Por Marina Storino Holderbaum

A divindade Bríg é uma padroeira das mulheres e seus direitos e funções na sociedade e nas leis Celtas e a Santa Brigid parece compartilhar muitos de seus atributos, o que se reflete em sua festa. Muitos tipos de rituais e encantamentos eram feitos na Festa de Brigid, e a aproximação dela com a divindade na patronagem das artes assim como das mulheres fica clara nos eventos que se seguem no dia dedicado a sua imagem. Em The Celtic World, Anne Ross deixa clara a aproximação e aceitação de ritos voltados ao culto da divindade Bríg nos festejos cristãos do culto à Santa.

“This ancient name for the second festival of the pagan Celtic year has been discussed by Eric Hamp (1979). The word seems to mean ‘purification’, and the festival took place on the eve of I February and on the day itself, at a time when the sheep and other animais were beginning to lactate. Imbolc was sacred to the threefold Irish goddess Brigid, who was adored by poets, smiths and medical practitioners and who is clearly the goddess whom Caesar equated with Minerva. There are other claimants to this role in the Celtic mythology, but hers must be the place of honour. She was mother-goddess par excellence, a seasonal deity, and she presided over the important purification feast of Imbolc. As a Christian saint, many elements of her cult legend were taken over into Christianity, and her cultus is found widely over Europe. ln Wales she is venerated as Sant Ffraid. Her festival was clearly acceptable to the church as, apart from anything else, it coincided with the Christian feast of the purification of the Virgin.”

Em The Festival of Brigit the Holly Woman, Séamas Ó Catháin descreve vários destes costumes que ainda hoje são tradicionalmente observados pelo povo Irlandês, entre eles estão três grandes procedimentos cerimoniais. O primeiro deles é a Brat Bríde que consiste em um pedaço de pano não lavado da residência deixado em um arbusto do lado de fora da casa na véspera do Oimelc até a manhã do dia seguinte, quando era trazido para o interior e rasgado em algumas partes para ser dando a todas as mulheres da casa, pois Brigid havia abençoando-o com seu toque durante a noite. A Brat Bríde é uma prática feminina que engloba todos os elementos de Bríg e sua festa em seu processo já que é usado para trazer proteção às mulheres, para confortar as grávidas durante o parto, para evitar a esterilidade e ajudar vacas na gestação trazendo boa sorte e abundancia de leite através da colocação deste sobre suas costas.

A segunda fase da festa é a procissão da Brideog, que envolve toda a comunidade nas boas vindas à Brigid. Neste costume, meninos vestidos de meninas, e meninas vestidas de meninos, carregam a Brideog, um boneco que consiste em um nabo descascado e um pedaço de madeira enrolado como um bebê, de casa em casa entretendo os moradores com algum tipo de desempenho artístico, como cantos, recitações de poemas ou performances de flauta ou violino. Manteiga ou pão eram oferecidos à Brideog que, em tempos antigos, eram coletados para fazer celebrações nas casas de alguns vizinhos. Eles eram sempre bem-vindos em todas as casas, uma vez que traria má sorte ser inospitaleiro com a Brideog.

Esta parte do costume é encerrada com uma refeição em que o prato principal era feito de batatas e muita manteiga. A Brideog é uma prática social que mobiliza toda a comunidade e está intimamente ligada à questão da mulher perante a sociedade, assim como à fertilidade, pois envolve a mudança de posições entre homens e mulheres, propiciando uma reflexão sobre as funções de gênero na sociedade, o transporte da boneca como um símbolo de Brigid e de fertilidade para as dentro das casas, as apresentações artísticas como um elemento ligado a esta Santa tornam ainda mais evidente a sua ligação com a divindade, e a oferta de manteiga e pão e a refeição final como um símbolo de prosperidade e fartura encerram esta parte da comemoração. Em The festival of Brigit the holly woman, Séamas Ó Catháin nos dá um bom relato sobre esta prática.

“The Brídeog procession from house to house was and still is held in the eve of the feast. Both boys and girls took part and there are sometimes two or three (or more) groups, each group out for itself in an area of a square mile according as the district is thickly populated or not. Sometimes during the last week in January the young people who may be of any age up to twenty years, gather at certain house in the kitchen or barn of which the rehearsals take place. Boys dress in girl’s clothes as a rule and vice versa. Long ago a peeled turnip was used to represent the read of the Brídeog which was draped like a baby being brought to the chapel to be baptized. The places for the eyes, nose and mouth were cut and coloured with soot or any other colouring available. A stick was inserted in the turnip to lend body to the Brídeog and to make it easy to carry. Each participant prepared some items of entertainment to be performed on entering the houses. These items took the form of songs, music on flute or violin (later accordeon), rhymes etc. When Irish was still the language, there were prayers in which the players interceded to St. Brigit for blessing and favours for the members of the house, who were then asked to contribute something for the Brigeog. This took the form of bread or butter: it is only in very recent times that money has been given and accepted. Early in the evening of Jan. 31, the Brídeogs, as they are called, commence their rounds. They are all distinguished and are led by one carrying the Brídeog who is the first to enter the house… The Brídeogs, are always welcome as it would be regarded as unlucky to be uncivil or inhospitable where they are concerned…  Long ago when what was received was in kind, it was all collected in bags and afterwards a ‘feast’ (as is said) was held in some of the neighbour’s houses… Priests were always against girls taking part in the processions and whenever they met them, they were sure to take the disguises off the Brideogs to find out if there were girls among them. Should a girl be found she was severely reprimanded by the priest and sent home. Boys were allowed to carry on.”

A terceira parte da festa é o artesanato de nós e cruzes, ambos feitos de palha ou junco. Os nós são feitos a partir dos primeiros brotos de junco e são presos em torno dos pescoços dos cordeiros quando nascem para trazer sorte e promover a fertilidade. Terminada a confecção dos nós, se inicia a confecção das cruzes de Brigid, de acordo com uma variedade de modelos e padrões tradicionais e usados para abençoar as casas, sementes e campos em honra a divindade e para promover a fertilidade quando feita de tecido e deixada debaixo da cama do casal. Esta fase final, como as outras, também parecem comprovar a semelhança entre a Santa Brigid e a divindade Bríg, pois a confecção e uso desses artefatos podem ser vistos como símbolos da própria Bríg, como rainha e deusa que representa a terra e sua prosperidade, bem como as mulheres e a fertilidade, a garantia de ordenha através da proteção dos cordeiros e os artesãos com a prática do artesanato.

Como vimos, todos estes costumes estão relacionadas com a produção de alimentos, a garantia de prosperidade e fertilidade para as famílias ou a sociedade e a renovação da posição das mulheres como parte da estrutura social. A Festa da Santa Brigid possui muitos simbolismos vinculados a um passado pré-cristão, que liga a fé diretamente aos ciclos naturais e a questões de importância social. Sendo a personificação da soberania e da terra, e uma deusa da poesia, da cura e da forja, Bríg representa todas as três funções descritas por Dumézil e que estão presentes nos festejos à Santa homónima, pois ela é uma rainha, uma druida e uma artesã. Segundo Le Roux e Guyonvarc’h, esta última função é reforçada pela ordenha como produto central das oferendas e refeições, porque é uma faceta de seus atributos enquanto promotora da fertilidade que é um elemento ligado à classe produtora. Oimelc, sendo a festa de Brig, compartilha todos os seus lados em seus significados e práticas.

Referências Bibliográficas:

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World.  Routledge, London, 1996

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Civilização Celta. Mem Martins: Publicações Europa América, 1999. P195

Ó CATHÁIN, Séamas. The Festival of Brigit the Holly Woman. School of Celtic Studies. Celtica 23, Essays in honour of James Patrick Carney, 1999 http://www.celt.dias.ie/publications/celtica/c23/c23-231.pdf