Por Marina Storino Holderbaum

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Antes de qualquer coisa, se faz necessário explicar o conceito de classes na sociedade Celta, pois a divisão social Celta não parece se encaixar no conceito tradicional de classe, impregnado das teorias Marxistas, nem no de castas, que carrega uma rigidez intransponível. A divisão de classes Celta acontece no âmbito das funções, que são bem definidas na estrutura social, mas permitem que indivíduos transcendam as funções definidas por nascença através do acumulo de valor de honra. De forma alguma o modelo de classes Celta se encaixa na definição Marxista do termo, já que a distinção entre as classes é puramente funcional, não havendo confronto de interesses entre elas. Le Roux e Guyonvarc`h nos apresentam uma boa explicação de como se dava a divisão de classes.

“Esta flexibilidade de concepção, oposta à rigidez das castas indianas, explica o motivo pelo qual, nos relatos épicos, um filho de druida pode ser guerreiro e, inversamente, um filho de guerreiro pode tornar-se druida. Mas não é essa a regra: em geral, a fidelidade à tradição faz com que um druida seja filho de outro druida e um bom rei filho de outro rei. No entanto, a tradição não é restritiva. Devemos lembrar que esta ausência de restrição, juntamente com o respeito pelo trabalho manual, nos revela as extraordinárias capacidades técnicas dos Celtas – pelo menos os que viveram os períodos de Hallstatt e La Tène – no âmbito do trabalho do metal e da madeira. A julgar pelos inúmeros objetos provenientes das escavações arqueológicas, o artesão podia também ser um artista, certamente honrado e respeitado.”

Para os Celtas o Rei era o elo entre a fertilidade do solo e o povo, o Druida era o representante da fertilidade dos deuses em si através da inspiração e do conhecimento espiritual e religioso, e a classe produtiva era a representante da fertilidade no aspecto material, pois eram responsáveis pela manutenção prática do ciclo produtivo, preparação do solo e das sementes, plantio e colheita, criação e trato do gado, ordenha e detentores das “habilidades artesãs”.

É importante esclarecermos o quanto essas “habilidades artesãs” eram relevantes na sociedade Celta. Embora a sociedade Celta não tivesse suas classes divididas de forma tão rígida quanto às castas Hindus, ela era bem definida e os casos de trocas entre elas eram eventos raros, embora, segundo Anne Ross, os Sacerdotes fossem escolhidos entre membros da aristocracia guerreira. Um dos únicos meios de indivíduos da classe produtora ascenderem à classe aristocrática era através de uma técnica excepcional em uma das “habilidades artesãs”, claro que a notória perícia bélica e o heroísmo extremo em combate também eram fatores capazes de influenciar no valor de honra do indivíduo nascido na classe produtora, mas é preciso lembrar em que qualquer destas circunstâncias, a ascensão social era um caso raro e só ocorria quando, de fato, o reconhecimento destas habilidades e a fama de seu autor fossem excepcionais.

É necessário entender que para os Celtas a noção de profano não existia e eles não diferenciavam o sagrado do “mundano”, para eles o outro mundo estava muito próximo do mundo humano e frequentemente um interferia no outro. Portanto, as atividades sociais e artísticas estavam também relacionadas à ideia de fertilidade através da noção de criatividade e inspiração espiritual. O Auraicept na N-Éces nos conta o mito de como Ogma inventou o Ogham usando sua habilidade poética e manual.

Ogham from Ogma was first invented in respect to its sound according to matter, however, ogum is og-uaim, perfect alliteration, which the poets applied to poetry by means of it, for by letters Gaelic is measured by the poets; the father of Ogham is Ogma, the mother of Ogham is the hand or knife of Ogma.”

Outro dado relevante a respeito dos Celtas, que reforça a ideia de uma valorização da “habilidade artesã” singularmente “inspirada” ou perita é a existência do título de Ollam dado àqueles que se sobressaiam em determinada profissão, sendo este um título ofercecido como reconhecimento a pericia daquele dotado de maior destreza e criatividade em sua técnica. Os Celtas Irlandeses consideravam aqueles que detinham um conhecimento ou talento especial em grande honra e os chamavam Áes Dána, ou pessoas das artes. Sendo a sociedade Celta Irlandesa baseada na noção de valor de honra, o título de Ollam não pode ser considerado apenas como um título individual, pois ele tinha um grande valor social e através dele um artesão era capaz de transcender sua própria classe pela obtenção de reputação. Em A civilização Celta Françoise Le Roux e Christian-Joseph Guyonvarc`h demonstram a importância deste título para os Celtas Irlandeses.

“Mas se a Irlanda confere a cada um o seu lugar preciso, de acordo com a categoria ou o mérito, ignora – como também a Gália devia ignorar – a definição romana das artes liberales, opostas às artes serviles. Era honroso e honrado todo aquele que detivesse um saber ou uma técnica, intelectual ou manual. Fazia parte das áes dána ou “gente de arte” e, por vezes, acontecia o ferreiro ter direito, em virtude de sua competência profissional, ao título de “doutor” (ollam) ou mesmo de “druida” (druígoba), sendo aqui o nome druida um simples prefixo superlativo.”

Na Irlanda Céltica as habilidades manuais e intelectuais constituíam uma parte importante da estrutura social, pois eram um elemento capaz de promover a obtenção de honra e, consequentemente, a possibilidade de uma transcendência de posição social. Todas as três classes tinham suas próprias funções no sistema social, mas por destreza ou mérito um indivíduo podia ascender socialmente, embora isso fosse uma exceção e não uma regra.

Referências Bibliográficas:

CALDER, George (Ed. e Trad.). Auraicept na N-Éces (The Scholar’s Primer). Edinburgh, John Grant 1917.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Civilização Celta. Mem Martins: Publicações Europa América, 1999.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Sociedade Celta na ideologia trifuncional e na tradição religiosa indo-europeia. Mem Martins: Publicações Europa América, Portugal, 1995.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.