Por Marina Storino Holderbaum

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Na Irlanda Antiga a classe religiosa possuía uma complexa estrutura de profissões, na qual os filid, ovates e druidas eram os mais proeminentes, tendo sido amplamente descritos por autores clássicos como Poseidonios e Julius Caesar, embora houvesse evidências de outros tipos de ofícios. Estas profissões eram divididas em vários graus de aprendizado; embora, provavelmente, eles pudessem escolher mais de uma profissão para aprender e praticar, como Sean Mac Airt explica em seu artigo para a revista Ériu Filidecht and Coimgne.

“For early Ireland there is plenty of evidence to show that the profession of the older fili touched very closely on those of the other learned classes. Macalister is probably right in supposing that the druid, fili, etc., were merely different aspects of one and the same official. As might be expected from the accepted etymology of the term fili (‘seer’, cf. W. gweled, ‘to see’), this official was seemingly qualified to fill different offices, e.g. those of king, jurist, ‘poet’, etc., though normally he confined himself to one or two. Find Fili, mythical ancestor of some Leinster families, held the dual office of king and ‘poet’.”

Todas as ocupações religiosas parecem ter compartilhado o mesmo nível de status, com graus diferentes de reconhecimento pessoal, entre os quais o titulo de Ollam era o mais valioso. Este título era dado àqueles que tinham técnica ou talento excepcional no desempenho de sua profissão, o que reforça a ideia dos ofícios de filid, ovates e druidas como classes separadas ou, como afirma Macalister, como aspectos de um mesmo oficial, e não diferentes fazes do treinamento druídicojá que encontramos na mitologia Irlandesa relatos de filid que receberam o titulo de Ollam. O artigo “The Chief’s Poet” de Pádraig Breatnach é bastante esclarecedor quanto ao treinamento dos filid e suas qualificações para receber o titulo de Ollam.

“There ollam signifies one who has achieved the highest of the seven stages of poetic training (‘VII gradus poematis’), the other six being, in a descending order, those of ánruth, clí, cano, dos, mac fuirmid, fochloc. In general this division is made to correspond with the course of training to be followed by the fili over a period of seven years. (Some sources make it span up to twelve years, the final five, or four, serving to qualify for the title ollam.)”

Embora o termo fili seja traduzido como referente ao treinamento poético, as funções e conhecimentos deste não eram, de forma alguma, restritas á criação da poesia, sua ligação com a jurisprudência é bem documentada por todo o período Medieval Irlandês, além disso, como afirma Mac Airt, ele era o receptáculo da genealogia e história das famílias, sendo sua memória, inclusive, aceita como “documento histórico” tanto quanto as inscrições de Ogam. Alguns manuscritos também se referem a eles como “profetas” como menciona Francis Byrne em Irish Kings and High Kings.

“We learn from classical authors, notably the Stoic philosopher and traveler Poseidonios of Apamea, that the Gauls had a caste of prophetic poets, bards, and druids – vates, bardoi, and druides; and Julius Caesar’s account of the teaching in druidic schools is well known. The word vates survives in lrish as fáith ‘a prophet’, but the normal word for ‘poet’ is fili (plural filid) – literally ‘seer’, and medieval sources make it clear that divination was included among the poet’s functions. In Welsh bardd means ‘poet’, but in lreland, as in ancient Gaul, the bard was an inferior grade of versifier who specialized in satire and panegyric: he normally accompanied the fili as part of the latter’s retinue.”

É importante dizer que embora haja algumas evidências de que o termo fili já era usado na Antiguidade Irlandesa alguns acadêmicos sugerem que eles sejam uma evolução tardia da classe letrada, que teria acontecido lentamente em decorrência de necessidades sociais e culturais, como afirma Mac Airt. É possível especular que, talvez, tenham existido dois tipos de oficiais distintos reconhecidos pelo termo fili, um na Antiguidade e outro no Medievo Irlandês, que substituiu gradativamente as funções do primeiro no decorrer do tempo e das necessidades históricas da Irlanda Céltica, embora seja impossível determinar ao certo as precisas características do fili na Antiguidade.

Se fili era a designação para o “poeta” e também ‘profeta’ na Irlanda Céltica, como cita Byrne, então, podemos supor que o conceito de ‘Poesia’ para eles era uma forma artística de expressar outros papéis sociais que não se limitavam a esta arte, mas reproduzidos por ela, já que, provavelmente, as profecias seriam feitas em forma de rimas. ‘Percepção’ talvez seja um bom adjetivo para representar o caráter social do fili, pois ele era o guardião da História e estórias de seu povo assim como o responsável por construir as narrativas de seu próprio tempo. Como um ‘profeta’ ele era capaz de ver através do tempo, e como responsável pela preservação das leis, como Byrne nos conta, ele tinha a função de manter as tradições. Portanto, podemos concluir que para os Celtas Irlandeses, o fili tinha a ‘percepção’ para transcender a História, o Tempo e a Consciência Social, utilizando a ‘Poesia’ para externar esta revelação.

Tradition claims that the laws were originally the preserve of the filid, and the earliest fragments, dating from the seventh and perhaps even the six century, are in archaic verse…
In some ways it could be argued that the filid wielded more power than did the kings. They moulded public opinion, which is the ultimate arbiter of acceptable forms of polity and policy.”

No Ciclo de Ulster existe um encontro, relatado no “The Colloquy of the Two Sages”, entre dois grandes filid, Néde e Ferchertne, que discutem o direito de receber o titulo de Ollam, titulo de Mestre em poesia. Uma das respostas de Néde nos dá uma boa ideia do sentido da ‘poesia’ no contexto da classe sacerdotal Celta.

“129. Not hard (to say): I am son of Poetry,
130. Poetry son of Scrutiny,
131. Scrutiny son of Meditation,
132. Meditation son of Lore,
133. Lore son of Enquiry,
134. Enquiry son of Investigation,
135. Investigation son of Great-Knowledge,
136. Great-Knowledge son of Great-Sense,
137. Great-Sense son of Understanding,
138. Understanding son of Wisdom,
139. Wisdom, son of the three gods of Poetry.”

Lembrando que, para os Celtas Irlandeses, um fili era a memoria viva de sua cultura e sociedade, ele detinha o conhecimento histórico, genealógico, mitológico e cultural de seu povo, além de ser considerado como o receptáculo de uma “percepção” capaz de ultrapassar o visível e apta a distinguir o certo do errado, sendo ele assim o preservador da lei e da ordem do mundo.

Referências Bibliográficas:   

BYRNE, Francis J. Irish Kingship and High-Kingship. Four Courts History Classics, Four Courts Press, 2001.

BREATNACH, Pádraig A. The Chief’s Poet in Proceedings of the Royal Irish Academy, Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, vol. 83C. Royal Irish Academy, 1983.

MAC AIRT, Sean. Filidecht and Coimgne in Ériu, Vol 18, pp. 139-152. Royal Irish Academy, 1958.

STROKES, Whitley (Ed. e Trad.).The Colloquy of the Two Sages. Paris: Librairie Emile Bouillon, 1905 http://www.maryjones.us/ctexts/colloquy.html.