por Ana Elisa Bantel

I EICDRC - 68

Uma das 4 festas principais da Irlanda, e tida como pan-céltica é Lughnasadh, ou Lunasa. Ocorria por ocasião da colheita e na antiguidade agregava momentos importantes da sociedade da Idade do Ferro. Era uma festividade comercial, na qual ocorria a troca e venda dos produtos confeccionados por artesãos; era também uma festa militar na qual o rei mostrava seu poder bélico através de jogos marciais e a exibição dos guerreiros, seu armamento e técnica; era, ainda, a oportunidade de firmar acordos comerciais e noivados. Por fim e não menos importante, era a época do ano de honrar o deus Lugh/Lugo, rei dos deuses, o vitorioso chefe militar dos Tuathá de Danann na Batalha de Moytura, e, o mestre em todas as artes, exímio em todas as profissões.

Honrar Lugo/Lugh é inspirar-se nele e reproduzir seus dons, aprender com sua maestria, desenvolver seus talentos, buscar a perfeição na arte. Também é ser valente e responsabilizar-se pela tribo/comunidade. Para este deus acendo o fogo sagrado no início de fevereiro, agradeço por suas dádivas, a colheita que nos alimenta e os benefícios que esta traz para a economia local. Peço que nos honre mantendo-nos sempre estudando e nos aprimorando, e que nos abençoe em nosso trabalho. E como todo hóspede merece, em sua homenagem é feito um saboroso alimento com os produtos da estação, como o milho, para ser lançado ao fogo em oferenda, com uma boa cerveja, é claro. Lugo/Lugh significa para mim responsabilidade, é o patrono do trabalho, por isso gosto de lhe oferecer aquilo que faço com minhas próprias mãos; uma pequena peça de madeira trabalhada por mim mesma cai bem como presente ao deus. Enfim, o Lunasa é o momento de agradecer ao deus, mas o momento de horá-lo, assim como a todos os outros deuses, é o cotidiano.

I EICDRC - 85Antes de comentar o Lughnasadh festejado nos últimos dias 2 e 3 de fevereiro de 2013, preciso falar de como se dá minha relação com os meus deuses, e, consequentemente, com toda a sabedoria da cultura e religiosidade em torno deles. Não tenho nenhuma vinculação sacerdotal, não sou sacerdotisa, druidista, ou etc. Sou uma mulher reconstrucionista, dona de casa, mãe, e se houvesse de escolher alguma profissão oriunda da Idade Antiga, seria certamente um guerreiro, morreria cedo e realizada. O que quero dizer com isso é que meu caminho é o da honra, ou melhor, a busca pela honra, porque ninguém pode se dizer honrado até morrer e alcançar o reino dos ancestrais. Até lá todos teremos inúmeras oportunidades de fraquejar, portanto, honra é uma busca, um estilo de vida. Logo, eu honro meus ancestrais, honro nossos deuses, honro seus ensinamentos e honro todos os esforços que fizeram para que eu esteja aqui hoje. Ou tento! 😉

Assim, minha relação com os deuses é de aprendizado, repetição dos seus valores e guardar atenção para com seus erros (sim, meus deuses não se prestam à arrogância de fugir ao convívio de outros deuses ou mortais, são seres sociais). Porque acredito que há várias maneiras de honrar os deuses, não só a ritualística. Quando me relaciono com Lugo (Lugh, Lugus) sinto gratidão pelo ensinamento das techné (as artes do mestre) que é sua bênção; procuro me espelhar na responsabilidade que ele aceitou para com os Tuthá dé ao ser escolhido rei e liderá-los em batalha, livrando-os das investidas fomorianas. Enfim, o Lugo que conheço pode ser colocado em 3 palavras principais: trabalho, coragem e responsabilidade. Estes são seus ensinamentos, e são estes que eu rogo, que me inspire a reproduzir em minha vida.

Neste Lughnasadh recebi a bênção de me aproximar de pessoas tão ou mais engajadas do que eu, e verdadeiramente inspiradoras. Tive a oportunidade de contribuir para o trabalho que já vinha sendo realizado pelo pessoal de Curitiba e senti-me honrada com isso. Tive, também, a oportunidade estar rodeada de pessoas que compartilham os mesmos ideais, ou semelhantes, aos meus, e isto, com certeza é uma bênção! Partilhamos, compartilhamos e contribuímos de alguma maneira para o bem estar do próximo, seja cortando uma lenha para o fogo, arrumando um salão comunal, lavando dormitórios e banheiros, cozinhando, enfim, um trabalho comunal, para resultados coletivos. Eu só tenho a agradecer o convite, e a Lugo por colocá-lo em meu caminho. Foi uma bela oportunidade de renovar as forças e convicções, e também de revisar atitudes; colocar em prática projetos que prometia a mim mesma mas não tomava a iniciativa. Por fim, mas não menos importante, senti que o deus e sua mãe adotiva nos honravam também, que reconheciam nossos esforços e se faziam presentes, muito dignos, na simplicidade que a pouca experiência e as intempéries do clima impuseram.

E que venham os próximos Lughnasadh(s), serão também momentos de alegria e aprendizado, tenho certeza.