Por Marina Storino Holderbaum

Lugh é em essência um representante da classe guerreira, ele é rei e ao mesmo tempo o nobre guerreiro que protege toda a comunidade das tiranias dos Fomorianos e de Balor, restaurando a paz e a abundância da terra. Sua festa não é apenas a simbolização de Lugh como o habilidoso guerreiro sucessor de Nuada, mas da personificação do heroico campeão que liberta o povo e do rei ideal. Lughnasad é o culto á figura de Lugh e tudo que ele representa, é a festa do rei distribuidor, como Le Roux e Guyonvarc’h nos explicam.

“É a festa de Lug no seu aspecto real, a festa do rei distribuidor de riquezas e equilibrador-regulador, festa do Outono e das colheitas. É marcada por jogos, concursos, corridas e assembleias legais e jurídicas. Temos dela um equivalente na reunião gaulesa Concilium Galiarum ou “Assembleia das Gálias”em Lyon, adoptada pela política romana em proveito do culto imperial. Lugnasad transformou-se, no folclore irlandês e por força das circunstâncias (perda de referências políticas e religiosa), numa festa agrária.”

Lugh é o rei ideal, não só em relação ao estereótipo social de honra e habilidades, mas como soberano em sua relação com a terra, já que sua origem cria um elo entre os Tuatha Dé Danann e a terra e garante a aprovação da soberania ao herdeiro legítimo dos Formorianos. A sua coroação, ou casamento com a terra, é um ponto culminante para o desfecho da batalha, pois a partir desse momento ele conquista a soberania, ou seja, a essência do território, e no decorrer do mito ele apenas prova seu valor como guerreiro e rei distribuidor, aspectos fundamentais a um soberano no contexto Celta Irlandês pré-cristão.

 Na cultura Céltica quando um rei era coroado ele fazia um casamento cerimonial com a terra, e sendo aceito por ela sua coroação era confirmada. A narrativa mitológica The Wooing of Emer deixa bem claro este costume quando se refere à coroação de Lugh como sua “wedding feast of kingship” (“festa de casamento de coroação”).

“The Remnants of the Great Feast I said, that is Tailtne; It is there that Lug Scimaig gave the great feast to Lug, son of Ethle, to comfort him after the battle of Moytura, for that was his wedding feast of kingship. For the Tuath Dea made this Lug king after Nuada been killed. As to the place in which their remnants were put, he made a large hill of them. The name was Knoll of the Great Feast, or Remnants of the Great Feast, i.e. Tailtne to-day.”

Sendo rei, Lugh é o mantenedor da fertilidade do solo, responsável por receber e distribuir a riqueza ao povo e promover o equilíbrio da sociedade e da natureza e é exatamente isso que ele faz após a batalha descrita no mito The second Battle of Magh Turedh, ele garante a prosperidade para o povo da Irlanda através da revelação das técnicas de cultivo.

“Thereafter they Lugh and his comrades found Bres son of Elathu unguarded. He said: ‘It is better to give me quarter than to slay me’.

‘What then will follow from that?’ says Lugh. ‘If I be spared’, says Bres, ‘the kine of Erin will always be in milk’. ‘I will set this forth to our wise men’, says Lugh.

Hence Lugh went to Maeltne Mór-brethach, and said to him: ‘Shall Bres have quarter for giving constant milk to the kine of Erin?’

‘He shall not have quarter’, saith Maeltne; ‘he has no power over their age or their (offspring) though he can milk them so long as they are alive’.

Lugh said to Bres: ‘That does not save thee: thou hast no power over their age and their (offspring) though thou canst milk them’.

Said Bres: ‘Forbotha’, etc. […]

‘Is there aught else that will save thee, O Bres?’ says Lugh.

‘There is in sooth. Tell your brehon that for sparing me the men of Ireland shall reap a harvest in every quarter of the year’.

Said Lugh to Moeltne: ‘Shall Bres be spared for giving the men of Ireland a harvest of corn every quarter?’

‘This has suited us’; saith Maeltne: ‘the spring for ploughing and sowing, and the beginning of summer for the end of the strength of corn, and the beginning of autumn for the end of the ripeness of corn and for reaping it. Winter for consuming it.’

‘That does not rescue thee’, saith Lugh to Bres. ‘Forbotha’ etc., […] saith he.

‘Less than that rescues thee’, saith Lugh. ‘What?’ says Bres.

‘How shall the men of Ireland plough? How shall they sow? How shall they reap? After making known these three things thou wilt be spared’. ‘Tell them’ says Bres ‘that their ploughing be on a Tuesday, their casting seed into the field be on a Tuesday, their reaping on a Tuesday.’
So through that stratagem Bres was let go free.”

Se Lughnasad é um festival voltado à imagem de Lugh em todos os seus aspectos ele não é restrito ao culto a personalidade dessa divindade em si. Segundo nos conta o mito, o primeiro Lughnassad não foi realizado apenas como cerimônia de coroação de Lugh como rei, mas também como festividade em honra a morte de sua mãe adotiva Tailltiu, cujo nome foi dado ao local de Tailtiu, inaugurado em sua homenagem e onde ela foi enterrada. Uma passagem do Lebor Gabála Érenn, nos mostra claramente esta relação entre o festival de Lughnasad e a mãe adotiva de Lugh.

“Tailltiu daughter of Mag Mor king of Spain, queen of the Fir Bolg, came after the slaughter was inflicted upon the Fir Bolg in that first battle of Mag Tuired to Coill Cuan: and the wood was cut down by her, so it was a plain under clover-flower before the end of a year. This is that Tailtiu who was wife of Eochu son of Erc king of Ireland till the Tuatha De Danann slew him, ut praediximus: it is he who took her from her father, from Spain; and it is she who slept with Eochu Garb son of Dui Dall of the Tuatha De Danann; and Cian son of Dian Cecht, whose other name was Scal Balb, gave her his son in fosterage, namely Lugh, whose mother was Eithne daughter of Balar. So Tailltiu died in Tailltiu, and her name clave there to and her grave is from the Seat of Tailltiu north-eastward. Her games were performed every year and her song of lamentation, by Lugh. With gessa and feats of arms were they performed, a fortnight before Lugnasad and a fortnight after: under dicitur Lughnasadh, that is, the celebration (?) or the festival of Lugh.
Unde Oengus post multum tempus dicebat, “the nasad of Lug, or the nasad of Beoan [son] of Mellan.”

Segundo Barry Raftery “a mais importante das festividades da Irlanda antiga era sem dúvida a ocorrida em Tailtiu (Óenach Tailten)” durante o Lughnasad, pois era uma assembleia organizada e presidida pelo próprio rei de Tara. D. A. Binchy em The Fair of Tailtiu and the Feast of Tara também nos fala sobre a importância deste evento e sua ligação com o festival de Lughansad.

“In the Fair of Tailtiu (òenach Tailten), on the other hand, we have a genuine historical institution, whose existence is attested in the annals from the eighth century onward and in other historical documents from the sixth. It was convened by the king of Tara and was held annually on or about the festival of Lugnasad, possibly opening on the first Monday of August;I it seems to have lasted a full week, cf. a lld ndide-nach di sechtmain Genaich Tailten in one recension of Baile in ScAil (ZCP xiii. 372, § 4, but contrast ibid. iii. 459, § 4)”  

A “Feira” de Tailtiu reforça a importância de Lugh neste evento, mas nos traz novas informações. Embora não tenhamos dados suficientes para desvendar a simbologia real da festividade funeral em honra à mãe adotiva de Lugh, a importância desta feira, e do sítio arqueológico vinculado a ela, aliado ao mito parece nos indicar que também pudesse haver uma espécie de culto aos ancestrais inserido ou paralelo ao evento. Em seu artigo para a revista Folklore, The Marriages of the Gods at the Sanctuary of Tailltiu, Thomas Johnson Westropp nos mostra que a associação de Lugh com montes funerários não se restringe a Tailltiu.

“Tailltiu “died in Tailltiu, her mourning games used to be performed every year by Lug . . . a fortnight before and a fortnight after.” This is not the only case where Lug is connected with the earthworks of the older race. We have noted his house Cro Loga, near Eochaid’s “Mound of the Hostages” at Tara. Lug had two wives, Nas and Bui, who gave their names to the mounds of Nas (Lis Loga) and Cnocbaei 2 (Cnogba, or Knowth). “The pure Gaedel came to lament the women from Fid m Broga (Brugh of the Boyne, near Knowth), from Tailltiu, where he raised a fire. Thence they came with Lug . . . that was the gathering of the accomplished Lug . . . the lamentation for the fair-skinned women of Fál,” note the last phrase. When the gods’ sacred mounds become their tombs we feel that we are dealing with the later euhemerism of the eleventh century, for, down to A.D. 1000, the gods were freely described as “gods,” and the mounds were their palaces”

Lugh aparece como um deus singular, vinculado a tantos aspectos e aptidões que seu festival chega a parecer disforme, pois é acima de tudo um evento que engloba todas as suas características. Um trecho do capítulo escrito por Anne Ross, Ritual and the Druids, no livro The Celtic World nos mostra o quão variado eram os acontecimentos associados a esta comemoração.

“Lughnasa festival is commemorated in a long poem in the metrical Dindshenches, ‘Stories about Important Places’, which gives the fullest and most detailed account of any of the ancient assemblies in the Celtic world. It illustrates the fact that although matters of law were of great importance at these pan-tribal gatherings, many other events took place, especially competitive games and the horse-racing that still remains an Irish passion. Another word for Óenach is féis, ‘feast’, and feasting and drinking as well as sacrifice and propitiation were important aspects of these assemblies.”     

Lughnasad é um festival complexo, de grande importância social, política, religiosa e, provavelmente, econômica e isso se reflete em sua abrangência e peculiaridades. Lugh como o rei distribuidor e um deus solar, representa a fecundidade e a prosperidade do solo o que é apenas reafirmado pelo seu casamento de coroação com a terra. Lugnasad é essencialmente o culto dos três aspectos de Lugh: o do Lugh mitológico enquanto campeão que defende a comunidade de um perigoso inimigo, o culto ao Rei de Tara como um soberano generoso responsável por dividir a prosperidade com o povo e o culto à divindade Lugh como um aliado no processo de fecundidade. Infelizmente, os cultos de Lugh como rei distribuidor e guerreiro mitológico perderam sua relevância no folclore Irlandês com as mudanças políticas e religiosas decorrentes da cristianização da Irlanda, mas o mito ainda nos deixa boas pistas a respeito destes aspectos.

Referências Bibliográficas:

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World.  Routledge, London, 1996.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Civilização Celta. Mem Martins: Publicações Europa América, 1999.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Sociedade Celta na ideologia trifuncional e na tradição religiosa indo-européia. Mem Martins:Publicações Europa América, Portugal, 1995

MELIA, Daniel F. The Grande Troménie at Locronan: A Major Breton Lughnasa Celebration. The Journal of American Folklore. Vol.91 Nº359

MEYER, Kuno (Ed. e Trad.).  The Wooing of Emer in Archaeological Review. volume 1. London, 1888.  http://www.ucc.ie/celt/published/T301021/

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

STROKES, Whitley (Ed. e Trad.).  The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12, Paris, F. Vieweg (1891) page 52-130, 306-308. http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html

WESTROPP, Thomas Johnson. The Marriages of the Gods at the Sanctuary of Tailltiu in Folklore, Vol. 31, No 2. Taylor & Francis, Ltd. On behalf of Folklore Enterprises, Ltd., 1920.