Por Marina Holderbaum

Vamos começar pelo princípio e definir o que é cultura do ponto de vista da Antropologia:

A cultura é um padrão de significados transmitido historicamente, incorporado em símbolos, um sistema de concepções herdadas expressas em formas simbólicas por meio das quais os homens comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento e suas atividades em relação à vida.” (C. Geertz)

A cultura, portanto, é algo construído por e para a vida em sociedade. Ela é a expressão simbólica do modo de vida e da visão de mundo de uma determinada comunidade e é transmitida e reforçada desde o nascimento até a morte do indivíduo. Embora hoje, culturas diferentes coexistam em uma mesma sociedade e isso permita que os indivíduos possam alternar entre elas, migrando de uma para outra e deixando de lado a cultura que deveriam herdar de seus ancestrais se pertencesse a uma sociedade tribal e relativamente isolada de outras culturas, vamos nos distanciar do nosso mundo contemporâneo e “eclético” em termos culturais e voltar a 2.000 anos atrás, ao mundo do nosso enfoque cultural e simbólico, os Celtas.

Muitas coisas diferenciam o indivíduo contemporâneo comum dos Celtas de 2.000 anos atrás, uma delas é denunciada pelo próprio termo “Celtas” e as discussões sobre validade ou não do termo. Primeiro é preciso entender que Celtas não é uma designação individual, ela tem sempre um caráter plural porque não existe uma cultura Celta homogênea. A denominação “Celtas” é utilizada para abranger uma série de sociedades tribais em um grande período de tempo e com variantes culturais muito amplas. Entretanto, se convencionou aceitar tal termo para denomina-las, pois algo além da estrutura social os conecta: a linguagem e a cultura material, certa similaridade de padrões e valores, símbolos que são apreendidos e reproduzidos culturalmente, o que indica que tenham tido uma cultura ancestral em comum, embora, em algum momento tenham se distanciado e desenvolvido peculiaridades individuais, mas que ainda assim deixavam transparecer ao fundo o padrão cultural original.

Importante para entender esse conceito é perceber que o indivíduo existe enquanto membro de uma família, que é membro de uma tribo e assim por diante… Assim, o peso do papel que o indivíduo desempenha na sociedade e seu destaque enquanto peça social é mais importante que ele em si. Um rei pode ser deposto se não cumpre seu papel corretamente e o melhor dos ferreiros só é ultrapassado se surgir um indivíduo mais habilidoso que ele em seu ofício. Portanto o papel que o indivíduo desempenha para a sociedade, dentro do que a cultura valoriza, é mais importante que o indivíduo em si e isto permite que haja certa mobilidade s­­­­ocial, mas antes de tudo reforça os laços sociais e a importância da comunidade sobre o indivíduo.

Outro diferencial entre o mundo contemporâneo e o mundo Céltico é a noção de tempo e espaço. A noção padrão atual é de um tempo linear em que espaço e acontecimentos se classificam em passado, presente e futuro e nunca se repetem.

0 Tempo linear1 Espiral de tempo

Mas em um mundo Cético o tempo ocorre em espiral em relação ao espaço, ou seja, ele é cíclico, se renova e se repete de em um mundo ideal. O mesmo acontecimento mítico ou passado pode ser repetido e culturalmente era repetido em um tempo cíclico simultâneo ao original. O exemplo mais evidente que temos dessa proximidade entre tempo espaço é o dia de Samhain, o marco entre o fim de um ciclo anual e começo de outro e um dia em que, literalmente, tudo pode acontecer, pois é um dia fora do tempo e espaço, os portais entre os mundos estão abertos, ou melhor, a espiral de tempo está sobreposta e se pode facilmente andar entre os espaços entre mito, passado, presente e futuro, pois o tempo se torna um só.

2 Espiral de tempo 1Essa repetição cria esse algo singular, que é a possibilidade de interação entre os tempos e espaços, pois eles permanecem sempre muito próximos uns dos outros, coincidindo ciclicamente não só pela organização da estrutura social, já organizada em ciclos vinculados com o plantio e a colheita, o inverno e o verão, o nascimento e a lactação dos rebanhos e outros tantos fatores, mas pela própria noção de tempo que impele a sociedade a se estruturar dessa forma já que era dependente dos ciclos naturais que se se renovam anualmente.

Mas a espiral não é apenas um contínuo de tempo em curva, ela é também em degraus, pois o tempo social repete o tempo mítico, o tempo religioso.

Segundo Geertz, “A religião é um sistema de símbolos que­­ atua para estabelecer poderosas, penetrantes e duradouras disposições e motivações nos homens através da formulação de conceitos de uma ordem de existência geral e vestindo essas concepções com tal aura de fatualidade que as disposições e motivações parecem singularmente realistas.” Se “A religião ajusta as ações humanas a uma ordem cósmica imaginada e projeta imagens da ordem cósmica no plano da experiência humana”, então em uma cultura em que religião é indivisível da própria estrutura social, o mundo social repete periodicamente o mundo mítico. Assim, os Festivais Celtas, não são apenas ritos sociais de reafirmação da fé e interação social, eles têm um papel de recriar o mito no tempo presente e assim perpetuar o mundo ideal dentro da sociedade e no tempo e espaço. Isso é tão fundamental porque a quebra desta repetição cria falhas na espiral e torna mais difícil acessar o tempo mitológico, já que o salto entre o presente e o mito não seria mais de apenas um ciclo acima, mas de vários, tantos quanto forem as falhas de repetição do mito.

3 Espiral de tempo 2É necessário entender que a importância do papel social sobre o indivíduo e do tempo/espaço cíclico e em espiral são partes de um mesmo padrão cultural, que privilegia o todo cultural, a continuidade sobre a particularidade, o cosmos social sobre a sociedade presente.

Assim como a ordem das bases num fio de DNA forma um programa codificado, um conjunto de instruções ou uma receita para a síntese de proteínas estruturalmente complexas que modelam o funcionamento orgânico, da mesma maneira os padrões culturais fornecem tais programas para a instituição dos processos social e psicológico que modelam o comportamento público.” (C. Geertz)

Em uma cultura como a Celta, portanto, religião e sociedade se fundem em um tempo mítico e essa fusão é ciclicamente reproduzida a fim de recriar o mundo original no mundo presente e essa reprodução de um passado ideal é a função do ritual.

Mircea Eliade, ao falar das diferenças de mentalidade entre o homem religioso e o homem profano nos diz que “o homem religioso assume uma humanidade que tem um modelo trans-humano, transcendente” e que “ele só se reconhece verdadeiramente homem quando imita os deuses, os Heróis civilizadores ou os Antepassados míticos[i]”. Também é verdade que as “Tradições” não são estáticas, que elas se alteram e se adaptam a mudanças culturais ou sociais ao longo do tempo, sendo assim, podemos ver no mito não só um arcabouço de saber cultural e social, ou um modelo exemplar de conduta ou de mundo, mas também a base fundamental para se pensar a mentalidade ritual.

Ou seja o mito é um modelo ideal de conduta, o exemplo de vida em sociedade, com punições para ações incorretas e reforço das ações corretas. Ele é a base da organização de uma sociedade de tradição oral, pois seus símbolos e ideais de conduta são facilmente assimilados e reproduzidos. Um mito também é um modelo simbólico muito forte e complexo, nele, pequenos detalhes podem fazer toda a diferença em um contexto exemplar, desde a descrição da roupa, do comportamento até um simples objeto podem ter significados cruciais dentro da narrativa e da cultura original que ela reproduz.

Geertz diz que “é no ritual — isto é, no comportamento consagrado — que se origina, de alguma forma, essa convicção de que as concepções religiosas são verídicas e de que as diretivas religiosas são corretas. É em alguma espécie de forma cerimonial — ainda que essa forma nada mais seja que a recitação de um mito, a consulta a um oráculo ou a decoração de um túmulo — que as disposições e motivações induzidas pelos símbolos sagrados nos homens e as concepções gerais da ordem da existência que eles formulam para ­os homens se encontram e se reforçam umas às outras. Num ritual, o mundo vivido e o mundo imaginado fundem-se sob a mediação de um único conjunto de formas simbólicas, tornando-se um mundo único” e produzindo uma transformação do modelo ideal de comportamento em uma realidade esperada socialmente.

O que o ritual faz para criar esse vinculo único, é proporcionar um achatamento momentâneo da espiral de tempo. O ritual, portanto cria uma fusão do tempo e espaço, permitindo o contato direto entre o grupo social e as divindades, pois ele sobrepõe todos os tempos e espaços, permitindo o livre acesso entre eles.

Claro que, em um mundo como o Céltico, no qual não há uma divisão entre sagrado e profano esse tempo pode se achatar por si só em certas ocasiões especiais, embora esse achatamento seja mais sutil que o momento ritual, pois ele permite com mais facilidade a possibilidade de interação entre os tempos, mas não garante essa interação como no momento ritual em que o mito, o passado e o futuro são trazidos ao mundo presente, permitindo não só o reavivamento e repetição do mundo ideal das divindades, mas também a interação com os antepassados e a manipulação do futuro, através do fortalecimento dos elos com as forças sobrenaturais através de oferendas e sacrifícios, da manipulação do futuro através de encantamentos e da previsão do futuro através de oráculos e profecias.

Apesar de qualquer ritual religioso, não importa quão aparentemente automático ou convencional, envolver uma fusão simbólica da estrutura social com a visão do mundo, são principalmente os rituais mais elaborados e geralmente mais públicos que modelam a consciência espiritual de um povo, aqueles nos quais são reunidos, de um lado, uma gama mais ampla de intensões e motivações e, de outro, de concepções metafísicas.

4 Espiral de tempo 3

E são estes rituais mais elaborados que visam uma repetição do modelo original da sociedade divina, o mito, aquilo que chamamos de reconstrução cosmogônica, ou seja, a reconstrução da criação do cosmos seja ele o cosmos enquanto agente material ou o universo em si, ou como agente social, a fundação da sociedade como é reconhecida.

Para os participantes de um ritual cosmogônico os atos religiosos são interpretações, materializações, realizações de ordem espiritual, não são apenas modelos daquilo que acreditam, mas também modelos para a própria crença. Nessas dramatizações de um tempo primordial metafísico os homens atingem sua fé, revivem e reforçam sua crença tanto a nível pessoal quanto a nível social, na medida em que a retratam.

Embora a fé pessoal também seja renovada em tais ritos, é muito importante entender que, diferente do nosso mundo contemporâneo em que há uma grande gama de opções culturais e religiosas disponíveis e possíveis de serem escolhidas, um individuo nascido em uma sociedade tribal ha 3000 anos atrás não tinha essa questão a ser resolvida, sua crença era coletiva, herdada e vital para a vida em comunidade. Tanto que César afirma que a maior punição que um Druida podia dar a um indivíduo era a não participação em um ritual de sacrifício. Isso porque não compartilhar da crença ou da prática ritual era não participar da sociedade, não reviver o mito e, portanto não pertencer a nenhum tempo e espaço, já que estava excluído da sociedade física e da interação com o tempo divino e mitológico.

Mas é um fato que essa reconstrução cosmogônica há muito perdeu essa realização continua. Nós estamos em um momento de reconstrução ritual e de reconexão com o passado mítico. Nós não sabemos como, de fato os ritos eram feitos, pois não há relatos específicos sobre isso e do ponto de vista arqueológico é impossível reconstruir um rito apenas através de evidências matérias. Mas nós podemos sim fazer o mesmo caminho que eles próprios fizeram. Utilizar os mitos como base para a criação de um ritual cosmogônico, um ritual que seja repetido ciclicamente em momentos pontuais coincidentes com aquilo que se sabe sobre a sociedade celta, ou seja, os quatro grandes festivais primários, a fim de reconectar novamente o tempo mítico ao tempo presente e propiciar o achatamento eficaz do tempo e espaço.

Um rito perdido, então, pode ser re-idealizado se o mito persistir, o que não quer dizer que uma liturgia fiel possa ser recuperada, mas, que o ideal original pode ser resgatado através da utilização do mito como ponto focal. Esse trabalho de recriação deve ser o máximo possível, fiel a uma realidade original, pois só assim seria possível uma reconexão há um tempo vinculado à sociedade Celta especificamente já que a noção de sociedade é mais importante que a noção de indivíduo e a inserção de quem busca essa ligação com a visão de mundo e a noção de pertencimento à vida social da comunidade em questão, são fundamentais para a aceitação nessa cultura. Por isso uma perspectiva histórica, antropológica e arqueológica é essencial e deve ser observada para que possamos efetuar a “recriação” da repetição do mito em uma liturgia moldada a partir do estudo aprofundado de diversos mitos célticos, tendo o cuidado para tentar, da melhor maneira que nos foi possível, retirar os elementos cristãos na hora de nossa seleção, e atentando para a precisão histórica, fugindo dos anacronismos.

Pode parecer antagônico recorrer a ciência para reconstruir uma religião, mas de fato, não é! Ao contrário do mundo cristão que é ditado por dogmas e revelações o mundo dos povos Celtas surgiu antes da própria noção de ciência, que eles próprios, assim como muitos povos da antiguidade ajudaram a desenvolver. Para sermos capazes de mergulhar no mundo deles precisamos aprender a não separar os mundos e compreender que sagrado e profano são conceitos modernos que não se encaixam a um contexto em que o mundo concreto e espiritual caminham juntos, paralelamente e ciclicamente e interagem entre si periodicamente. A ciência nada mais é do que a magia de se entender o mundo e o cosmos, o passado, o presente e o futuro, ela é a magia dos sábios. Embora hoje em dia ela seja “neutra” e muitas vezes até antipatize com as religiões dogmáticas e vejam com um certo preconceito as vertentes pagãs por falarem de coisas que ainda não são comprováveis a nível da experimentação científica, nós não podemos cometer o mesmo erro e deixar de buscar na natureza das coisas respostas e novas perguntas a serem feitas.

Nosso esforço em recriar um rito cosmogônico nunca será uma cópia fiel de um rito céltico da antiguidade pré-cristã (e ele jamais poderia ser, primeiro por que não houveram sobrevivências de ritos relatados, originais, uma vez que os mantenedores das tradições orais pagãs, em forma escrita, foram os monges cristãos, e qualquer alegação de uma continuidade ancestral é, no mínimo, questionável e, segundo que, por mais que tivéssemos acesso a um rito totalmente original, ele estaria condicionado à nossa interpretação cheia de filtros, preconceitos e romantismos modernos, perdendo, assim sua “originalidade” assim que passasse por nossas mentes). Mas ele será, ao menos, uma representação daquilo que acreditamos ser, dentro de um arcabouço metodológico e de precisão científica mais ou menos apurada, o cerne ideológico, mágico, religioso e mítico e ritualístico céltico dentro de um molde moderno, mas que visa acessar a mentalidade original e ancestral. E, com um pouco de sorte e dedicação, aos poucos, podemos experimentar e moldar nossa própria prática ritual até que ela seja capaz de se ajustar perfeitamente ao padrão que buscamos e, portanto, capaz de aproximar de forma eficaz o tempo e o espaço, para alcançarmos o passado longínquo e, finalmente, o passado imemoria