Por Marina Storino Holderbaum

Uma das grandes festividades anuais da Irlanda Céltica, Lughnasad é, essencialmente, uma festa dedicada ao deus Lugh, uma divindade solar de crucial importância na mitologia Irlandesa. Ele aparece como um elemento singular na narrativa da batalha de Magh Tuired. Sua chegada aos portões de Tara e sua admissão à corte são descritas com detalhes no mito The Second Battle of Mag Tured, e nos mostram a imagem de um indivíduo incomum até para os Tuatha De Danann.

““The doorkeeper asked of Lugh Samildanach: “What art dost thou practice?”  Said he:” for no one without an art enters Tara.”

“Question me,” said he; I am a wright.”

The doorkeeper answered: “We need thee not. We have a wright already, even Luchta son of Luachaid.”

He said: “Question me, O doorkeeper! I am a smith.”

The doorkeeper answered him: “We have a smith already, Colum Cualleineach of the three new processes.”

He said:” Question me: I am a champion.”

The doorkeeper answered: We need thee not. We have a champion already, Ogma son of Ethliu.”

He said again: “Question me: I am a harper.”

“We need thee not. We have a harper already, Abcan son of Bicelmos whom the Tuatha De Danann chose in the fairy mounds.”

Said he: “Question me I am a hero.”

The doorkeeper answered: “We need thee not. We have a hero already, even Bresal Etarlam son of Eochaid Baethlam.”

Then he said: “Question me, O doorkeeper! I am a poet and I am a historian.”

“We need thee not. We have already a poet and historian, even En son of Ethaman.”

He said, “Question me: I am a sorcerer.”

“We need thee not. We have sorcerers already. Many are our wizards and our folk of might.”

He said: “Question me; I am a leech.”

“We need thee not. We have for a leech Diancecht.”

“Question me,” said he; “I am a cupbearer.”

“We need thee not. We have cupbearers already, even Delt and Drucht and Daithe, Tae and Talom and Trog, Glei and Glan and Glesi.”

He said: “Question me: I am a good brazier.”

“We need thee not. We have a brazier already, Credne Cerd.”

He said again, “Ask the king.” Said he, “whether he has a single man who possesses all these arts, and if he has I will not enter Tara.”

Then the doorkeeper went into the palace and declared all to the king. “A warrior has come before the enclosure,” said he. “His name is Samildanach (many-gifted), and all the arts which thy household practice he himself possesses, so that he is the man of each and every art.”

The king said then that the chess-boards of Tara should be taken to Samildanach, and he won all the stakes, so that then he made the Cro of Lugh. (But if chess was invented at the epoch of the Trojan war, it had not reached Ireland then, for the battle of Moytura and the destruction of Troy occurred at the same time) then that was related to Nuada. “Let him into the enclosure,” says he;” for never before has man like him entered this fortress.”

Then the doorkeeper let Lugh pass him, and he entered the fortress and sat down in the sage’s seat, for he was a sage in every art.”

Lugh é carpinteiro, ferreiro, harpista, poeta, historiador, mago, curandeiro, cupbearer (oficial de alto status responsável por servir vinho ao rei), brazier (fundição e trabalho em bronze), além de guerreiro; herói e campeão.  Os conhecimentos que ele alega saber são tantos e de tão variadas áreas que mesmo o rei

Nuada fica impressionado e após testar suas capacidades com alguns desafios ele decide passar o trono ao recém-chegado, na esperança que ele pudesse por um fim aos problemas com os Fomorianos.

“Now Nuada, when he beheld the warrior’s many powers, considered whether Samildanach could put away from the bondage which they suffered from the Fomorians. So they held a council concerning the warrior. The decision to which Nuada cam was to change seats with the warrior. So Samildanach went to the king’s seat, and the king rose up before him till thirteen days had ended.”  

Mas a singularidade de Lugh não está apenas em seus conhecimentos. Ao se apresentar ao guardião do portal de Tara ele revela mais uma de suas peculiaridades: ele é meio Fomoriano, filho de Cian, filho de Diancecht, o médico da corte de Nuada, e Ethne, filha de Balor.

“Now as to the Tuatha De, this is what they were doing. After Bres, Nuada was again in sovereignty over the Tuatha De. At that time he held a mighty feast at Tara for them. Now there was a certain warrior on his way to Tara, whose name was Lugh Samildanach. And there were then two doorkeepers at Tara, namely Gamal son of Figal and Camaall son of Riagall. When one of these was on duty he saw a strange company coming towards him. A young warrior fair and shapely, with a king’s trappings, was in the forefront of that band. They told the doorkeeper to announce their arrival at Tara. The doorkeeper asked:” Who is there?”
“Here there is Lugh Lamfada (i.e. Lughh Long-Arm) son of Cian son of Diancecht and of Ethne daughter of Balor. Fosterson, he, of Tailltiu daughter of Magmor king of Spain and of Eochaid the Rough son of Duach.””

Esta divindade é um caso á parte no panteão Celta, pois está em uma posição privilegiada, mesmo entre os deuses. Le Roux e Guyonvarc’h chegam a dizer que Lugh está fora do panteão, pois seria a representação de todos os deuses. Exageros à parte, sua pluralidade de atributos realmente o evidenciam e demonstram uma função importante dentro da mitologia.

“Segundo César, é o mais importante dos deuses gauleses, inventor de todas as artes (inventor ommium artium), protetor dos mercadores e dos viajantes. O seu correspondente irlandês é Lug Samildanach (“Politécnico” e não “Múltiplo artesão” como erradamente foi compreendido, sendo o artesanato unicamente uma pequena parte das técnicas). Com efeito, possui capacidades de todos os outros deuses, como demonstra a narrativa irlandesa do Cath Maige Tuireadh ou “ Batalha de Mag Tured.” Lug está, portanto, para além de qualquer classificação, fora e acima do panteão, o que é suficiente para explicar o plural Lugoves numa inscrição galo-romana de Avenches (suíça) e o dativo plural Lugovibus em duas outras inscrições em Osma, na região espanhola de Tarragona e em Bona. Os Lug(us) são “todos os deuses” expressos num único teónimo. No entanto, Lug é, também e sobretudo, um deus luminoso que, relativamente a muitos aspectos, lembra Apolo.”

Lugh afinal parece ter atributos de todas as classes e o sangue de ambos os lados do conflito. Ele une todos os parâmetros da sociedade e as questões referentes ao mito da batalha entre os Tuatha De Danann e os Fomorianos. Sendo neto de Balor, ele não é apenas a intersecção entre os povos que lutam pelo domínio da Irlanda, ele é descendente do mais poderoso dos Fomorianos e um herdeiro legítimo da terra.

O período em que ele esteve como rei dos Tuatha De Danann é o foco central do festival de Lughnasad e é um fator crucial para se pensar o papel desta divindade na mitologia Celta da Irlanda. A questão da conquista, pelo rei, da soberania é de fundamental importância na sociedade pré-cristã Irlandesa e os atributos de Lugh corroboram para que ele seja o rei ideal nesta fase de transição e o propiciador da conquista efetiva da Irlanda pelos Tuatha De Dannan. Sendo meio Fomoriano e neto de Balor ele tem direito a sucessão no antigo regime e sendo meio Tuatha Dé Danann ele legitima o novo domínio, o que culmina com a sua vitória sobre Balor e a aprendizagem do modo de lidar com a terra que é apreendida em troca da vida de Bres, também meio Fomoriano e rei, após Nuada perder a mão, mas deposto por abusos.

Se Lugh parece estar deslocado no panteão Celta Irlandês isso se deve ao fato dele ser um símbolo da transformação que está para ocorrer, ele tem em si a chave da velha e da nova soberania e habilidades de todas as classes e por isso ele é o propiciador da conquista da Irlanda. A terra é sua por direito e seus ancestrais pertencem aos dois povos. Não podemos deixar de lado, entretanto, o fato dele ser um deus solar e um rei de muitas habilidades e virtudes, que ao fazer o casamento de coroação com a terra garante a prosperidade do solo e o fim da batalha.

Referências Bibliográficas:

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World.  Routledge, London, 1996.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Civilização Celta. Mem Martins: Publicações Europa América, 1999.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. .A Sociedade  Celta na ideologia trifuncional e na tradição religiosa indo-européia. Mem Martins:Publicações Europa América, Portugal, 1995

MELIA, Daniel F. The Grande Troménie at Locronan: A Major Breton Lughnasa Celebration. The Journal of American Folklore. Vol.91 Nº359

MEYER, Kuno (Ed. e Trad.).  The Wooing of Emer in Archaeological Review. volume 1. London, 1888.  http://www.ucc.ie/celt/published/T301021/

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

STROKES, Whitley (Ed. e Trad.).  The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12, Paris, F. Vieweg (1891) page 52-130, 306-308. http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html