Por Marina Storino Holderbaum

Joseph F. Nagy faz uma investigação da tradição oral no contexto Irlandês, como é feita sua composição e como se dá o processo de memorização e narração. Ele também faz menção à relação entre tradição oral e tradição literária na Irlanda recém-cristianizada, principalmente em como uma afetou a outra e as consequências desta interação.

Segundo o autor, após o contato com o cristianismo o fili se viu obrigado a buscar o conhecimento da linguagem escrita e da leitura, pois a ideia de uma classe aristocrática verbalmente ativa, mas analfabeta nos moldes cristãos, tornou-se insustentável. Na Irlanda medieval o fili já não dominava apenas a linguagem verbal tradicional, mas também a leitura, ao menos na teoria. Esta mudança, entretanto, parece não ter afetado a composição oral no sentido de aproximá-la da linguagem escrita, isso talvez pela importância social do fili enquanto responsável pela transmissão, através da tradição oral, de paradigmas e formas de comportamento, ainda mais porque estas narrativas continham genealogias, toponímia e códigos legais.

A discussão em relação à tradição oral no meio acadêmico estaria em como ela era apreendida e narrada. Alguns autores defendem a ideia de que as narrativas eram multiformes, elas não eram decoradas e transmitidas palavra por palavra, mas apreendidas e transmitidas de acordo com o narrador, e embora a história fosse à mesma, a forma como ela era contada continha características verbais de cada narrador. Outros autores já aceitariam a tradição oral Irlandesa como memorização fiel a uma narrativa original, independentemente de quão complexa fosse esta narrativa.

O que nos leva ao segundo ponto de discussão que é a transcrição desta tradição oral para a forma escrita, o que também seria uma questão de divergências entre os Celticistas, já que alguns considerariam as narrativas como construções baseadas diretamente na forma oral, considerando que certos textos eram escritos com o intuito de serem lidos em voz alta, e outros afirmariam que haveria uma incompatibilidade entre a forma oral e escrita e tais textos teriam sido bastante alterados na construção escrita.

O autor não chega a uma conclusão, apenas esclarece as discussões em andamento, o que finaliza com o processo de criação das narrativas que no Cormac’s Glossary teriam a forma de um ritual, cujo fili, buscando conhecimento, após oferendas de carne crua às divindades, cai no sono e teria ai na forma de revelações a inspiração de seu poema. O poeta Fergus também passaria por um processo semelhante a fim de obter inspiração divina para seus poemas, trancado em seu quarto em meio ao escuro assim como os Senchán (legisladores) que emergiam de brumas mágicas com histórias antigas restauradas em sua mebair (memória).

Referência Bibliográfica:

NAGY,  Joseph Falaky.  Orality in Medieval Irish Narrative: An Overview. Oral Tradition 1/2 (1986): 272-301http://journal.oraltradition.org/files/articles/1ii/4_nagy.pdf