Por Marina Storino Holderbaum

Embora haja algumas evidências escritas, principalmente nos textos de Caesar e Posidonius, de que locais fechados era um elemento importante no conceito de espaço sagrado Celta, a falta de detalhes de construção e estrutura dessas menções e a utilização de materiais frágeis ao tempo em sua composição levam a uma ausência de dados a respeito de como eram constituídos e qual sua organização e usos específicos. Segundo Anne Ross[i], construções eram feitas em muitos dos espaços reservados a cultos a fim de sediar os ritos e conter oferendas e objetos necessários para sua realização, mas eles seriam construídos com materiais degradáveis como madeira e palha, o que torna difícil sua identificação em escavações, passando muitas vezes despercebidos pelos arqueólogos. Mas há plena evidência de que as fontes de água, assim como “montes funerários” (grave mounds), bosques e árvores solitárias, especialmente aquelas próximas a “montes funerários”, eram usados como pontos focais para rituais.

Segundo Jane Webster[ii], em The Celtic World, a palavra nemeton, comumente usada na descrição de sítios de significância ritual no contexto Celta, utilizado primeiramente por Strabo em Galatian Drunemeton, pode ser comprovada apenas no período pós-conquista em nomes de locais e epigrafias. E embora o termo seja usado frequentemente com o intuito de indicar bosques sagrados, há pouca indicação dessa representação principal aos locais relacionados, sendo, nemeton, na verdade um conceito amplo, que teria muitas significações incluindo, segundo Stuart Piggott[iii],  bosques e clareiras e pequenos templos cobertos. É provável que estruturas formais estivessem associadas a eles, mas as evidências não são conclusivas e a definição de MacCana, de que nemeton representa o espaço sagrado, é a mais aceita usualmente.

Nascentes, poços e rios eram considerados locais propícios para rituais e práticas religiosas por excelência, segundo Anne Ross[iv], sendo que a evidência material de depósitos votivos deixa clara a importância e utilização abrangente das fontes de água para tais finalidades. Isso se deve, segundo a autora, à associação direta de tais locais com aspectos da própria manutenção da vida, sendo comumente associados a divindades femininas, e muitas vezes, ditos como originários da própria ação ou copo de certa divindade, assim como ligados a touros sagrados, em uma referência clara a questão da fertilidade vinculada à água.

“Springs, wells and rivers are of first and enduring importance as a focal point of Celtic cult practice and ritual. Rivers are important in themselves, being associated in Celtic tradition with fertility and with deities such as the divine mothers and the sacred bulls, concerned with this fundamental aspect of life.”[v]

Jane Webster[vi] também cita os pântanos como foci para depósitos de metais e corpos com sinais de morte ritual, embora não haja uma comprovação clara de que se tratava de um local utilizado para sacrifícios, já que os corpos são datados da idade do Bronze e período Romano, descaracterizando a ideia de um fenômeno ritual da Idade do Ferro. As ilhas também seriam locais favoráveis a implantação de focos de culto, entretanto pouca evidência pode ser reconhecida nestes espaços naturais.

“The Lindow bog body (Lindow Moss, Cheshire) is a recent example. Dating of the body is problematic (Gowelett el al. 1986; Otlet et al. 1986), but radiocarbon dates from the most recent analysis cluster around the first century AD (Ross and Robbins 1989:17). Lindow man suffered a threefold death (by axe blows, garroting and cutting of the throat). Wether or not he was victim of human sacrifice (as Ross (1986) maintains), this triplication suggests a death with ritual links. Where datable, however, British bog bodies are mainly of bronze age or Roman date (Turner and Briggs 1986:63), and their ritual association unclear. The extent to which such deposits represent an iron age ritual phenomenon is thus uncertain.”[vii]

 As árvores e bosques de árvores também são reconhecidamente amparados pelas evidências como pontos focais de rituais e cerimônias, e muitas vezes, estavam, também associados a poços, o que reforçaria a sacralidade do local. Anne Ross[viii] indica o carvalho como de principal interesse entre os Druidas e faz referência a este como madeira utilizada em casas mortuárias do período de Hallstatt e sepulturas do período de La Tène, que poderiam sugerir um significado ritual, embora a funcionalidade também possa ser sido um fator determinante do uso do carvalho. Ela ainda menciona que, em manuscritos Irlandeses, assembleias eram feitas sob algumas árvores como a Árvore de Tortu (um freixo), Éo Rosa (um teixo), Éo Mugna (um teixo) e a Árvore de Dath-í (um freixo) e que danificar qualquer uma dessas árvores de qualquer modo seria um tabu. Além disso nozes e folhas de avelãs foram encontradas intactas em um poço votivo, reforçando a importância desta planta tão citada na mitologia como fonte de conhecimento e associada a poços, como Anne Ross comenta.

“The presence of the hazel leaves and nuts in the well containing intact urns may not impress immediately without a knowledge of wider Celtic custom. Any examination of the corpus of early Irish literary tradition however, reveals that, not only was the hazel tree itself venerated, but its traditional association with sacred wells is fully attested.”[ix]

 Especialmente os poços, embora alguns rios também tenham sido alvo deste tipo de prática, eram lugares de depósitos de oferendas, pois seriam considerados locais de passagem para o Outro Mundo. Os “montes funerários” também faziam dos locais associados à noção de passagens para o Outro Mundo, particularmente aqueles que eram vinculados a alguma sepultura mitológica, que eram frequentemente usados como locais de culto e locais preferenciais para a realização dos grandes festivais anuais, segundo Anne Ross.

“The burial mound, like the well, and the sea, was regarded in Celtic belief as one of the entrances to the otherworld of which the Celts were so conscious, and such great tumuli as those at New Grange on the Boyle are traditionally regarded as the houses of such divine beings as Oengus and his father, the Dagda. The so- called sid mounds which are regular feature of the early Irish world, probably originated in beliefs associated with burial mounds. Traces of shrines, a few of which may have been associated with burials, have been noted, and many others must have gone unrecognized because the significance of the structures (banks, etc.) were not appreciated by the excavators.”[x] 

Jane Webster[xi] nos fornece um dado interessante quanto à orientação dos espaços sagrados, afirmando que muitos locais de culto Celtas possuíam entradas voltadas para o leste e que Posidonius diz que os Keltoi reverenciavam seus deuses se voltando para a direita. Essas informações nos diz muito sobre a importância da orientação espacial e simbólica na questão ritual, revelando que a natureza física dos locais de foco ritual eram parte das condições de escolha e construção dos espaços sagrados, mas questões muito mais sutis, relacionadas a referências solares e posicionais e a própria especificação dos locais como propícios à orientação, também deviam ser levadas em conta no estabelecimento de um local de culto.

Referências Bibliográficas 

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World.  Routledge, London, 1996.

PIGGOT, Stuart. The Druids. Thames and Hudson, New York, 1999

 


[i] Ross, Anne. Pagan Celtic Britain, 1996, p.66-68

[ii] Webster, Jane. Sanctuaries and Sacred Places. In GREEN, Miranda (org.) The Celtic World, 1996, p.448

[iii] Piggott, Stuart. The Druids, 1999, p.62

[iv] Ross, Anne. Pagan Celtic Britain, 1996, p.50

[v] Ross, Anne. Pagan Celtic Britain, 1996, p.46

[vi] Webster, Jane. Sanctuaries and Sacred Places. In GREEN, Miranda (org.) The Celtic World, 1996, p.450-451

[vii] Webster, Jane. Sanctuaries and Sacred Places. In GREEN, Miranda (org.) The Celtic World, 1996, p.450

[viii] Ross, Anne. Pagan Celtic Britain, 1996, p.54

[ix] Ross, Anne. Pagan Celtic Britain, 1996, p.54

[x] Ross, Anne. Pagan Celtic Britain, 1996, p.65-66

[xi] Webster, Jane. Sanctuaries and Sacred Places. In GREEN, Miranda (org.) The Celtic World, 1996, p.459