Por Marina Storino Holderbaum

Samain é uma das datas mais importantes do calendário Celta Irlandês e como não haveria de ser diferente também é o mais comentado na mitologia, que narra eventos, encontros e costumes deste evento como não faz com nenhum outro, o que o torna um elemento de singular importância no simbolismo desta cultura. Este “Festival”[i] é particularmente significante a medida que, sendo um dia cronologicamente fora do tempo normal, propicia uma conexão direta com o tempo mitológico e com o Outro Mundo e através dessa sua atemporalidade cria condições para reforçar a legitimação das duas figuras de poder da sociedade: o Rei e a Classe Sacerdotal.

Tais personagens são de suma relevância para a manutenção da sociedade como um todo, já que estes são os mantenedores do equilíbrio do mundo natural e espiritual. O Rei por ser o representante da soberania, o elo entre o território e o povo, e por isso o garantidor da prosperidade do solo e redistribuidor de riquezas enquanto soberano, e a Classe Sacerdotal por ser a responsável tanto pela manutenção legal e organizacional da sociedade, como pelo papel de equilibrador entre as forças naturais e sobrenaturais.

Mas se Samain é um período atemporal e ligado diretamente ás influências deíficas e espirituais que cercam o Mundo Celta Irlandês, ele propicia uma ligação direta entre o mito e o tempo presente, sendo capaz de ligar qualquer tempo datado nele mesmo à contemporaneidade do indivíduo que atua naquele momento. Por isso, a infinidade de narrativas mitológicas que ocorrem nesta ocasião podem ser reproduzidas ou reforçadas, trazendo uma noção de continuidade entre o tempo mítico e atualidade.

São muitos os mitos que descrevem ou se passam em Samain, mas um deles em especial deve ser considerado, o Cath Maige Tuired ou The Second Battle of Magh Tuired, como indica Anne Ross em The Celtic World, pois esse não só é um mito essencialmente ligado ao Samain do ponto de vista cronológico, mas faz uma ponte do mito com muitos dos aspectos relativos a este evento e seus simbolismos.

 “The Celtic New Year began on the eve of 1 November. It was the most dangerous and the most portentous of all the calendar festivals. At this time the gods moved freely in the world of mankind, and played cruel tricks on unsuspecting people. Men too could enter the Otherworld, but this was a hazardous undertaking. Many significant events took place at this time, according to tradition; for example, the great battle of the gods of Ireland, Cath Maige Tuired, is essentially a Samain myth (Gray 1982), the trinox Samoni, ‘three nights of Samain’, are noted in the Coligny calendar.”

 Em The Second Battle of Magh Tuired, o dia da batalha de Danann contra os Fomorian era Samain e neste dia aconteceram quatro coisas essenciais para compreender o significado desta festa. A primeira é a vitória dos Tuatha de Danann contra os Fomorian, o que representa a morte do velho Rei de Erin e a coroação definitiva de Lugh, como rei dos Tuatha de Danann, oque nos leva à tradição do Samain de Tara e ao costume da morte ritualística do antigo Rei e consequente coroação do novo Rei no dia seguinte, como Dalton explica em Kings Dying on Tuesday.

A segunda é a assembleia que aconteceu depois da batalha entre Lugh e Bres na qual a vida de Bres foi poupada pelo conhecimento de como e quando o povo da Irlanda deveria proceder no trato com a terra para ter colheitas abundantes a cada trimestre. O terceiro é a profecia de Morrigu após a batalha.

 “Now after the battle was won and the corpses cleared away, the Morrígan daughter of Ernmas proceeded to proclaim that battle and the mighty victory which had taken place, to the royal heights of Ireland and to its fairy hosts and its chief waters and its rivermouths. And hence it is that Badb also describes high deeds. ‘Hast thou any tale?’ saith everyone to her then. And she said:

 Peace up to heaven,
Heaven down to earth,
Earth under heaven,
Strength in everyone, etc.

 Then, moreover, she was prophesying the end of the world, and foretelling every evil that would be therein, and every disease and every vengeance. Wherefore then she sang this lay below:                           

I shall not see a world that will be dear to me.
Summer without flowers,
Kine will be without milk,
Women without modesty,
Men without valour,
Captures without a king.

[gap: extent: approx. 6 words]

Woods without mast,
Sea without produce,

[gap: extent: approx. 40 words]

Wrong judgments of old men,
False precedents of brehons,
Every man a betrayer,
Every boy a reaver.
Son will enter his father’s bed,
Father will enter his son’s bed,
Everyone will be his brother’s brother-in-law.

[gap: extent: 8 words]

An evil time!
Son will deceive his father,
Daughter will deceive her mother.”

 A última é a reunião e união de Daghda e Morrigu no local doravante chamado de A cama do casal (The bed of the Couple) em que Morrigu diz a Daghda que chame os homens de arte de Erin a fim de encontra-la para a batalha contra os Fomorian e promete tirar a coragem do inimigo. Daghda é um druida-guerreiro e o fato da reunião entre eles estar marcada desde o Samhain passado e a partir desta união os Tuatha De Danann ganharem um poderoso aliado, sugerem que este encontro consistia, na verdade, de um casamento ritual entre o Druida e a deusa da guerra para garantir a vitória da batalha, como podemos ver nesse trecho do mito The Second Battle of Magh Turedh.

 “Now the Dagdae had to meet a woman in Glenn Etin on that day year about the Allhallowtide of the battle. The river Unius of Connaught roars to the south of it. He beheld the woman in Unius in Corann, washing herself, with one of her two feet at Allod Echae i. e. Echumech, to the south of the water, and the other at Loscuinn, to the north of the water. Nine loosened tresses were on her head. The Dagdae conversed with her, and they make a union. ‘The Bed of the Couple’ is the name of the stead thenceforward. The woman that is here mentioned is the Morrígan Lamia.

Then she told the Dagdae that the Fomorians would land at Magh Scetne, and that he should (summon) Erin’s men of art to meet her at the Ford of Uinius, and that she would go into Scetne to destroy Indech son of Dé Donann, the king of the Fomorians, and would deprive him of the blood of his heart and the kidneys of his valour. Now she afterwards gave her two handfuls of that blood to the hosts that were waiting at the Ford of Uinius. ‘Ford of Destruction’ became its name, because of that destruction of the king.”

Esses quatro eventos são as conexões entre os diferentes aspectos da celebração do Samhain. Não é uma festa dedicada a um deus específico, como no caso das outras, mas uma festa que parece englobar a todos os Tuatha de Danann, uma data para coroar novos reis e, por vezes, ritualisticamente matar o antigo, uma festa de assembleias legais, decisões, sentenças e contratos e uma festa da fertilidade e da abundância. Era também uma ocasião especial para se reverenciar os ancestrais, já que, nesta ocasião, acreditava-se que os montes funerários se tornavam passagens abertas para o outro mundo e entrar em contato com o sid e os mortos se tornava muito mais fácil. Ao que tudo indica, Samhaim parece ser uma festividade voltada à comunidade como um todo, um período de estreitamento de laços tanto em relação às atividades sociais quanto no que concerne aos vínculos com o plano espiritual.

Como as batalhas duraram por mais de quarenta anos, isso também pode significar o fim de um velho ciclo e da vinda de um novo. Mas o dia de Samhain é especial, pois este dia é fora do tempo, ele representa também a mudança de ano, por isso ele não pertence nem ao ano passado nem ao ano futuro, este é um momento em que os mundos natural e sobrenatural podem ser facilmente acessíveis, que os montes funerários estão abertos e em que até mesmo as fogueiras eram extintas para serem novamente acesas após Samhain. Segundo Helen Sewell Johnson, este era o momento de adoração aos deuses, a ocasião para cerimonias e práticas religiosas a fim de honrar todas as divindades, em um esforço para garantir a prosperidade para o novo ano.

Samhain simboliza a festa da vitória e as expectativas de fecundidade e prosperidade para o ano seguinte, pois o povo da Irlanda passava a dominar as técnicas de plantio e colheita, de acordo com o mito. Era um tempo fora do tempo cronológico em que as passagens entre os mundos estavam abertas e os mortos e divindades podiam ser facilmente contatados. Era o momento, também, de fortalecer os laços comunitários através do grande baquete e de reforçar a organização social e a configuração de poder através das assembleias políticas.

Referências Bibliográficas:

DALTON, G.F. Kings Dying on Tuesday Folklore vol. 83, nº3 1972

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World. Routledge, London, 1996

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Sociedade Celta na ideologia trifuncional e na tradição religiosa indo-europeia. Mem Martins: Publicações Europa América, Portugal, 1995.

O’GRADY, Standish Hayes. (ed. and trad.). Silva Gadelica. 1892. reprint: NY: C. Lemma Publishing Corporation, 1970.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.

STROKES, Whitley (Ed. e Trad.). The Second Battle of Moytura in Revue Celtique. Volume 12, Paris, F. Vieweg (1891) page 52-130, 306-308. http://www.ucc.ie/celt/published/T300011.html


[i] Uso o termo “Festival”, pois é o usual, mas por entender que este é um evento particularmente abrangente e múltiplo em significados na cultura e sociedade Celta Irlandesa, o usarei entre aspas, a fim de deixar claro sua não limitação a uma noção de cerimônia ou festa.