UmaRodadoAnoGalaica_SlakkosAbonosPalestra apresentada por Slakkos Abonos, no dia 4 de Junho de 2015, no VI EBDRC – Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta -, ocorrido em Curitiba.

Resumo: Uma proposta de adaptação da religiosidade céltica da Galícia pré-cristã para Hearth Culture da ADF (Ár n’Draíocht Féin). Com enfoque nas divindades e nas 8 celebrações da Roda do Ano, e embasado no estudo da arqueologia, mitologia e folclores galego e gaélico comparados.

Palestra: Uma Roda do Ano Galaica

Esta palestra surgiu da minha experiência em adaptar a religiosidade da antiga Kallaikia/Gallaecia, ou como alguns acadêmicos definem, da Cultura Castreja/Castrexa para Hearth Culture da ADF durante o meu Dedicant Path. No entanto, observando a premissa reconstrucionista de transformar e renovar no intuito de aproximar-se o máximo possível da realidade histórica de outrora, os pontos aqui levantados sofreram algumas alterações ou acréscimos desde então, e não está, de forma alguma, terminado, podendo vir a sofrer outras mudanças. Espero, contudo, prover um ponto de partida, um modelo que possa ser seguido por iniciantes ou curiosos da fé de seus ancestrais. Uma das primeiras adaptações feitas, foi a de buscar entre as divindades galaicas uma que pudesse ser a facilitadora do acesso aos Outros-mundos, modelo adotado pela ADF e intitulado Gatekeeper. Para tanto, a deusa Navia, por sua ligação com os barcos, aves, rios e paragens selvagens, comumente associados às passagens entre os mundos na mitologia céltica, foi apreendida.

O primeiro High Day, festivais da Roda do Ano segundo a ADF, é Samhain, conhecido na cultura popular galega como Magusto. Tempo de celebrar a Ancestralidade e a renovação cosmogônica no fim e reinício do ano para Celtas. O Magusto galego ainda guarda semelhanças folclóricas com o Samhain das Ilhas Britânicas, como o costume das Caretas, o consumo da carne suína, castanhas e bebida alcoólica. É para mim, também, um tempo de celebrar os heróis do passado. Em seguida, o Solstício de Inverno apresenta o mitema da Soberania da Terra, a Deusa Equina, em sua labuta para dar à luz a criança divina, o Sol do Inverno, e nesta Hearth Culture podemos identificá-los como Epona e Sulis. Um costume galego que vale a pena agregar é o do Lume Novo, a combustão de madeira de carvalho para proteção do lar com suas cinzas, e que pode ser agregado ao rito. Ainda entre os High Days invernais, temo Imbolc, muito semelhante ao costume irlandês. Em Portugal Sta. Brígida é celebrada em 2 Fevereiro, data na qual em tempos pré-cristãos celebrava-se uma deusa com procissões de fogo e candeias ao longo de rios, e que mais tarde foi cristianizada no culto a Nossa Senhora das Candeias.

O Equinócio de Primavera não é uma data atestada entre a maioria dos Celtas pré-cristãos, mas há a possibilidade de ter sido celebrado entre galaicos, segundo algumas interpretações da Ara de Marecos. Seriam, então, celebrados a deusa Navia como Jovem Ninfa dos rios e da fertilidade, bem como Lida, possivelmente a mesma deusa Littauí gaulesa, celebrada como Deusa da Terra e da Fertilidade do solo, a quem era ofertada uma coroa de flores. A dúvida paira sobre a figura de Júpiter, grafada nesta ara; seria uma divindade local trocada por Júpiter, ou um acréscimo do deus latino pela Interpretatio Romana? Seguindo a primeira alternativa, sugiro aí o culto a Larouco, deus das Montanhas, Trovões e Chuvas, em seu papel de fertilizador da deusa da terra.

A fase quente e clara do ano se inicia com Beltainne, celebrado no folclore galego como Maio, entre outras festividades. Nessa ocasião o fogo é aceso para proteger as lavouras, gado e despensas do ataque de seres feéricos maléficos, como o Maio e as meigas. Também são produzidas guirlandas de giestas e margaridas postas nas portas das casas com o mesmo intuito, o de proteção. Uma sugestão de divindade a ser louvada nesta ocasião é Bandus, embora não atestado pela historiografia, é um Deus da Guerra e das Confrarias Guerreiras, presentes também na Gallaecia e responsáveis pelo roubo e pela proteção dos rebanhos a partir do Beltainne.  O Solstício de verão é, por sua vez o momento de celebrar as Moiras/Mouras e Mouros, seres encantados que habitam as Mouramas, Outros-mundos além dos monumentos megalíticos, lagos e ilhas. Ainda na fase clara do ano, temos o Lughnassadh, festa dedicada a um dos deuses mais atestados na epigrafia galaica, mas cujos vestígios de festejo não sobreviveram. Associo nesta ocasião, o deus Lugo/Lugus à fertilidade do solo e colheita, e ao vinho, fruto desta, e, como bebida alcoólica, também associada à Soberania e ao deus.

Por fim, esta Roda do Ano termina com o Equinócio de Outono, e o culto à Mãe dos Deuses, a deusa Anu, encontrada no folclore contemporâneo na figura de N. Sra. De Anumão, ou Anamão. E a quem um parque é dedicado na Freguesia de Numão, em Portugal, e celebrada em 8 de Setembro. Por último, completamos esta Roda com o culto lunar existente na península segundo Estrabão. Ainda que seu relato não identifique o deus celebrado, podemos fazer associações com outras divindades locais, e encontrar na Figura de Cosus, o Deus Ardente, Curvo e Grisalho, identificado com uma estela na qual uma lua crescente é gravada. Se este deus está associado à lua, então está também à contagem do tempo, o que pode ser reforçado em seu epíteto Cosus Oenaecus, Cosus das Assembléias, os próprios festivais da Roda.

Este breve resumo tem a consciência de não poder desenvolver de forma consistente nenhum de seus argumentos. Como dito acima, é um ponto de partida. Também não procura esgotar as possibilidades de construção de Rodas do Ano com a Cultura Castreja. Uma bibliografia de estudo pode ser encontrada no último slide, e para saber mais, questionar ou tirar dúvidas, é só me contatar.

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