Acreditamos que do ponto de vista simbólico faz-se necessária uma explicação do porque do nome dado a este projeto, tendo em vista que tal termo possui uma significação particular própria e muitas vezes confundida com o termo Temair.

Temair é a capital do reino de Brega na Irlanda da Antiguidade, um dos grandes centros de poder da época e, supostamente, onde o Ard-Rí ou “grande rei” da Irlanda mantinha seu trono[1]. Mas de acordo com o que nos leva a crer o poema Mór in gním[2], Temair é um vocábulo usado para designar a entidade política de Tara, enquanto Temraig é a designação de seu espaço físico.

Então, por que Temraig, e não Temair? A resposta não é fácil. Embora nossa preocupação seja criar um conjunto de artigos e questionamento sobre as estruturas políticas, sociais e culturais dos povos “célticos” da Irlanda Antiga e Tardo-Antiga, e a palavra Temair seja mais “aproximada” deste objetivo, tudo o que temos a respeito destas estruturas são relatos tardios, recriações, mitos e folclore.

Temraig, ao contrário, é a fonte do nosso saber, a matéria bruta a que temos acesso através da arqueologia para que possamos formar um quadro interdisciplinar viável e plausível da Antiguidade Celta Irlandesa. Sem a prova material, tanto os relatos de gregos e romanos a partir de sua própria visão de mundo e interesses políticos e bélicos, como a mitologia transcrita nos monastérios cristãos, que também guardavam seus interesses, não poderiam jamais ser analisadas com tal profundidade como o são através da comparação com o legado deixado sob e sobre a terra.

Infelizmente Temair não existe mais enquanto símbolo de poder, pois a sociedade que a idealizou já não vive mais, entretanto, Temraig, sempre estará lá, independente do nome que vier a tomar pelas gerações futuras e este é o motivo pelo qual Temraig dá nome ao nosso projeto, porque ela está viva e será eterna enquanto marco material de saber e referência em relação à sociedade Irlandesa Céltica.


[1] A figura do Ard-Rí é, atualmente, fonte de muitos debates. Embora muitas fontes tardias nos informem sobre a suposta figura que centralizava o poder da Irlanda tendo a lealdade dos demais reinos e cuja soberania seria “superior”, autores como o doutor D. A. Binchy procuram descontruir esse mito. À luz de outras fontes que não apenas os relatos do s´c. XII-XIII e diante de uma profunda análise histórica, é possível verificar que, provavelmente, a figura do Ard-Rí foi uma construção política a fim de afirmar a superioridade da Dinastia Uí Néill frente as demais, sobretudo após o início da cristianização da Irlanda. BINCHY, D. A. The Fair of Tialtiu and the Feast of Tara. Ériu, Vol. 18 pp. 113-138. Royal Irish Academy, 1958.

[2] GOVERTS, Desirée. Mór in Gním: An edition of some poems from the Bórama, with translation and textual notes. Tese de Mestrado apresentada ao Celtic Languages and Culture dep., Utrech University.