Por Marina Storino Holderbaum

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O fili, ou poeta, tem um papel essencial na manutenção do poder no Mundo Celta Irlandês. Não só é dele a função de acrescentar valor e fama ao seu Rei patrono, como também é dele o poder da sátira, que denigre a imagem do satirizado e desvaloriza sua honra. Na sociedade Celta Medieval, na qual o valor de honra ainda é o regulador do poder e do status social, o oficio do fili é regulamentado pelos tratados jurídicos para que não haja abusos no exercício destas ferramentas culturalmente tão poderosas, como comenta Liam Breatnach em Satire, Praise and the Early Irish Poet.

“In a society where honour was so valued, the weapon of der ‘satire’ was especially to be feared. Moreover, it is to be expected that the law would be concerned with controlling the use of this weapon and with laying down the proper procedure for its lawful use, whether on behalf of the poet himself or on behalf of others. Although it is clear that a certain amount of relevant material has been lost, the surviving law texts still provide a remarkably detailed source of information on the uses of satire in early mediaeval Ireland.”

O poema enaltecedor, ou de elogio, é o poema próprio do fili, é apenas neste tipo que se baseia seu ofício e só por este que ele pode receber. Esta forma de poema era o cerne do contrato de patronagem e se o fili não produzisse conforme a demanda do seu patrono ele poderia cair em sua estima e ser substituído, mas sobretudo, Liam Breatnach  nos conta que,se ele não produzisse o necessário para cumprir com seu ofício, ele poderia perder seu status perante a sociedade.

Se o fili tinha como obrigação enaltecer seu patrono produzindo poemas em sua homenagem e espalhando suas virtudes e conquistas, sua função e seu poder certamente não se restringiam apenas à diplomacia e poemas enaltecedores.  É a sua ligação com a jurisprudência que revela seu maior trunfo, pois caberiam ao fili mais duas formas de poema, a sátira e o trefocal, que atuariam como procedimentos legais, como comenta Liam Breatnach, demostrando a real abrangência do poder deste oficial.

“Although our sources frequently pair satire and praise, they do not always present a binary opposition, and a third category, which combines both of the former two, is also recognised. A composition combining elements of praise and satire served a particular purpose-namely that of warning a person of an impending full satire, was known as a trefocal and formed an essential part of the process of lawful satirising”

O trefocal era um meio termo entre sátira e poema enaltecedor e tinha o papel de advertir o citado de que seus atos o conduziam a uma sanção legal, a sátira.  A sátira já era uma forma de condenação legal, que trazia vergonha e perda de valor de honra ao difamado. O poder do fili aparece finalmente, quando o descobrimos enquanto agente legal, encarregado de advertências e condenações no cumprimento de suas obrigações de poeta. Ele não só é capaz de acrescentar valor de honra através do poema enaltecedor, como pode tirá-la através da sátira, o que em uma sociedade baseada em honra muitas vezes significava a pena de morte, como nos mostra Francis Byrne.

“Conversely, this was the terrible sanction which gave venom to the áer or poetic satire. Satire could raise blisters on the face, and comparative anthropology gives us no reason to doubt that in pre-Christian times the effect could be literally deadly. A person who was justifiably satirized forfeited his honour-price and therewith his franchise and kings were not exempt.”

Liam Breatnach, entretanto, afirma que a sátira não era uma condenação definitiva, podendo ser neutralizada com um poema enaltecedor, embora não cite os casos em que isso fosse possível, certamente não seria o caso de sátiras produzidas enquanto sanções legais.

“The positive nature of praise is underlined by the fact that it can serve as an antidote to satire. The sole surviving copy of Bretha Nemed Dédenach, which is acephalous and breaks off incomplete, now begins with a palinode to the river Modarn intended to undo the effects of a previous satire, and this is described as molad do-nig-air ‘praise which washes away satire’.”

Os tratados legais definiam como deveria ser a conduta do fili, sendo que este não poderia usar a sátira como forma de extorsão ou ser excessivo em elogios, seu comportamento era regulamentado por lei, devido ao grande poder que tinha em suas mãos e descumprir de alguma forma com sua função poderia custar sua posição perante a sociedade.

Referências Bibliográficas:        

BYRNE, Francis J. Irish Kingship and High-Kingship. Four Courts History Classics, Four Courts Press, 2001.

BREATNACH, Liam. Satire, Praise and the Early Irish Poet in Ériu, vol 56. Royal Irish Academy, 2006.

BREATNACH, Pádraig A. The Chief’s Poet in Proceedings of the Royal Irish Academy, Section C: Archaeology, Celtic Studies, History, Linguistics, Literature, vol. 83C. Royal Irish Academy, 1983.