Revista de Estudos Célticos do Grupo de Estudos Temraig.

Apresentação

Antes de mais nada, precisamos fazer algumas considerações em relação ao presente projeto, seus objetivos e objeto de estudo, assim como acerca das fontes utilizadas e a forma como tais fontes serão tratadas durante a construção do conteúdo apresentado, visto que estas fontes necessitam, geralmente, de diversas considerações interdisciplinares para que possam se tornar claras, a fim de um melhor entendimento do tema e da forma como este será exposto e interpretado.

Primeiramente, é importante dizer que este projeto tem como prioridade principal o estudo histórico a respeito da cultura e religião Celta, estando de acordo com as descobertas arqueológicas e teorias históricas mais recentes, mas sem deixar de lado os relatos Gregos e Romanos,  ou as literaturas vernaculares, principalmente da Irlanda. Não podemos esquecer, entretanto, que a confiabilidade de tais fontes está sempre encerrada dentro de um contexto histórico, e na maioria das vezes, aos interesses políticos e institucionais de certos grupos ou indivíduos, muitas vezes de seus próprios autores, os quais faziam parte do contexto de produção dessas obras.

Ainda nesse sentido, esclarecemos que qualquer texto relacionado ao chamado “Ciclo Arturiano” será a priori descartado, pois é composto por obras muito mais tardias, já concebidos dentro da tradição dos romances de cavalaria medievais, onde já não são reconhecíveis nem a língua, nem os estilos literários ou as estruturas sociais, políticas ou culturais de povos “celtas”. Por fim, é necessário também tratarmos dos estudos “históricos” realizados por antiquários, à partir do séc. XVII e daqueles produzidos pelas “arqueologias nacionalistas” do século XVIII e XIX. Embora as obras desses períodos tenham o seu valor, precisamos tratá-las com o maior cuidado, visto encontrarmos, em sua esmagadora maioria, a necessidade de afirmação de caráter nacionalista, que visavam corroborar movimentos e fronteiras políticas num momento conturbado da História mundial.

Dito isso, é preciso esclarecer que a finalidade deste projeto; é um fato que o conhecimento de cunho acadêmico é de difícil acesso e compreensão para muitos, especialmente quando nos referimos aos povos chamados “Celtas”, não só pela linguagem empregada nos meandros da Academia, mas também pelas barreiras linguísticas, já que, à exceção de umas raras publicações traduzidas para o português, todo o conhecimento científico a respeito dos Celtas requer proficiência em alguma língua estrangeira (sobretudo inglês e francês), para serem entendidos. Desta maneira, a intenção desta empreitada é produzir e compartilhar material de conteúdo acadêmico, acessível tanto ao pesquisador profissional quanto ao curioso que jamais pisou em uma universidade.

Por fim, esclarecemos desde já que, estando este projeto intimamente ligado ao nosso repertório de conhecimento e à luz de novas descobertas e estudos arqueológicos e históricos, tudo aqui apresentado está sujeito a revisões, podendo ser, a qualquer momento, readequado para que venha a estar, quando necessário, de acordo com os critérios científicos correntes.

Linhas de delimitação de Conteúdo  

Tais linhas visam delimitar e organizar os temas, por conteúdo e argumentação, não só pela questão de ajuste dos artigos às diversas formas de linha de pesquisa, mas também como uma forma de organizar o conteúdo de modo a ser mais facilmente encontrado por aqueles que busquem assuntos específicos.

Tendo em vista a proposta de produzir um conteúdo interdisciplinar, entre História, Arqueologia, Antropologia e Mitologia, nossa classificação quanto ao conteúdo também terá que seguir esta interdisciplinaridade, para poder acomodar e suprir as linhas de pesquisa que iremos abranger. Sendo assim, a princípio, serão três linhas de pesquisa, embora outras possam surgir com o tempo, principalmente no tocante a uma linha de temas vinculada a Arqueologia, mais descritiva, composta por material baseado em artefatos e evidências específicas.

A princípio as delimitações de conteúdo serão:

Cultura e Poder
Espaço e Sociabilidades
Rituais e Simbolismos

Temraig: significado e simbolismo aplicado à nomenclatura do projeto

Acreditamos que do ponto de vista simbólico faz-se necessária uma explicação do porque do nome dado a este projeto, tendo em vista que tal termo possui uma significação particular própria e muitas vezes confundida com o termo Temair.

Temair é a capital do reino de Brega na Irlanda da Antiguidade, um dos grandes centros de poder da época e, supostamente, onde o Ard-Rí ou “grande rei” da Irlanda mantinha seu trono[1]. Mas de acordo com o que nos leva a crer o poema Mór in gním[2], Temair é um vocábulo usado para designar a entidade política de Tara, enquanto Temraig é a designação de seu espaço físico.

Então, por que Temraig, e não Temair? A resposta não é fácil. Embora nossa preocupação seja criar um conjunto de artigos e questionamentos sobre as estruturas políticas, sociais e culturais dos povos “célticos” da Irlanda Antiga e Tardo-Antiga, e a palavra Temair seja mais “aproximada” deste objetivo, tudo o que temos a respeito destas estruturas são evidências arqueológicas, relatos tardios, recriações, mitos e folclore.

Temraig, ao contrário, é a fonte do nosso saber, a matéria bruta a que temos acesso através da arqueologia para que possamos formar um quadro interdisciplinar viável e plausível da Antiguidade Celta Irlandesa. Sem a prova material, tanto os relatos de gregos e romanos, a partir de sua própria visão de mundo e interesses políticos, quanto a mitologia transcrita nos mosteiros cristãos, que também guardavam seus interesses, não poderiam jamais ser analisadas com tal profundidade como o são através da comparação com o legado deixado sob e sobre a terra.

Infelizmente Temair não existe mais enquanto símbolo de poder, pois a sociedade que a idealizou já não vive mais; entretanto, Temraig, sempre estará lá, independente do nome que vier a tomar pelas gerações futuras e este é o motivo pelo qual Temraig dá nome ao nosso projeto, porque ela está viva e será eterna enquanto marco material de saber e referência em relação à sociedade Irlandesa Céltica.


[1] A figura do Ard-Rí é, atualmente, fonte de muitos debates. Embora muitas fontes tardias nos informem sobre a suposta figura que centralizava o poder da Irlanda tendo a lealdade dos demais reinos e cuja soberania seria “superior”, autores como o doutor D. A. Binchy procuram descontruir esse mito. À luz de outras fontes que não apenas os relatos do séc. XII-XIII e diante de uma profunda análise histórica, é possível verificar que, provavelmente, a figura do Ard-Rí foi uma construção política a fim de afirmar a superioridade da Dinastia Uí Néill frente as demais, sobretudo após o início da cristianização da Irlanda. BINCHY, D. A. The Fair of Tialtiu and the Feast of Tara. Ériu, Vol. 18 pp. 113-138. Royal Irish Academy, 1958.

[2] GOVERTS, Desirée. Mór in Gním: An edition of some poems from the Bórama, with translation and textual notes. Tese de Mestrado apresentada ao Celtic Languages and Culture dep., Utrech University.