mas se a viagem de Bran nos ilustra um caso extremo, não podemos esquecer que o nosso dia está repleto de distrações, que o mundo moderno produz milhares de formas diferentes de distrações que são úteis há seu tempo, mas que muitas vezes nos atrapalham. É comum as pessoas esquecerem-se de fazer algo por estarem absorvidos com alguma distração, ou não conseguirem se concentrar em uma meditação, porque não conseguem se desligar das questões cotidianas ou mesmo por causa do barulho externo.

Um dos piores problemas, que é geralmente causa e causado, em um ciclo contínuo,  pelas distrações excessivas é a falta de foco. Pensando em uma ritualização, ou meditação, por exemplo, podemos claramente perceber que a falta de objetivo sinaliza para o fracasso de qualquer uma destas práticas, o foco central de um rito, seja ele individual ou coletivo, precisa ser muito bem apreendido e compreendido para que seu fim seja bem sucedido, pois simbologias ou distrações incompatíveis com sua pretensão podem torna-lo vago e impreciso, e portanto, falho. Se pensarmos na Viagem de Bran, percebemos que ele tem um objetivo bem claro, e que, Manannán como senhor do Outro Mundo dando permissão e orientação para que ele atinja seu destino faz todo sentido, mas um dos elementos não só não é necessário à viagem, como faz com que Bran perca um de seus homens na Ilha da Alegria. É preciso dizer que este mesmo homem retorna com eles à Irlanda, pois a chefe das Mulheres pede que eles resgatem o integrante da tripulação que havia ficado na outra ilha antes de deixarem o Outro Mundo. Podemos ver esta ilha no caminho como uma distração e a perda do tripulante como uma causa ligada a falta de foco, pois saber de onde se parte e para onde se vai é uma parte essencial de qualquer ação, mas estar atento ao caminho e se ele está correto também é importante, pois os desvios, como no caso de Bran, podem causar a perda da Integralidade.

Manter uma disciplina, ou uma rotina programada, pode ajudar muito a não perder o foco, pois é fato que com a organização do tempo, nossa mente aprende a se adaptar a cada necessidade, podemos ensiná-la a se aquietar em certos momentos, trabalhar efetivamente em outros e simplesmente se distrair quando for a hora certa para isso. Mas não vamos esquecer que existe uma questão biológica por trás da nossa rotina, nosso relógio interno também deve ser respeitado. É sabido que o relógio biológico das pessoas funciona em ritmos diferentes, o relógio biológico também deve ser respeitado ao criar uma rotina, pois uma rotina que não leve em conta a necessidade de nosso corpo trabalhar ou repousar, certamente será improdutiva. Conhecer a nós mesmos, saber diferenciar os horários que estamos mais aptos ao raciocínio lógico ou a quietude necessária para uma meditação, faz muita diferença, não só na eficácia da disciplina, como na auto-estima atrelada a ela, já que a falta de resultados pode causar desanimo e ruir qualquer boa intenção.

[1] “62. It was not long thereafter when they reached the Land of Women. They saw the leader of the women at the port. Said the chief of the women: ‘Come hither on and, O Bran son of Febal! Welcome is thy advent!’ Bran did not venture to go on shore. The woman throws a ball of thread to Bran straight over his face. Bran put his hand on the ball, which clave to his palm. The thread of the ball was in the woman’s hand, and she pulled the coracle towards the port. Thereupon they went into a large house, in which was a bed for every couple, even thrice nine beds. The food that was put on every dish vanished not from them. It seemed a year to them that they were there,–it chanced to be many years. No savour was wanting to them.”