Por Alessio Ferretti Jr.

Em todas as culturas existem histórias para explicar a origem do universo e/ou humanidade. A busca em tentar compreender de onde viemos e para onde vamos, povoa boa parte dos pensamentos humanos, e, em todos os tempos e áreas de saber, compartilhamos de uma necessidade profunda em compreender porque existimos e como nos encaixamos nesse mundo, nessa realidade e como ela se molda.

Na era moderna, muitas explicações científicas e teorias foram desenvolvidas para tentar comprovar o princípio das coisas. A mais famosa de todas é a teoria do Big Bang, criada pelo padre e cosmólogo belga Georges Lemaître (1894-1966), e desde então, muitos cientistas formulam novas hipósteses na tentativa de obter uma resposta.

Para todos os povos, existem histórias sagradas responsáveis por fornecer aos indivíduos a explicação sobre o princípio do mundo conhecido. Essas histórias, geralmente, são ricas em detalhes e acontecimentos que refletem no comportamento cotidiano, moldando a cultura. Elas são responsáveis por moldar a forma de vida e manter o equilíbrio do mundo, explicar como ele surgiu e como formou a paisagem atual, caso o mesmo não tenha sofrido a ação do homem, sendo a principal reguladora da moralidade social, caracterizando dessa forma uma Cultura. A esse conjunto de histórias denomina-se Mito.

“Mito, no sentido técnico, é um sério objeto de estudo, pois o mito verdadeiro é, por definição, mortalmente sério para o seu ambiente original. No mito são expressos os padrões de pensamento pelos quais um grupo formula sua auto cognição e auto realização, obtém autoconhecimento e autoconfiança, explica sua fonte e ser e o seu entorno, e, às vezes, tenta projetar seus destinos. Pelo mito o homem tem vivido, morrido, e – muitas vezes – matado. O Mito opera trazendo um sagrado (e ainda assim essencialmente e paradoxalmente “atemporal”) passado para sustentar o presente e gerar o futuro (“assim como era no início, é agora, e sempre deve ser”)”.[1]

É interessante observar que na maioria das Culturas conhecidas, existem mitos Cosmogônicos para explicar a criação dos Cosmos e com o objetivo de situar o homem como um ser natural, ou especial dependendo da Cultura e encaixá-lo no meio que habita. Em algumas culturas, essas narrativas tendem a descrever como o homem surge através de uma força divina, tornando-se dessa maneira divino, devido a sua origem. O ser humano em geral sempre busca de alguma maneira, um motivo para deixar subentendido a sua descendência divina, declarando sua supremacia sobre as outras criaturas existentes ou até sobre um gênero.

Infelizmente, os contos Cosmogônicos da Cultura Celta, não sobreviveram com a cristianização da Irlanda, por volta do séc. V da era atual. Embora tenham sido transcritos, muitos mitos foram alterados para caber nos moldes cristãos, o que é perceptível quando se trata das questões de criação do mundo, no quais os elementos do mito cristão foram sumariamente inseridos.

Os manuscritos encontrados nos mosteiros Irlandeses, aos quais possuímos acesso, além terem sofrido uma forte alteração sobre as narrativas para tentar encaixar o povo irlandês ao mundo cristão, deixam algumas lacunas, proporcionando pouca informação sobre um suposto mito original.

Estudando os manuscritos, temos indícios de como os celtas interagiam com o mundo existente, e é interessante observar que não há uma criação do mundo e do homem, não existe o conceito de dualidade e pecado. Pelo contrário, eles enaltecem as habilidades que cada indivíduo da tribo possui e a importância que eles têm para a manutenção e prosperidade de todos.

“De onde vieste?’ ‘Da colina, do apinhado campo ali, na costa da montanha, onde estão as Tuatha De e Nuada, seu rei, que vieram do norte do mundo, em uma nuvem de bruma e uma chuva mágica para a Irlanda e a terra do oeste.[2]

Na Primeira Batalha do manuscrito de Cath Maige Tuired, existe a descrição de como os Tuatha De Dannan, através de um conselho de seu Sábio, deixaram a Irlanda devido aos altos tributos que devem pagar aos Formorianos. Esse êxodo proporcionou a eles o aprendizado em muitas artes, tornando-os famosos devido à destreza e a perfeição no uso dos ofícios aprendido pelos seus heróis e Deuses. Apesar de Bres mencionar que os Tuatha De tenham vindo de uma ilha do norte do mundo, esse não existe fora da realidade humana, durante toda a narrativa o mundo é uno, não havendo uma distinção de uma realidade pré-concebida e após algum evento o homem veio a existir em uma realidade mundana. Fica claro que o convívio dos Deuses, Heróis e humanos aconteciam e coexistiam em uma única realidade. Havendo o respeito por Eles sendo um privilégio ter sua amizade, diferente de outras culturas que o mantinham distanciados numa montanha, céu ou outra realidade, no qual, a maioria da população temia a aparição de seus Deuses.

“Quanto às Tuatha De Danann, eles prosperaram até que sua fama se espalhou sobre as terras do mundo. Eles tinham um deus da magia seu, Eochaid Ollathir, chamado o Grande Dagda, pois ele era um excelente deus. Eles tinham bravos e duros chefes, e homens proficientes em cada arte; e eles decidiram ir para a Irlanda. Então partiram daqueles audaciosos chefes, representando a perícia militar do mundo, e a habilidade e aprendizado da Europa.”[3]

A descrição nos manuscritos relata como adquiriram os conhecimentos e habilidades nas artes mágicas, militares e manuais. Trazendo para a Irlanda os tesouros sagrados que iriam servir de pilar para a conduta moral e social. Em toda narrativa percebe-se que os comportamentos dos indivíduos são importantes, mantendo valores do caráter como honra, hospitalidade e responsabilidade. Se caso um desses valores vier a ser quebrado, o indivíduo terá que resgatá-las de alguma forma, comumente através da batalha, deixando claro uma estrutura social militar.

Com a chegada da Tuatha, os Fir Bogs mandaram Sreng o seu melhor guerreiro, com suas melhores armas para espiar e interrogá-los e o mesmo fizeram os Tuatha ao perceber a aproximação de um guerreiro, enviando Bres, o seu melhor guerreiro com suas melhores armas.

“Então Sreng se levantou e pegou seu forte escudo curvo marrom-avermelhado, seus dois dardos de hastes ríspidas, sua espada causadora de mortes, seu belo elmo de quatro lados, e sua pesada clava de ferro, e tomou seu caminho para a Colina da Chuva. As Tuatha De viram um enorme homem terrível se aproximando deles. ‘Ali vem um homem totalmente sozinho,’ disseram eles. ‘É por informação que ele vem. Vamos mandar alguém para falar com ele.’ Então Bres, filho de Elatha, saiu do acampamento para inspeciona-lo. Ele carregava consigo seu escudo e sua espada, e suas duas grandes lanças. Os dois homens se aproximaram um do outro até que estavam à distância de fala. Cada um olhou atentamente para o outro, sem dizer uma palavra. Cada um estava impressionado com as armas e a aparência do outro; Sreng se impressionou com as grandes lanças que ele via, e apoiou seu escudo no chão à sua frente para que protegesse seu rosto. Bres, também, manteve o silêncio, e segurou seu escudo à sua frente.”[4]

Nesse encontro os dois guerreiros ficam apenas se analisando e percebendo a diferença de poder no escudo e armamentos. E é interessante observar que apesar de serem sociedades tribais militares, eles lamentam que tais objetos sejam capazes de destruir vidas, fica claro nesse momento que há uma valorização da vida e fazem um acordo de amizade e paz temporária. Importante notar que eles estimavam a vida buscando um acordo para que ambas as partes não tenham perdas, provavelmente se entrarem em guerra, isso poderia ser interpretado como um caos social, no qual, indivíduos perdessem familiares e a tribo perderia recursos humanos para a sua manutenção e sobrevivência.

“O que você pensa dessas armas?’ ele disse. ‘Eu vejo,’ disse Bres, ‘enormes armas, de pontas amplas, firmes e pesadas, poderosas e afiadas.’ ‘Triste para ele que elas devam destruir, triste para ele que elas devam voar, contra quem elas devem ser lançadas;  elas serão instrumentos de opressão. Morte há em seus poderosos golpes, destruição apenas um movimento deles; feridas são seus duros movimentos; esmagamento é o horror delas.”[5]

Após o acordo de amizade, Bres faz a exigência que lhe foi determinado de fazer ao mensageiro dos Fir Bolgs, mas antes de seguirem caminho, ambos os guerreiros fazem troca de seu armamento para que cada um saiba do poderio militar do outro. Interessante observar que ambos levam duas lanças, dardos e escudos, e há uma troca de armas entre eles, para que cada lado saiba da qualidade de seus armamentos bélicos e poderem se igualar para a batalha, enobrecendo a honra em vencer guerreiros num patamar de igualdade. Não havendo o interesse em descobrir suas fraquezas para sobrepor o inimigo, isso geraria desonra para ambos os lados, acarretando algum tipo de punição.

“…disse Bres, ‘e aqui há uma das duas lanças que eu trouxe comigo. Pegue-a como um exemplo das armas das Tuatha Dé.’ Sreng deu um de seus dardos para Bres, como um exemplo das armas dos Fir Boig.”[6]

O indivíduo na sociedade celta era reconhecido por sua honra que poderia ser adquirida por meio de seus estudos se fosse um Druida ou através do aprimoramento de suas habilidades dentro das funções que ele exercia dentro da tribo. Havendo uma mobilidade social, no qual, o indivíduo tem sua ascensão social através do mérito, por exemplo, um camponês poderia se tornar um nobre se adquirisse honra em uma batalha e/ou poderia ter seu declínio, perdendo seu título ao cometer um devido de conduta social e/ou se a tribo perceber que o mesmo não tem mais aptidões e capacidade para exercer a função. O indivíduo era destituído de sua função e outro era eleito para ocupar seu posto, percebemos que não há privilégio divino, troca de favores ou riqueza que mantivesse o título de nobre. Um exemplo bem notório é quando o Alto-Rei Nuada perde sua mão durante a batalha contra Sreng e assim outro rei é eleito pelos Tuatha De.

“Sreng deu um golpe com sua espada em Nuada, e cortando a borda do escudo, ferindo o seu braço direito no ombro; e o braço do rei com um terço do seu escudo caiu no chão…

As Tuatha Dé fizeram de Bres seu rei, e ele foi Alto-Rei por sete anos…”

Como vimos, não existe um mito celta descrevendo de forma fabulosa a criação do mundo, mas, contos que relatam como eles aportam em um mundo já existente, não fazendo diferenciação do mundo divino e mundano, ambos coexistem na realidade humana. Se tomarmos por base, que o mito de criação retrata um mundo ideal que fala sobre o modo de vida de uma sociedade e a forma como ela se vê no mundo, parece certo afirmar que o manuscrito de Cath Maige Tuired, nos proporciona todos os elementos necessários para recriar o mundo celta antigo, desde que saibamos separar os elementos cristãos inseridos nas descrições.

Referências Bibliográficas:

A Primeira Batalha de Magh Tuired (Tradução para o português Wallace William de Souza)

PUHVEL, Jaan. Comparative Mythology. The John Hopkins University Press, Baltimore, 1989.

 


[1] Jaan Puhvel em Comparative Mythology (1987)

[2]A Primeira Batalha de Magh Tuired.

[3]A Primeira Batalha de Magh Tuired.

[4]A Primeira Batalha de Magh Tuired.

[5] A Primeira Batalha de Magh Tuired.

[6] A Primeira Batalha de Magh Tuired.