Por Marina Storino Holderbaum

O In Lebor Ogaim, Tratado de Ogham, nos conta a origem mitológica do Ogham e seu significado, sugerindo que este tenha sido criado para ser uma linguagem secreta e ritualística usada pelos druidas, já que foi desenvolvido para ser conhecida apenas por aqueles que tinham educação especial e seu uso primordial teria sido uma mensagem de aviso do mundo das fadas, como se pode ler neste trecho:

“What are the place, time, person, and cause of the invention of the Ogham? Not hard. Its place Hibernia insulaquam nos Scoti habitamus. In the time of Bres son of Elatha king of Ireland it was invented. Its person Ogma son of Elatha son of Delbaeth brother to Bres, for Bres, Ogma and Delbaeth are the three sons of Elatha son of Delbaeth there. Now Ogma, a man well skilled in speech and in poetry, invented the Ogham. The cause of its invention, as a proof of his ingenuity, and that this speech should belong to the learned apart, to the exclusion of rustics and herdsmen. Whence the Ogham got its name according to sound and matter, who are the father and the mother of the Ogham, what is the first name that was written by Ogham, in what letter it was written, the reason why it was written, by whom it was written, and why b precedes every letter, hicuoluuntur omnia. 

Ogham from Ogma suo inventore primo in respect to its sound, quidem; according to matter, however, ogum is og-uaim, perfect alliteration, which the poets applied to poetry by means of it, for by letters Gaelic is measured by the poets; the father of Ogham is Ogma, the mother of Ogham is the hand or knife of Ogma.

 This moreover is the first thing that was written by Ogham, Ogham_04, i.e. (the birch) b was written, and to convey a warning to Lug son of Ethliu it was written respecting his wife lest she should be carried away from him into faeryland, to wit, seven b s in one switch of birch: Thy wife will be seven times carried away from thee into faeryland or into another country, unless birch guard her. On that account, moreover, b, birch, takes precedence, for it is in birch that Ogham was first written.”

Este mito de origem é repleto de simbolismos que se entrelaçam uns aos outros. Suas peculiaridades se iniciam pelo seu próprio nome, que é também um jogo de palavras com o nome de seu Ogma, sugerindo um paralelo entre eles, sendo o Ogam a própria síntese de seu mentor, “um homem hábil no discurso e na poesia” e que teria contato e influência no mundo das fadas; note-se que o mundo das fadas na cultura Celta confunde-se com o outro mundo, ou seja, ao que o mito indica, Ogma deveria ser um druida, ou um deus druida, e criando um sistema de linguagem que compartilhando de seu nome capturava sua essência, o Ogham seria um alfabeto que está intrincado a essência e características druídicas de Ogma.

É interessante notar como é explicada a divisão das árvores e arbustos. Embora o segundo grupo de árvores e os arbustos sejam camponeses e o primeiro grupo seja nobre, parece que as árvores são divididas como a sociedade, em três grupos diferentes, de acordo com suas características e função. Se a classe sacerdotal não entra nesta divisão, talvez seja porque ela é a detentora da linguagem do Ogham, no mito, e sua manipuladora, tendo assim seu lugar de destaque já reservado enquanto detentora da técnica e do conhecimento.

 “How many divisions of Ogham are there, and what are they? Not hard. Four: b five, h five, m five, a five, besides diphthongs. 

How many groups of Ogham? Not hard. Three, viz., eight chieftain trees, eight peasant trees, and eight shrub trees. Eight chieftain trees first: alder, oak, hazel, vine, ivy, sloe, furze, heath. Eight peasant trees, viz., birch, quicken tree, willow, ash, whitethorn, whin, apple tree. As to their letters all other shrubs are peasant trees.”

Mas então porque haveria duas divisões camponesas e não duas nobres, uma representando o Rei e outra representando a nobreza em geral? Sendo baseada no valor de honra e tendo uma classe sacerdotal bem definida e imbuída de poder político e jurídico, a sociedade Celta, não dá ao Rei uma posição de divindade, como outras sociedades fariam, o Rei é, essencialmente, parte da nobreza guerreira e pode ser deposto e substituído de acordo com seu valor de honra. Por outro lado, a valorização das técnicas artesãs, sendo uma via para a aquisição de honra é um fator importantíssimo dentro da sociedade Celta e principalmente ao que se refere ao Ogham, pois sua origem, como já vimos no mito de criação desta linguagem, vem de uma junção entre o saber da classe letrada e a técnica da classe produtora artesã. O que parece acontecer aqui é a separação da classe produtora entre detentores de técnicas artesãs como árvores camponesas, até porque, seria necessário, pelo menos, um mínimo de habilidade técnica para entalhar o Ogham, e o produtor comum, sem valor de honra, como arbustos.

O manuscrito segue então, explicando que as letras deste alfabeto estão relacionadas com sons aprendidos, de várias linguagens do mundo, pela Escola de poesia de Fenius e com árvores e que são destas que vêm seus nomes e suas características.

“Query, well then, whence are the Ogham vowels and consonants named? Not hard. Secundum alias quidein, it is from the school of Fenius Farsaidh, to wit, the school of poetry which Fenius sent throughout the world to learn the languages. There were five and twenty that were noblest of them so that it is their names that were put for the Bethe Luis Nin of the Ogham, both vowels and consonants; and there were four who were the noblest of these again, so that it is their names that were given to the seven principal vowels :

Ogham_05

and they added other three to them so that from these are named the other three  diphthongs, wherefore Ogham_03   are classified apart. Secundum alias it is from the trees of the forest that names were given to the Ogham letters metaphorically.” 

Apenas esta conexão entre as letras do Ogham e suas árvores correspondentes, já seria um indício de que tal alfabeto não seria apenas um modo de escrita, mas uma linguagem no mínimo muito elaborada, pois, por si só as letras já transmitiriam uma série de significados e simbolismos, o qual implicaria em um grande conhecimento botânico e tradicional daqueles que o utilizassem, dado este que enfatiza ainda mais a hipótese deste alfabeto ter sido uma linguagem da classe letrada acima de tudo e por isso essencialmente pagã.

Entretanto, todas as evidências sobre a existência do Ogham são gravadas em pedra e não em madeira, como no mito, o que de certa forma, seria facilmente explicável pela ação do tempo no material, já que a madeira facilmente se degrada, e a modificações culturais. Por outro lado, estas inscrições em marcos de pedra em nada parecem se assemelhar com a origem mágica derivada de Ogma. Embora os druidas fossem responsáveis pela memória genealógica e conhecimento geográfico e neste ponto realmente o Ogam está relacionado a eles, a questão oracular ou mágica desta escrita não pode ser comprovada e nem mesmo sua origem em uma antiguidade remota.

Se esta escrita realmente esconde algo relacionado às atividades sacerdotais ou ao contato com o Outro Mundo, não podemos saber ao certo, pois suas sobrevivências se dão apenas em formas de inscrições e marcos em pedra que aparentemente não possuem qualquer aspecto religioso. Se em algum ponto na antiguidade o Ogam foi usado como escrita mágica entalhada em madeira, como no mito, não temos como saber, pois mesmo que tais madeiras sobrevivessem ao tempo, elas provavelmente estariam tão desgastadas que tornariam imperceptíveis as inscrições. Mito e evidências nem sempre se confirmam quando confrontados e este é um desses casos insolúveis, no qual eles se desencontram.

Referências Bibliográficas:

CALDER, George – Auraicept na N-Éces (The Scholar’s Primer) ed. and translated Edinburgh, John Grant 1917.

MACNEILL, John – Notes on Irish Ogham Inscriptions in Proceedings of the Royal Irish Academy, vol. XXVIII, Dublin, 1909

MCMANUS, Damian. Written on Stone in Irish Arts Review vol. 23, No. 3, Irish Arts Review, 2006.

MCMANUS, Damian. A guide to Ogam. Maynooth Monographs No 4, 1991.