Por Marina Storino Holderbaum

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Fertilidade é uma importante questão para qualquer cultura já que esta conectada a preocupações cruciais relativas à sobrevivência e prosperidade. Este assunto tem vários significados, que estão relacionados à manutenção tanto da vida humana quanto da estrutura social, pois engloba relações sociais, sexualidade, concepção, produção de alimentos, Ciência, arte e todos os tipos de atividades criadoras. A sociedade Celta Irlandesa não era diferente e, como todas as outras, refletiam suas preocupações na religião e na cultura, como podemos ver neste trecho do livro Pagan Celtic Ireland de Barry Raftery’s.

Food production, inevitably, was the principal preoccupation of the mass of the people and, as in all pre-industrial societies, took up much of their waking day. The main Celtic festivals were related to critical phases of the annual agricultural cycle. Lughnasa, the greatest feast, was a celebration of the successful harvest

A produção de alimento como um fator decisivo de subsistência é um tema corrente nos textos mitológicos Irlandeses, mas a reprodução humana era também uma matéria vital para a existência social que tinha sua influencia misturada a cultos agrários na forma de casamentos entre os deuses, símbolos fálicos e deusas genitoras. A coroação dos Reis Celtas Irlandeses em Tara é um bom exemplo de como a fertilidade era um aspecto importante para a cultura Celta, pois este ritual representava o casamento simbólico entre o Rei e a “terra” (significado referente ao termo inglês land, ligado à noção de território), a qual é personificada por diferentes deusas na literatura vernacular Irlandesa. No seu artigo Lia Fáil: Fact and Fiction in the Tradition Tomás Ó Broin nos revela como o mito de Nuadu demonstra a divindade da Lia Fáil.

“’Nuadu Finn Fáil… used often visit the Lia Fáil, playing with it and courting; for the prophets had foretold to him that he would be king of Ireland, wherefore he was called Fair Nuadu of Fál thereafter.’ This short narrative is very illuminating. Nuadu is an ancestor deity, probably the same as Nuadu, king of the Tuatha Dé Danann, appearing also as the god of the source of Boand, and spouse of the river goddess Boand. At least the Lia Fáil is female. Moreover, since Nuadu belongs to the deity class, and his consorts, like Boand, are Goddess this should make the Lia Fáil a Goddess also. We must be witnessing the actual foundation of kingly inauguration at Tara, something begun when Nuadu courted the Lia Fáil. If so the Lia Fáil is the Tara king’s otherworld spouse.”

Para os Celtas Irlandeses as divindades femininas eram personificações da “terra” e da soberania, o casamento entre o Rei e a “divindade da terra”, que aqui é representada pela Lia Fáil, era fundamental para a aprovação do reinado. É através da coroação que o Rei é aceito ou não pela “divindade da terra”, sendo aceito por ela ele garante, a princípio, a fertilidade da “terra” e a prosperidade do seu reinado, embora suas ações enquanto Rei sejam cruciais para que esta prosperidade seja mantida, assim como a aprovação da divindade. Tomás Ó Broin nos dá uma boa ilustração de como a Lia Fáil responderia ao Rei neste ritual.

“The Goddess, in other forms, joins with the Lia Fáil in showing concern or grief: she may take the guise of some fairy woman, or some element in nature: the life-giving water is her favorite medium. In Agallamh na Senórach when the king of Ireland is on the Lia Fáil it cries out, and is ‘answered’ by the principal waves of Ireland, Tonn Chlíodna, Tonn Tuaithe and Tonn Rudhraighe” 

As fontes de água como elementos escolhidos para servirem de símbolos de divindades não são escolhas estranhas aos celtas, na verdade esta é uma escolha simbólica muito comum a estes povos e seu significado é altamente explícito, já que a água é essencial á toda atividade produtiva. Anne Ross em Pagan Celtic Britain explica a importância das fontes de água como locais de culto á fertilidade.

“Springs, wells and rivers are of first and enduring importance as a focal point of Celtic cult practice and ritual. Rivers are important in themselves, being associated in Celtic tradition with fertility and with deities such as the divine mothers and the sacred bulls, concerned with this fundamental aspect of life.”

As fontes de água como nascentes, poços e rios eram de fundamental importância para os aspectos gerais da vida humana, agricultura e a criação de gado, o que influenciava a produtividade do solo assim como a fertilidade dos animais e humanos. Estas questões tinham lugares de destaque na cosmologia e cultos, pois eram assunto de grande preocupação para a sociedade, o que se torna claramente evidente quando estudamos alguns contos mitológicos , nos quais a origem de certos rios são descritos como sendo resultantes das ações ou corpos de alguma divindade, como Anne Ross menciona.

“Not only do rivers have goddess-names, but Irish cult legends occur which purport to account for the naming of such rivers. For example, two rivers, the Boyne and the Shannon, allegedly owe their origin to the actions of the goddess (Boand and Sinann) who defied the magic powers of a certain well ( the Well of Segais, the Well of Coelrind) as a result of which the well rose up in anger, mutilating and drowning the goddess and, turning into a mighty river, rushed seawards. This motif is also found in comparatively modern folklore and is one which clearly has a considerable ancestry with its possible origins in genuine cult legend. Again, the connection between the fertility aspects of the goddesses and rivers is suggested by the description of the ritual mating of the Irish raven-goddess, the Mórrigan , with the father-god, the Dagda, across a river, the goddess having a foot on either bank.”

O Rei era o responsável pela manutenção da fertilidade do solo e riqueza da sociedade através da sua ligação com a “terra” e o outro mundo, o que era estabelecido no momento de sua coroação. A característica de fertilidade do Rei é a sua capacidade de promover a prosperidade da terra e da sociedade, ele é responsável por criar o elo entre a “divindade da terra” e o povo. Sua função enquanto soberano era o de redistribuidor de riquezas, já que era dele atarefa de receber os tributos da população e redistribuí-los. Em tempos de escassez, ele também era responsável por garantir a sobrevivência do grupo social, o que frequentemente se dava através da promoção das razia de gado que são tão amplamente descritas na mitologia Celta Irlandesa. Tomás Ó Broin descreve o ritual de Tara no qual o Rei ou, como neste raro caso, o fili, estando em pé sobre a Lia Fáil, pede aprovação e inspiração do outro mundo.

“Stepping on the stone has all the appearance of a rite; certainly it is no casual or brief encounter. We get confirmation of this from a quatrain attributed to the poet Cinaed (Ua hArtacáin). The situation of Cinaed is a little different from the usual for he, the poet, and not a king, is the suppliant, but we collect some more information about the nature of the Lia Fáil – a brief but useful account. In the first couplet Cinaed says:

In cloch for stait mo dí sáil

Húaighi ráiter Inis Fáil…

Here putting feet on stone takes on a clear appearance of ritual, for the position seems necessary for an announcement. Moreover, Cinaed remains standing on the Lia Fáil while he delivers his quatrain . I conclude that the poet gets help and approval from some supernatural being through the stone; he derives authority from it. From this it would appear that the king also is in communion with some otherworld spirit when he stands on the Lia Fáil; he too gets authority confered in him. It is a bit of surprise to find a poet on the Lia Fáil, but not incredible, if we admit that primitive poetry is oracular.”

Referências Bibliográficas:

Ó BROIN, Tomás. Lia Fáil: Fact and Fiction in the Tradition in Celtica, vol. 21. Dublin Institute for Advanced Studies, 1990

RAFTERY, Barry. Pagan Celtic Ireland: The Enigma of the Irish Iron Age. Thames and Hudson Ltd, London 1998.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967