Por Erik Wroblewski

Originalmente publicado na revista Ériu, em 1958 pelo doutor D. A. Binchy, este é, sem dúvida, um texto de extrema importância para qualquer pessoa que tenha por objetivo estudar e compreender as instituições políticas da Irlanda Antiga e Medieval.

Através do estudo de grandes eventos sociais, realizados em nome dos reis da Irlanda, o autor pretende desconstruir a noção da superioridade da soberania do Ard-Rí (“grande rei”) em relação aos demais reis das Túatha (“províncias”), sendo esta uma elaboração para afirmar o poder da dinastia Uí Néill que, além de deter o poder sobre Tara durante vários séculos, tornou-se uma das mais poderosas instituições políticas da Irlanda neste período  e, sobretudo, após a cristianização da ilha, apoiando a Sé de Armagh e a ortodoxia cristã .

Segundo ele, estes seriam mais do que “eventos” sendo, em realidade, “instituições” com tradições estabelecidas e regras a serem cumpridas. Através de um extenso levantamento histórico e historiográfico, contando com fontes de diversos tipos, mas, sobretudo, a Vita Tripartida de St. Patrick, a Vita Colmbae e os Anais de Ulster, ele debate a existência e a importância de tais eventos junto a autores contemporâneos seus, que tratam do mesmo assunto.

Para Binchy, haviam três grandes ocasiões pelas quais se poderiam verificar a importância e o poder de um rei:

Mór-dáil, a “Assembleia” realizada em Uisneach, durante o festival de Beltaine;

Óenach, a “Feira” realizada em Tailtiu durante o festival de Lughnasad;

Feis, o “Banquete” realizado em Tara durante o festival de Samain.

Já no início do artigo, o autor revela que seu objetivo é estudar a “Feira” de Tailtiu e o “Banquete” de Tara, tentando esclarecer por que a “Assembleia” de Uisneach seria inferior às outras  havendo, inclusive, a possibilidade de que fosse uma invenção.

No entanto, embora o doutor Binchy faça uma série de questionamentos ricos e importantes durante este texto, ela parece deliberadamente ignorar o fato de que uma miríade de fontes literárias nos traz referências sobre quatro grandes festivais na Irlanda antiga, assim como quatro grandes “províncias reais”.

Temos desta forma, a impressão de que o autor preferiu a segurança do que estava escrito, ao invés de levantar aquilo que pode ser lido nas entrelinhas: Como Beltaine era um ritual de fertilidade e uma afronta direta à ortodoxia imposta pelo cristianismo vindo do Vaticano, seria extremamente plausível que o mesmo fosse, deliberadamente “esquecido” pelas tradições monásticas Hiberneses que, apesar de procurar preservar os elementos da cultura tradicional pagã, temiam a perseguição da Sé de Armagh , sendo o mesmo plausível em relação ao “quarto festival”, que era realizado em homenagem à deusa Brigit que foi alvo do sincretismo forçado e cuja tradição original foi apagada em prol de uma santa que pouco, ou nada, conservou de sua forma original a não ser sua relação com o fogo.

Voltando ao que o autor nos apresenta em seu texto, e ao longo de sua construção, podemos identificar que estas instituições, organizadas pelos reis e atendidas pelas nobrezas locais, eram instrumentos sociais pelos quais o rei elevava seu status enquanto arauto da fertilidade e redistribuidor desta junto à sua Tuátha , assim como um exercício de autoridade e de afirmação de lealdades, conforme nos mostra esta passagem:

“The importance of a fair was proportionate to that of the king who presided over it (…) Hence, a fair convened by na over-king, to whom the rulers of several Tuatha owned alliegience, might be attended by tribesmen from these petty kingdoms”

É a partir deste ponto que o autor inicia uma série de referências sobre entradas nos anais, sobretudo os Anais de Ulster, comparando-os com uma imensa variedade de poemas e relatos pseudo-históricos a fim de desconstruir a ideia de que, ao menos no período cristão, não havia uma periodicidade definida em respeito à realização de tais encontros.

De acordo com sua análise, isso se deve ao fato de que sua importância era muito mais retórica e teórica, na construção da imagem de legitimidade e superioridade do rei de Tara em relação aos demais reis de Tuatha, uma forma de afirmar o poder da dinastia Uí Néill, motivo pelo qual o “Banquete” de Tara se manteve por muito mais tempo que a “Feira” de Uisneach: o festim realizado em Tara era a “inauguração” do rei, o momento no qual ele era aceito e aclamado.

Festividades semelhantes eram realizadas com toda a certeza nas outras três grandes “províncias” da Irlanda, mas as elaborações em torno do evento em Tara eram, sem dúvida, muito mais bem documentadas devido à importância política e à riqueza material da dinastia Uí Néill,sendo esta mais uma forma de afirmar sua superioridade e legitimidade sobre os demais reis da Irlanda, ao menos dentro de uma composição teórica.

O festival, de origem inegavelmente pagã era, mesmo durante a conversão, essencial à legitimação do monarca: era através dele que o rei se “casava” com a terra (território), momento no qual a deusa da Soberania o aceitava e no qual assumia a responsabilidade de trazer fartura à terra. Tanto que, próximo à conclusão do artigo, o autor nos diz que “the disappearence of the historical Feast marks the final christianization of the Tara monarchy ” e, consequentemente, do paganismo como poder religioso na Irlanda.

Referências Bibliográficas:

BINCHY, D. A. The Fair of Tailtiu and the Feast of Tara. Ériu vol. 18. Royal Irish Academy, 1958.

CHARLES-EDWARDS, T. M. Early Christian Ireland. Cambridge: Cambridge University Press, 2000.

LE ROUX, Françoise & GUYONVARC’H, Chrisitan-J. A Sociedade Celta. Mem Martins: Europa América, 1995.