Por Marina Storino Holderbaum

Este festival indicava o primeiro dia do ano Céltico e era uma das mais importantes festas do calendário deste povo. Sua ocorrência era constante e pontual na mitologia Celta Irlandesa, deixando claro sua crucial significância para a estrutura social e a sua abrangente influência. Segundo nos conta G. F. Dalton em seu artigo para a revista Folklore, Kings Dying on Tuesday, a festa de Samain se estendia por três dias antes e três dias depois do dia de Samain. Esta data marca o começo do inverno, e, é provável que muitos, ou mesmo todos, os reis de Tara fossem coroados nesta data, após seus sucessores serem ritualisticamente mortos.

“The fourth andcentral day of the Festival would correspond to Wednesday. This was Samhain itself, the first day of the Celtic year, and the most important day in the eltic calendar. It was on this day, in a Festival year (the Festival was held once in seven years), that a new king was inaugurated; that is to say, as soon as possible after the death of his predecessor, if the latter had been ritually killed. Thus, after the death of Tuathal Maelgarbh, Diarmaid son of Fergus Cerrbel became king not merely ‘before a week’s end’ but, according to another source, the very next day.”

Grandes festas ocorriam por toda a Irlanda neste período e a mais importante delas era Óenach Temra, a Assembleia de Tara, que era presidida pelo próprio rei de Tara. Segundo Anne Ross em The Celtic World todos os reis da Irlanda compareciam à Assembleia de Tara, desde uma quinzena antes até uma quinzena depois do dia de Samain a fim de participarem dos eventos que se seguiriam. Nela o corpo jurídico de toda a Irlanda se reunia para legislar, resolver conflitos e dívidas, o que só seria feito novamente na próxima Assembleia de Tara, sete anos depois. Neste intervalo as decisões tomadas na convenção tinham caráter de lei e ninguém deveria transgredi-las, sob pena de sofrerem sanções e punições.

“We learn in the story of the Battle of Crinna that, every king of Ireland  (was  in  Tara) for the purpose of holding Tara’s Feast; for a fortnight  before samain that is to say, on samain-day itself, and for a fortnight after. And the reason for which  they practised to gather themselves together at every samain-tide was this: because at such season it was that mast and other products were the best matured. Here too is the  reason for which the  Feast of Tara was made at all: the body of law which all Ireland enacted then, during the interval between that and their next convention at a year’s end none might dare to transgress; and he that perchance did so was outlawed from the men of Ireland.”

Emain Macha em Ulster também era palco de uma importante comemoração de Samain. Esta comemoração durava uma semana e seu principal evento eram as corridas de cavalo dedicadas à deusa Macha. Segundo o relato mitológico Scela Chonchobuir “Todos os homens de Ulster que não comparecessem à noite de Samain de Emain Macha seriam desprivados de seus sensos e seu tumulo e lápide seriam erguidos no dia seguinte”[i]. O mito The Wasting Sickness of Cú Chulainn, and the Only Jealousy of Emer descreve as comemorações que ocorriam em Ulster.

“Each year the Ulaid held an assembly: the three days before Samuin and the three days after Samuin and Samuin itself. They would gather at Mag  Muirthemni, and during these seven days there would be nothing but meetings and games and amusements and entertainments and eating and feasting. That is why the thirds of Samuin are as they are today. Thus, the Ulaid were assembled at Mag Muirthemni. Now  the reason they met every Samuin was to give each warrior an opportunity to boast of his valour and exhibit his triumphs. The warriors put the tongues of those they had killed into their pouches – some threw in cattle tongues to augment the count – and then, at the assembly, each man spoke in turn and boasted of his triumphs. They spoke with their swords on their thighs, swords that turned against anyone who swore falsely.”

Le Roux e Guyonvarc’h afirmam que esta era uma festa coletiva, em que a presença de todos era uma obrigação punível com “pena de morte ou sanção grave” àqueles que não a atendessem. O momento principal, segundo eles, era o grande banquete, que contava com a participação de todas as três classes em uma demonstração explícita da divisão trifuncional de Dumézil. No Silva Gadelica temos uma boa descrição das questões que envolviam esta ocasião.

“Tara of the Kings: she it was that to all kings successively ruling Ireland was a peculiar appanage; and it was a universal thing for them that thither all Ireland’s charges, and dues prescribed, and rents, must be brought in to them. With the men of Ireland too it was general that out of all airts they should resort to Tara in order to the holding of Tara’s Feast at samhain-tide. For these were the two principal gatherings that they had: Tara’s Feast at every samhain (that being the heathens’ Easter); and at each lughnasa, or’ Lammas-tide,’ the Convention of Taillte. All precepts and all enactments which in either of these festivals were ordained by the men of Ireland, during the whole space of that year none might infringe.”

Entretanto, Samain não era apenas um período de assembleias políticas, coroações e discussões legais, era também um período de grande importância religiosa e mítica. Este período marcava a transição anual no calendário Celta Irlandês, e por ser uma data de transição era também uma data de livre acesso entre os mundos material e espiritual. Um dia perigoso, segundo Anne Ross, “no qual a mágica dos druidas era requerida para controlar a hostilidade dos seres do Outro Mundo através de cantos e sacrifícios, feitiços e formulas apotropaicas[ii]”. Em A Sociedade Celta, Le Roux e Guyonvarc’h explicam esta característica atemporal de Samain.

“Não pertencendo nem ao ano que termina nem ao que começa, Samain está fora do tempo cronológico e situa-se, por esse motivo, no mito, sem ideia de duração, ou seja, na eternidade: os acontecimentos míticos produzem-se sem interrupção nem descontinuidade de uma Samain à outra, o que explica que as gentes do síd possam intervir nos negócios humanos ou deixar os homens penetrar no síd, e até mesmo convidá-los ou leva-los consigo.”

As questões que envolvem o Festival de Samain são diversas e cruciais tanto para a legitimação do poder e manutenção da estrutura social, quanto pelo fato deste ser um período de ausência cronológica, em que o mito e o temporal se confundem em um dia envolto em ritos e contatos com o Outro Mundo. Não é por acaso que a mitologia Irlandesa é cercada por encontros entre humanos e seres do Síd e muitos deles ocorrem exatamente no dia se Samain, como acontece nas narrativas The Second Battle of Magh Turedh, The Dream of Angus, The Adventure of Nera, entre outros. Em The Gods of the Celts, Miranda Green nos dá uma boa descrição do aspecto sobrenatural de Samain.

“At the Festival of Samain, it is the sombre images that predominate; the spirits of the dead move freely among the living at that time, considered to be a junction between summer and winter, when the barriers between the natural and supernatural world are temporarily broken down.”

Samain é um período de transição em todos os aspectos. Ele representa o início da estação mais crítica do ano, é um período decisivo para alianças políticas e resoluções legais, assim como para mudanças na configuração do poder. Além disso também é determinante na relação de equilíbrio com o sobrenatural, bem como no reforço à importância da classe Sacerdotal como um todo, pois este requer a demonstração de todos os ofícios que fazem parte de suas funções.

Mas se a proximidade entre os mundos propicia um dia singular no ano, em que o mito e os mortos estão em contato direto com o tempo e o espaço da comunidade, independente de qual ele seja, este evento também esconde perigos de contatos inesperados, de encontros infortunosos ou mesmo de ações que desencadeiem a ira dos mortos ou o desequilíbrio nas relações com o Outro Mundo, que se não é tão próximo do humano em outros momentos, não é de forma alguma isolado ou impenetrável, muito pelo contrário, a linha entre o natural e o sobrenatural é sempre dividida por um véu tênue e frágil e Samain é apenas a potencialização extrema desta interação.

Referências Bibliográficas:

DALTON, G.F. Kings Dying on Tuesday Folklore vol. 83, nº3 1972

GREEN, Miranda (Ed.). The Celtic World.  Routledge, London, 1996

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Christian‐J. A Sociedade Celta na ideologia trifuncional e na tradição religiosa indo-europeia. Mem Martins: Publicações Europa América, Portugal, 1995.

O’GRADY, Standish Hayes. (ed. and trad.). Silva Gadelica. 1892. reprint: NY: C. Lemma Publishing Corporation, 1970.

ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain. Academy Chicago Publishers, Chicago, 1967.


[i] Tradução do trecho do mito, para o inglês, publicada por Anne Ross em seu artigo Ritual and the Druids em The Celtic world.

“It was Conchobar himself who would give the Samain feast to them because of the assembly of the great host. It was necessary to provide for the great crowd because every Ulsterman who did not come to Emain Macha on Samain night would be deprived of his senses and his grave and his standing-stone would be put in place on the next day. [Conchobor im fessin no gaibed in samuin dóib fo dagin, terchomraic in tslúaig móir. Ba hecen in tsochaide mór do airichill. Fo bith cech fer do Ultaib na tairchebad aidchi samna dochum nEmna. no gatta ciall de 7focherte afert 7a lecht 7a lecht 7alie arnabarach J. (Book ofLeinster 1,402: Bestand O’Brien 1956)”

[ii] Apotropismo é uma palavra de origem grega para designar ritos ou práticas utilizados para afastar qualquer tipo de malefícios, desgraças ou doenças.