Por CassYes Eithne Nerthus

I EICDRC - 182

Vovó Cambinda diz: “De nada vale esperar, sem semear. Plante Humildade e colha Bondade. O que vem amanhã é conseqüência do que você faz hoje.”

Recebi essa sabia mensagem de um amigo, logo após vivenciar o dia de Lughnassadh em 02/02/2013 d.C na companhia de membros de vários grupos druidicos de diversas localidades dos estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina, na Chácara Pequena Índia município de Piraquara/PR, onde se deu o evento.

Sem pretensões, pouco sei de vovó Cambinda, a não ser aquilo que procurei por meio da pura e mera curiosidade, e vi que ela é tida como uma entidade orixá, de grupos religiosos africanos dos quais tenho pouco conhecimento ou quase nenhum, porem com indubitável respeito. Todavia, a referida mensagem, vem a calhar, e entra num contexto em que não apenas está relacionado ao festival da colheita associado ao rei deus Lugh, mas remete-nos a uma reflexão mais profunda de nossas próprias praticas e atitudes, as quais podem e devem ser lembradas em todos os momentos de nossa existência. Assim achei relevante mencioná-la com distinção, pois sendo nossa existência cíclica, nada mais coerente que refletirmos e pensarmos mais cuidadosamente sobre os processos cíclicos de: semear-plantar, cuidar e colher, os quais realizamos de várias maneiras em diversos momentos de nossas vidas, como à saber: – no aspecto mental, plante bons pensamentos e colherá felicidade; – no aspecto espiritual, plante humildade e colha bondade; – e no aspecto físico plante o trabalho e colha alimento e fartura.

I EICDRC - 184Antes mesmo de relatar sobre o significado e os aprendizados reunidos nesse encontro de clãs druidicos e reconstrucionistas celtas, eu refletia sobre aquilo que damos e aquilo que recebemos, e aproveito para abrir parênteses (para em verdade firmar que guardo um aprendizado simples e claro, de que as lendas trazem lições carregadas de verdades, e lições são aprendizados de crescimento e fortalecimento à respeito de onde viemos, o que somos, e o que seremos ou queremos ser, – criaturas que habitam o mesmo Lar Terra e convivem as mesmas experiências e sentimentos humanos). E a lenda de Lugh não é diferente, carregada de lições, encerra o sentido de FAMÍLIA, AMOR E AMIZADE, uma colheita mais que sagrada. Sinto necessidade de retomar o pensamento anterior e ressaltar que: de onde viemos, não há como não reconhecer o valor e importância de nossos ancestrais; ao pensar o que somos, não há como não olhar para dentro e para fora de nós mesmo; e ao supor ou idealizar o que seremos, não há como não objetivar algo melhor. E assim nos remetemos às lições cíclicas da colheita em nossa própria natureza, pois o hoje só se faz pela semente do que se foi ontem, e o amanhã pelo que aprendemos e crescemos hoje. Nossa constante ação: semear e colher.

Após o encontro, não demorei e me peguei em devaneios, enaltecida pela data do festival de Lughnassad vivenciado no dia, mas tendo a sensação de que o festival iniciou antes mesmo de começar. A celebração a um rei deus celta a qual tenho grande apreço, me trouxe a idéia tripartida de FAMÍLIA, COMPARTILHAR E LUZ, aspectos esses que antecederam o dia do evento, e se fez desde a idealização, à troca de idéias, nas sugestões, nos preparativos, favores e gentilezas, na organização, disposição, na descontração, sorrisos e curtidas on line. E ali no mundo virtual, a via de luz foi traçada, numa mesma direção, com o raio de Lugh como guia, todos em sintonia, se preparando para o grande encontro. O ritual se iniciou ali, na troca, com respeito a tudo e a todos, ganhou forma e força, e tudo se encaixou fluindo com naturalidade, seja em pequenos detalhe ou providências maiores, como haveria de ser.

E assim, vi que o Lughnashsad se passou em fatos, fatos que se tornaram o próprio rito, à exemplo das pessoas que nem ao menos se conheciam, mas juntas reuniram forças com propósito mútuo de ajuda e fraternalmente construíram MOMENTOS, CANTOS E ENCANTOS. Se por um lado a lenda nos conta a atrocidade familiar em que Lugh é submetido quando criança, lançado à morte juntamente com seus dois irmãos, pelo próprio avô, por outro, a bondade e o amor incondicional de Mananan e Tailtiu que ao resgatá-lo e adotá-lo como filho, nos trás um significado maior de família, onde, APOIAR, DIVIDIR e COMPARTILHAR com um estranho, é a face do amor, assim se fez nesse encontro, onde vimos esses três aspectos durante todo o dia de celebração. A lenda de Lugh ainda nos ensina, que em honra a Tailtiu sua mãe adotiva, Lugh é levado a promover jogos e competições após sua morte, se entendermos essa pratica como um compartilhar e reconhecimento dos esforços presentes, temos que de fato, nos divertimos competindo esforços para superar com alegria o que os deuses reservaram para o momento, como a exemplo da forte chuva e as tentativas de tantos para firmar a chama da fogueira insistentemente difícil.

Entre outros fatos e lições relacionados em honra a Lugh, deixo essas comparações, certa de que numa celebração assim, o espírito não precisa meditar, o corpo aceita esperar, e a mente agradece o saber. Vale a esperança, a paciência, e a bondade.

Cantar, dançar, e manter o olhar no olhar do irmão, é sentir-se sorrindo por dentro em afirmação ao quanto é bom está ali, repetindo:
COMO É BOM ESTAMOS AQUI, PLANTANDO E COLHENDO O MELHOR DE CADA UM.
O que aqui foi colhido, também será semente e a semente será plantada, porque assim é, e assim nos renovamos!

ONTEM TERRA, HOJE CÉU, AMANHÃ SEMENTE
ONTEM CÉU, HOJE SEMENTE, AMANHÃ TERRA
ONTEM SEMENTE, HOJE TERRA, AMANHÃ CÉU
ANCORADOS À TERRA, APOIADOS PELO CÉU
ASSIM ESTAMOS.